O desenvolvimento de um medicamento é dividido em etapas rigorosas, começando pelos testes em laboratório e em animais até chegar aos estudos com seres humanos. Cada fase tem um objetivo específico antes que um produto possa ser aprovado. Todo esse trabalho é realizado por pesquisadores científicos, que são homenageados anualmente no dia 8 de julho, desde a fundação da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), em 1948.
Mas, para garantir o sucesso das pesquisas, é fundamental a participação dos voluntários no processo. Nenhum medicamento chega às farmácias sem passar pelos estudos. Eles são a base para comprovar a eficácia e a segurança dos tratamentos.
O Centro de Pesquisas do Hospital Escola da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) é a prova da importância dos voluntários. De lá, saíram pesquisas que já beneficiaram a população de todo o Brasil, por exemplo, a Coronavac, aplicada durante a pandemia de Covid-19. Segundo o professor de Reumatologia da UFPel e pesquisador clínico Daniel Brito de Araújo, estudos conduzidos no centro da UFPel contribuíram para vacinas hoje utilizadas por milhões de pessoas.
“A CoronaVac foi estudada aqui. A vacina da gripe, que hoje está no SUS, foi testada aqui no centro. A vacina da dengue que está no mercado privado também foi testada aqui. São vacinas que hoje fazem parte do dia a dia da população e passaram pelo nosso centro de pesquisa”, conta.
Atualmente, o centro mantém estudos em diferentes áreas, como a vacina contra dengue, artrite reumatoide e psoríase. Todos eles com a participação fundamental de voluntários. “São 200 voluntários. A gente já tem quase 160 nessa pesquisa. Em outras pesquisas, precisamos de dez participantes que tenham artrite reumatoide e que não estejam com a doença controlada. Não existe um número-alvo. Quantos pacientes vierem, a gente vai avaliar.”
Voluntários são indispensáveis
A pesquisa clínica existe para responder perguntas que ainda não têm resposta. Para isso, ela é realizada em fases. Primeiro, as pré-clínicas, que são feitas em animais e depois as clínicas, que inicialmente são testadas em pessoas saudáveis. Posteriormente, são testadas as doses, que inicialmente são realizadas entre 100 e 300 pacientes e na última fase, os estudos maiores contam com centenas a milhares de participantes. A última etapa, a fase 4, é quando a medicação já foi aprovada e se avalia o comportamento.
Segundo o pesquisador, a importância do participante é exatamente essa. Qualquer medicação que existe no mercado atualmente passou por esse processo. “Qualquer fármaco desenvolvido pela indústria obrigatoriamente passa por essas fases. Desde o anti-inflamatório mais simples, do anticoncepcional até as medicações para oncologia, todas elas precisam de voluntários. O principal objetivo é ajudar a melhorar o tratamento daquelas doenças.”
Além de contribuir com a pesquisa, os participantes recebem um acompanhamento frequente, com consultas e avaliações periódicas durante todo o estudo. “Os participantes dos estudos têm um acompanhamento muito mais intensivo do que o acompanhamento do dia a dia. Tem estudos em que a gente vê o paciente todas as semanas durante seis meses. Ele tem um acompanhamento muito mais intensivo e muito mais personalizado do que o que a gente consegue dar tanto em um consultório privado quanto no SUS.”
A contribuição é segura
Todo estudo é acompanhado por diferentes equipes, que revisam continuamente os dados e monitoram qualquer evento adverso. Daniel explica que a pesquisa clínica é feita dentro de critérios muito rígidos e todo processo é revisado por outros médicos.
O rigor é justamente o que garante segurança dos voluntários. Daniel afirma que as pesquisas seguem protocolos rigorosos e que o participante permanece em contato permanente com a equipe responsável. “As medicações que chegam aqui já passaram por pelo menos uma ou duas fases de pesquisa, avaliando exatamente essa segurança. O voluntário tem contato 24 horas por dia com a equipe da pesquisa clínica. Dependendo da pesquisa, a gente acompanha semanalmente.”
Daniel alerta que participar de uma pesquisa envolve riscos, mas eles são controlados. Como qualquer medicamento, um produto em investigação pode apresentar perigo. Por isso existem critérios rigorosos para selecionar quem pode participar. “Toda medicação tem risco, então o voluntário é muito bem escolhido. Não é qualquer pessoa que pode participar.”
Informação vence o medo
Uma das voluntárias do Centro de Pesquisa, Ana Lucia Furtado Macedo, participa do estudo clínico DEN-04, que avalia uma nova vacina contra a dengue. Segundo ela, o esclarecimento oferecido antes da inclusão no estudo foi determinante para aceitar participar sem medo. “Antes de fazer a vacina somos informados e esclarecidos a respeito de todo o processo da pesquisa. Só depois de tudo muito bem explicado é que aceitamos ou não participar.”
Ela destaca a disponibilidade da equipe e a segurança transmitida aos voluntários. “Temos um excelente elenco de profissionais altamente qualificados à nossa disposição a qualquer hora ou dia. Se sentirmos algum sintoma é só acionar as equipes de plantão.”
Para a voluntária, participar da pesquisa foi uma forma concreta de contribuir com a saúde pública. “Tenho certeza de que ajudei outras pessoas.”
Pesquisa busca reduzir os efeitos quimioterapia
Outro importante estudo em andamento no Centro busca entender os efeitos da quimioterapia. As pesquisadoras Ethel Antunes Wilhelm e Márcia Foster Mesko acompanham pacientes com câncer colorretal para compreender como a quimioterapia afeta a dor, a saúde mental e a qualidade de vida durante e após o tratamento. “A gente acompanha pacientes diagnosticados com câncer colorretal que fazem tratamento com oxaliplatina. Nós acompanhamos esses pacientes desde o início do tratamento, durante todo o tratamento e também após o tratamento”, explica Ethel.
O objetivo é identificar fatores que possam reduzir os efeitos colaterais da quimioterapia e melhorar a permanência dos pacientes no tratamento. “A ideia é identificar fatores que possam ser modulados para melhorar a qualidade de vida.” “Muitas vezes a dor causada pelo quimioterápico faz com que o paciente desista do tratamento”, completa Márcia.
Os voluntários são acompanhados em diferentes etapas do tratamento e retornam periodicamente para novas avaliações. Atualmente são 23 voluntários, com 17 efetivamente participando da pesquisa.
O acompanhamento reúne profissionais de diversas áreas para oferecer uma visão ampla sobre a evolução de cada participante. “Nossa equipe conta com pesquisadores da universidade, médicos oncologistas, nutrólogo, enfermeiro oncológico e farmacêutico oncológico.” É uma equipe multidisciplinar”, diz Ethel.
Embora não haja promessa de benefício direto, as pesquisadoras observam que muitos pacientes se sentem mais acolhidos durante o estudo. “Tem sido muito positiva essa interação com os pacientes. Já temos observado melhora principalmente na qualidade de vida e na ansiedade. Encaminhamos para um acompanhamento mais personalizado”, comenta Márcia.
