Muito antes de receber oficialmente o título de Capital Nacional do Doce, Pelotas já construía sua identidade em torno de uma tradição passada de geração em geração. Por trás desse reconhecimento, está a história das doceiras, mulheres que transformaram suas receitas em um patrimônio cultural.
Celebrado oficialmente em 6 de junho, o Dia Nacional da Doceira presta homenagem a essas mulheres que preservam técnicas e saberes da culinária doceira. Em Pelotas, a data ganha um significado ainda mais especial, já que foi o trabalho delas que consolidou a fama dos doces pelotenses em todo o país.
Neste ano, as comemorações ocorreram neste sábado (13), no Museu do Doce, com uma programação especial voltada à valorização da história, da cultura e do trabalho das doceiras. A celebração integra o Calendário Oficial de Eventos do Município, conforme estabelece a Lei Municipal nº 6.582/2018.
Durante a tarde, os visitantes puderam participar de visitas guiadas e acompanhar palestras sobre a história da cidade. As atividades buscaram aproximar a comunidade da história e destacar a importância da preservação desse patrimônio cultural.
Durante a palestra, Suéllen de Medeiros Cortes, popularmente conhecida por Prof Suka, chamou a atenção para um aspecto que nem sempre recebe destaque: a participação da população negra na construção desse patrimônio cultural. Segundo ela, os doces pelotenses nasceram do encontro entre receitas portuguesas e conhecimentos desenvolvidos localmente pela população negra, criando preparos que se diferenciam de outras tradições do país. A historiadora também destacou que esse patrimônio permanece vivo justamente por sua capacidade de se reinventar, incorporando novas receitas e adaptações sem perder sua identidade histórica.
Para a diretora da Rede de Museus de Pelotas, Noris Leal, preservar a tradição doceira também significa pensar no futuro da cidade. Segundo ela, além de representar a identidade cultural da região, a atividade movimenta a economia e gera oportunidades de trabalho.
Noris também destacou que um dos principais desafios atualmente é incentivar as novas gerações a manterem vivo esse conhecimento, especialmente na produção dos doces de fruta, considerados entre os mais ameaçados pelo desaparecimento. “Quanto mais pessoas estiverem fazendo os doces, mais fortalecemos essa tradição. Temos uma preocupação com os doces de fruta, que são os que mais correm risco de desaparecer”, afirma.
As Tradições Doceiras de Pelotas foram reconhecidas como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil em 2018 pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. E isso é resultado de um processo de valorização de conhecimentos transmitidos entre gerações. Noris reforça que “O nosso patrimônio já é reconhecido nacionalmente. Precisamos agora fortalecer esse legado para que ele continue gerando oportunidades e ajudando a construir o futuro da cidade”, Esse reconhecimento do Iphan contempla técnicas de preparo, modos de fazer e a relação histórica da comunidade com a produção dos doces.
Dos doces finos de origem portuguesa aos doces coloniais trazidos por diferentes grupos de imigrantes, e até mesmo receitas mais recentes que conquistam espaço entre os consumidores, como o morango do amor, a tradição doceira segue viva e em constante renovação.
A programação do Dia Nacional da Doceira convidou à reflexão sobre quem construiu a imagem pela qual Pelotas é reconhecida em todo o país. Por trás dos doces que se tornaram símbolo da cidade estão gerações de mulheres que transformaram conhecimento, trabalho e tradição em Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil.
