A safra do arroz de 2026 foi considerada preocupante na metade Sul do Estado. Segundo a Emater-RS/Ascar e Federação das Associações de Arrozeiros do Rio Grande do Sul (Federarroz), os desafios econômicos enfrentados pelos produtores refletiram, principalmente, na produtividade da colheita que se encerra.
De acordo com o engenheiro agrônomo Evair Ehlert, da Emater-RS/Ascar, as principais preocupações são os baixos preços pagos ao produtor, o aumento dos custos de produção, o endividamento no campo e os possíveis impactos do El Niño sobre a próxima safra.
Já o presidente da Federação das Associações de Arrozeiros do Rio Grande do Sul (Federarroz), Denis Dias Nunes, afirma que a safra teve redução de área cultivada e deve registrar queda na produção. Segundo ele, a produtividade ficou próxima da registrada no ano passado, apesar das dificuldades financeiras enfrentadas pelos produtores.
Preço do arroz preocupa produtores
Ehlert aponta que o preço médio da saca, em torno de R$ 60, segue insuficiente para garantir rentabilidade ao produtor. O valor teve pouco acrescimento em relação ao ano passado. “Ele [valor] até pode cobrir o desembolso, mas o custo de produção não cobre. Se seguir assim, nós não temos como continuar”, alerta.
Redução da área plantada
Segundo Nunes, a região registou uma redução da área plantada e uma consequente queda de volume de produção, apesar da produtividade do plantio ter sido semelhante à de 2025. “A produtividade ainda está muito próxima do ano passado, mas com certeza vamos ter redução de volume”, explica.
Ehlert salienta que a colheita ainda não está totalmente encerrada em alguns municípios, mas os resultados em termos de produtividade ficaram dentro do que havia sido projetado pelos produtores.
Possibilidade de migração para pecuária e soja
O engenheiro agrônomo da Emater acredita que muitos arrozeiros poderão abandonar a atividade caso o cenário econômico não melhore. “Vai haver migração desses produtores para outras atividades”, diz.
Segundo ele, a principal alternativa atualmente na região é a pecuária de corte. A produção de soja também aparece como opção para áreas tradicionalmente ocupadas pelo arroz. “A principal alternativa hoje é a pecuária de corte. Depois até a produção de soja nessas áreas com arroz”, completa.
Nunes aposta na tradição para manter a produção. Segundo ele, os produtores gaúchos têm experiência no cultivo do arroz. “Nós temos todo o know-how no cultivo do arroz.”
Securitização como saída
Diante da situação financeira do produtor rural, o endividamento é generalizado no setor e agravado pelos juros elevados. Nunes defende a securitização das dívidas rurais por meio do PL 51/22 e critica a medida provisória apresentada pelo governo federal. “Ninguém trabalha com esse juro de 15%. A realidade no mercado financeiro beira os 20%.”
Segundo ele, a Medida Provisória (MP) nº 1.314/2025, apresentada pelo Governo Federal em setembro de 2025, que foca na renegociação e alongamento de dívidas com recursos do Tesouro, em vez de securitizar todo o passivo, não vai atender os interesses dos produtores. “O PL 51-22 foi construído juntamente com as entidades. A MP não vai nos atender.”
O presidente da Federarroz também orienta os produtores a não aguardarem exclusivamente medidas governamentais. “A gente aconselha os produtores que negociem antecipadamente para não ficarem inadimplentes”, completa.
El Niño preocupa para a próxima safra
Ehlert também alerta para os prognósticos climáticos da próxima safra, especialmente a possibilidade de um El Niño de forte intensidade. Segundo ele, uma primavera mais chuvosa compromete diretamente o calendário do arroz.
Segundo o engenheiro agrônomo, as áreas mais produtivas precisam ser plantadas entre o final de agosto e setembro. Mesmo com produtores já preparando áreas antecipadamente, os riscos seguem elevados. “Vai haver atrasos, e atrasos já significam menores produtividades,” diz.
Além disso, a baixa incidência solar durante o desenvolvimento da lavoura também preocupa. “O arroz precisa de água no pé e sol junto às plantas.”
O presidente da Federarroz também demonstra preocupação com os impactos climáticos. “O El Niño sempre traz uma grande dificuldade”, lamenta.
