A Praça Tamandaré volta a encher. As luzes do Carnaval iluminam fachadas antigas e, por algumas horas, Rio Grande parece confortável dentro das próprias lembranças. Crianças ocupam o lago com pedalinhos onde antes havia patinhos; adultos repetem histórias que começam quase sempre no passado. Aos 289 anos, a cidade sabe contar o que foi. O ponto é outro: o que fazer com essa memória.
“Rio Grande é a minha terra”, diz Darlene Pereira. Durante a programação descentralizada do aniversário, ela revisitou espaços da infância e reencontrou ex-alunos que ainda a reconhecem pelo olhar. “Quando tu olha pra pessoa, tu reconhece aquele olhar da criança”, afirma. A memória aparece como pertencimento. Mas, no cargo que ocupa, ela admite que o sentimento ganha outra medida. “Muda a responsabilidade. As pessoas dependem da política pública, e a gente não consegue resolver tudo.”
Quando fala do que a cidade precisa recuperar, a prefeita não começa por obra ou número. Fala em “autoestima”. E estabelece um limite para o discurso fácil: “Não dá pra olhar a nossa história só com nostalgia.” A aposta, segundo ela, é transformar símbolo em política concreta. A reabertura do Museu da Cidade após a enchente, a policlínica em obra e a expectativa de contratações no polo industrial entre março e abril aparecem como sinais dessa tentativa.
Rio Grande conhece bem os ciclos de expansão e retração. Conhece o impacto de um polo naval aquecido — e o silêncio dos estaleiros quando ele esfria. Se há um termômetro real para essa ideia de transformar memória em futuro, ele não está apenas nas praças iluminadas. Está no movimento dos galpões, nos contratos assinados e nas carteiras de trabalho que voltam a circular.
Quando se fala em Rio Grande, o que a senhora pensa sobre a infância, a juventude, a memória afetiva da cidade?
Rio Grande é a minha terra, é a minha cidade. Eu pude agora, durante o aniversário, visitar e relembrar vários locais, porque fizemos uma programação descentralizada. Uma memória afetiva que não é só minha, é minha e eu acho que da maioria dos rio-grandinos, é a Praça Tamandaré. No final do ano já tínhamos feito uma recuperação da praça e eventos ali, mas este ano retomamos o Carnaval na Praça Tamandaré. Ela foi enfeitada e preparada para o Carnaval, tivemos o baile da cidade, e isso traz memórias da infância. Acho que é a principal praça histórica da cidade, onde todos nós brincamos. A gente conseguiu ressignificar. Onde tinham os patinhos no lago, hoje colocamos pedalinhos, e a criançada continua aproveitando e brincando. Foi muito interessante relembrar as minhas memórias.
Estive no Povo Novo no Carnaval também, que acabou juntando o Carnaval com o aniversário da cidade lá. Relembraram fotos minhas de criança, e eu lembro de aproveitar muito na praça do Povo Novo, muitas brincadeiras e muitos carnavais na minha infância e adolescência. Foi um momento de reconexão pessoal também.
Eu conversava isso em casa com a minha família: essa oportunidade de se sentir em casa, se sentir Rio Grande, poder reviver um pouco da minha história, na relação com as pessoas também. Encontrar ex-alunos, encontrar pessoas que me conheceram quando criança, isso é muito bom. Isso realimenta a gente.
Como professora, a senhora conviveu com muitas pessoas. O que Rio Grande lhe ensinou antes da trajetória política?
Valorizar as pessoas e dar espaço para potencializar. Às vezes eu não reconheço as pessoas, até porque fui professora há mais de 30 anos. Mas quando tu olha para a pessoa, consegue reconhecer no olhar aquele olhar que era da criança na época.
Isso é muito legal. Ver o quanto é importante estabelecer relações, reconhecer e valorizar as pessoas para que elas se sintam valorizadas. Hoje eu estou numa posição diferente, como liderança do nosso município, e percebo a importância disso: fazer com que as pessoas percebam que estão sendo olhadas pela prefeita, não só pela Darlene, que muitas já estavam acostumadas, mas pela prefeita.
Existe hoje algum espaço que a senhora frequenta e onde se sente mais à vontade?
Eu não tenho muito isso de vida reservada. Já estava acostumada a fazer isso a minha vida inteira. Eu andei e transitei em todas as áreas. Desde o bairro — fiz o Carnaval domingo lá no BGV, que estava excelente — como vou para a universidade, como vou conversar com empresários.
Mas o que eu gosto mesmo é de estar perto das pessoas, estar próxima, conversando, confraternizando, construindo junto.
Um dia eu conversava com uma pessoa no bairro. Ela disse: “Ah, eu queria marcar para ir lá conversar com a senhora.” Eu respondi: “Mas a gente já está aqui, pode conversar aqui.” Às vezes é mais fácil encontrar a pessoa assim. Ela se sente mais à vontade para falar do que construir uma agenda formal no gabinete da prefeita. Eu sou, por natureza, informal.
Entrar na política mudou sua forma de enxergar a cidade?
Sempre, na minha história, seja na universidade ou na vida comunitária, eu trabalhei preocupada com a cidade e com as pessoas. Mas muda a ótica quando tu olha como prefeita. Eu não imaginava que ia mudar, mas muda a responsabilidade.
As pessoas dependem da política pública e a gente não consegue resolver tudo. Por isso faço questão de estar presente. As pessoas dizem que eu estou em muitos lugares, e é por isso. Não é obrigação formal de “tenho que ir”. É porque essa é a minha cidade, eu estou cuidando dela agora. Eu tenho que ser inteira no que eu faço.
Eu sempre fui assim. Procuro ser inteira nesse momento como prefeita. Por isso me relaciono com todos os movimentos e frentes. Eu sei o tamanho da minha responsabilidade, e ela aumenta.
Fui a todas as noites de Carnaval no Cassino. Aproveitei, porque eu gosto também. Fui feliz, brinquei, conversei… Mas isso aumenta a responsabilidade, porque tu vê que as pessoas acreditam em ti, têm expectativa. E a gente não pode frustrar essa expectativa.
A minha missão neste momento é cuidar da cidade, dar direção, buscar o melhor para Rio Grande. Por isso esse trabalho mais intensivo.
O que Rio Grande ainda precisa recuperar?
A autoestima. Quando a gente olha a nossa história, é uma história linda. Mas não dá para olhar para a história só com nostalgia, como se agora não tivesse mais nada.
A gente precisa olhar para essa história e entender que temos capacidade, temos potencial. Reabrimos o Museu da Cidade no aniversário, depois de ele ter ficado fechado por causa da enchente, para dizer que podemos sim.
Rio Grande é um dos maiores PIBs do Estado. No último ano foi a segunda cidade com maior busca por investimentos privados. Se a gente não acredita na gente, tem gente de fora que acredita.
Primeiro, nós precisamos enxergar isso. Depois, mostrar com segurança e firmeza para que outras pessoas venham, acreditem e se desenvolvam. É isso que precisamos trabalhar.
O que os jovens demonstram quando a senhora conversa com eles?
Fizemos a “Resenha dos 15”, uma festa coletiva com 14 jovens, 12 meninas e 2 meninos. Antes disso houve um trabalho com eles e com as famílias por alguns meses.
Eu dizia para eles: todo mundo tem direito de sonhar, mas não basta sonhar. Tem que sonhar e correr atrás do sonho.
Eles querem estudar, trabalhar, ter espaço na vida. São jovens em vulnerabilidade social. Quando falaram que queriam dançar, uma escola parceira deu para cada um, um ano de bolsa de dança. Não é só sobre dança, é sobre convivência, sobre coletivo.
Criamos também um centro de referência da juventude no Céu das Artes, em parceria com a escola Marista. A ideia é despertar esse espírito coletivo. Não é ser saudosista, mas potencializar para que eles tenham aspirações.