Sem passagem por Pelotas, a segunda edição do Festival de Cinema Europeu Imovision, que iniciou nesta semana pelo país, traz em sua seleção um dos melhores filmes de 2025: Mirrors No. 3 (2025), do cineasta alemão Christian Petzold. O festival busca causar burburinho sobre filmes que a Imovision tem para lançar no circuito futuramente e é, em parte, uma forma de a distribuidora desovar o tanto de títulos que acumulou sem lançamento ao longo do ano passado. É complexo compreender como a Imovision atrasa tanto a chegada de seus filmes às salas. O circuito não é dos mais amigáveis a filmes europeus e de arte, é preciso admitir. Porém, um filme como Mirrors No. 3 merecia ter tido um lançamento mais acalorado, como outros títulos de Petzold já tiveram no país, como Phoenix, Undine, Em Trânsito e Afire.
Petzold é o cineasta dos encontros e desencontros, mas também do luto e dos traumas. É dono de uma das filmografias mais sucintas e bem realizadas da atualidade. Em Mirrors — título que remete à sinfonia de Ravel —, propõe-se a olhar para duas personagens e a sobrevivência frente à perda. Em mais uma excepcional parceria com Petzold, Paula Beer interpreta Laura, uma pianista que viaja para um final de semana no campo com o namorado. Porém, tudo muda quando eles sofrem um acidente de carro e ela acaba ilesa. O choque da perda e a mudança repentina deixam a personagem sem rumo, e ela acaba acolhida por uma testemunha, Betty, que tem uma casa logo em frente à cena do acidente. Laura e Betty acabam unidas pelas perdas que carregam e pelo processo de luto. Aos poucos, constroem uma rotina que reflete a de uma família. O esposo e o filho de Betty começam a se render à dinâmica também, com seus traumas compartilhados, em especial o de uma perda familiar.
O passado, como Petzold costuma sempre apontar, é algo de que não conseguimos escapar. Mesmo com todas as fugas, mentiras, simulacros e esforços, algo sempre nos alcança. Em Mirrors No. 3, Petzold é até gracioso e menos trágico ao exemplificar isso em comparação a alguns de seus filmes. Mas mantém-se ali sua assinatura e forte mensagem, sempre ao som de uma ótima melodia — neste caso, a música de Maurice Ravel que inspira o título do filme. Que Pelotas possa conferir o virtuosismo de Petzold em suas telas quando Mirrors chegar em um lançamento mais amplo.