O ano era 1953. Em Jaguarão, o jovem Aldyr Garcia Schlee, que costumava desenhar os lances de futebol que escutava pelo rádio de pilha, decidiu participar de um concurso que definiria o novo uniforme da Seleção Brasileira. Com fortes vínculos com Pelotas e torcedor declarado da Celeste uruguaia, o escritor, jornalista, professor e advogado criou o desenho que eternizou o amarelo, o verde e o azul na camisa que se tornou um dos maiores símbolos do futebol brasileiro e que neste sábado (13), veste mais uma vez a seleção canarinho, na estreia do Brasil contra o Marrocos na Copa do Mundo de Futebol 2026.
Mais de sete décadas depois, amigos e admiradores seguem preservando histórias que ajudam a compreender quem era o homem por trás do uniforme. Jornalista e amigo de Schlee por mais de 40 anos, Luiz Carlos Vaz conheceu o escritor em 1973, na Universidade Federal de Pelotas (UFPel). A amizade nasceu entre livros, conversas e encontros na casa da família Schlee, que reunia intelectuais, artistas e jornalistas da região.
“Ele não era apenas o criador da camisa canarinho. Era um homem da literatura, do direito e da cultura”, resume Vaz. Segundo ele, a criação do uniforme surgiu quase como uma brincadeira. Após a derrota do Brasil na Copa de 1950, a então Confederação Brasileira de Desportos lançou um concurso para criar um modelo que utilizasse as quatro cores da bandeira nacional. Schlee enviou seu desenho e, dias depois, viu a proposta vencedora estampada no jornal Correio da Manhã, sem o seu nome. Dias depois e após algumas ligações, o autor é oficialmente informado sobre a conquista.

Ilustrações que eternizariam a camisa verde e amarela (Foto: Reprodução)
A combinação da camisa amarela com gola verde, calção azul e meias brancas garantiu a presença das quatro cores exigidas pelo regulamento. O prêmio recebido equivalia ao valor de um carro popular da época e ainda incluía uma cadeira cativa no Maracanã. Embora a criação tenha ganhado projeção internacional com os títulos mundiais de 1958 e 1962, Schlee nunca permitiu que ela definisse sua trajetória. “Gostava de falar sobre o assunto, mas dizia que aquilo era apenas uma parte da vida dele. Depois veio a carreira de escritor, professor e advogado”, conta Vaz.
Filho da fronteira, Schlee também cultivava uma forte ligação com o Uruguai. Cresceu entre Jaguarão e Rio Branco e costumava brincar sobre a dúvida que sentiu após o Maracanazo de 1950: não sabia se chorava pela derrota do Brasil ou pela vitória uruguaia.
Uma relíquia
Entre os admiradores de Schlee está o empresário David William Lubke Jeske, proprietário da Imperatriz Doces Finos, no Mercado Central. Frequentador assíduo da loja, o escritor costumava encerrar os almoços com os tradicionais doces pelotenses. A admiração levou Jeske a procurar uma réplica da camisa original desenhada por Schlee. Quando conseguiu encontrá-la, levou-a para ser autografada. “Ele dizia que a camisa havia sido criada como símbolo de união e lamentava o uso político que fizeram dela”, recorda. Hoje, a peça ocupa lugar de destaque entre as lembranças mais valiosas do empresário. “Ela representa uma história muito maior do que o futebol. Tem valor pelo significado e pela relação com quem a criou.”
A mesa que continua reservada
No restaurante Cavalo Branco, outra homenagem preserva a memória do escritor. Durante anos, Schlee ocupou uma mesa específica do estabelecimento, onde costumava reunir amigos e saborear os tradicionais pastéis de camarão. “Quando encontrava alguém sentado ali, brincava dizendo que tinham ocupado a mesa dele”, lembra o proprietário Rogério Barreto De Paula. Com o passar do tempo, o espaço recebeu uma placa e passou a ser conhecido como a Mesa do Schlee. Até hoje, visitantes perguntam pela história do local.
A foto que ganhou o país
Uma das homenagens mais conhecidas ao criador da camisa Canarinho foi registrada pelo repórter fotográfico Paulo Rossi em 2010. O pedido foi da Folha de São Paulo para a Copa da África do Sul e o local foi o sítio de Schlee, em Capão do Leão. Na ocasião, dezenas de camisas da Seleção Brasileira enviadas ao escritor pela Nike foram penduradas em um varal improvisado, formando uma espécie de linha do tempo da equipe nacional. Ao centro, Schlee posou diante da coleção criada a partir de seu próprio desenho.

Criador da camisa brasileira também torcia para a celeste uruguaia (Foto: Luiz Carlos Vaz)
“Conhecendo a paixão que Schlee tinha pela Celeste, eu sugeri que incluísse também uma camisa da seleção uruguaia. Ele me disse que havia feito uma promessa ao filho de que naquela Copa não vestiria a camisa uruguaia. Então preferiu não colocá-la na foto”, lembra Rossi. Mesmo assim, uma referência ao país vizinho permaneceu no registro. Schlee usava uma camisa azul-clara, cor tradicional da seleção do Uruguai.
O registro foi reproduzido em diversos veículos de comunicação, integrou o livro Melhor do Fotojornalismo Brasileiro, a revista Brasileiros e a obra Retratista de Satolep, de autoria de Rossi. Após a morte de Schlee, em 2018, a imagem voltou a circular em homenagens e chegou a ser exibida pela Rede Globo durante uma transmissão entre Brasil e Uruguai. “Fico feliz por ter feito essa foto. Ela acabou se transformando em uma homenagem permanente a um grande amigo e a uma figura fundamental da nossa cultura”, afirma Rossi.
