O governo do Rio Grande do Sul apresentou, na semana passada, um prognóstico climático para 2026 onde confirmava a probabilidade de incidência do fenômeno El Niño no segundo semestre, ainda sem previsão de sua intensidade e impactos. Na Zona Sul, a preocupação é quanto ao andamento de obras que possam mitigar os efeitos de possíveis eventos climáticos extremos, principalmente nas cidades fortemente impactadas com as enchentes de 2024.
Em Pelotas, de acordo com a prefeitura, ainda que as obras tenham sido aprovadas e habilitadas no Plano Rio Grande de reconstrução, somente parte do valor foi repassado pelo governo gaúcho até o momento. Os aportes são feitos pelo Fundo do Plano Rio Grande (Funrigs), dentro do Programa de Reconstrução, Adaptação e Resiliência Climática do Rio Grande do Sul, administrado pela Secretaria da Reconstrução Gaúcha (Serg).

Vila Farroupilha aguarda intervenções na barragem Santa Bárbara (Foto: Jô Folha)
A prefeitura de Pelotas afirma que há uma série de tratativas entre o corpo técnico do Sanep e do Estado desde 2025, quando teve a confirmação de aderência ao Plano Rio Grande em julho, e o parecer do comitê técnico-científico em outubro do mesmo ano. Apenas em fevereiro deste ano a Serg teria solicitado a complementação de informações sobre os projetos apresentados.
Em entrevista à Rádio Pelotense, o prefeito Fernando Marroni (PT), no último dia 7 de abril, afirmou que o município recebeu R$ 997,7 mil para levantamento hidrológico e cerca de R$ 4,5 milhões para uma Rede Coletora de Esgotamento Pluvial para atender ao Vasco Pires e arredores. “Está sendo liberado aos poucos, as obras de reconstrução do Funrigs estão demorando muito. Nós só temos Canoas que começou as obras até agora”, disse à época. Sobre o valor necessário para todas as obras do sistema de contenção de cheias e resiliência de Pelotas, Marroni afirmou girar em torno de R$ 60 milhões.
Laranjal
Moradores de um dos bairros mais atingidos pela enchente de 2024, afirmam que pouco foi feito no local para trazer tranquilidade à população frente às previsões de chuvas mais intensas na segunda metade do ano.
O advogado Cláudio Gomes mora no bairro há mais de 30 anos e afirma que nem ele, nem seus vizinhos, dormem tranquilos à noite. “Todo mundo está preocupado. Além do prejuízo que tivemos com a água que levou nossos pertences, tem a desvalorização dos nossos imóveis, o prejuízo causado a uma vida inteira de trabalho. Muitos estão colocando suas casas para vender com medo e o bairro vai esvaziando”, diz.
Assim que as águas baixaram em 2025, os moradores, através da Associação Comunitária do Laranjal (Asclar), entraram com uma ação civil pública no Ministério Público pedindo o reforço no saneamento e drenagem do bairro. No entanto, a liminar foi negada pelo Judiciário. “Não temos esse tempo. Se tivermos um problema agora, nada foi feito para nos proteger. Precisamos pressionar para que se faça alguma coisa”, afirma Gomes.
Um abaixo assinado, com cerca de 500 assinaturas de moradores do Laranjal até o momento, deve ser apresentado ao Ministério Público para solicitar a reanálise da ação civil pública.
De acordo com a prefeitura de Pelotas, o projeto do Dique do Laranjal está em complementação técnica por parte da Secretaria de Urbanismo, e o da Casa de Bombas está no mesmo estágio pelo Sanep. Ambos devem ter retorno do Estado ainda esta semana para suas aprovações.
Barragem Santa Bárbara
Outro projeto para mitigar efeitos dos eventos climáticos extremos em Pelotas engloba intervenções na Barragem Santa Bárbara. O edital para a contratação da empresa responsável foi lançado, mas nenhuma proposta foi enviada. A Secretaria Municipal de Administração (SMA) deverá lançar um novo edital.
A obra é essencial para que casas como a da Isabel Mendes, 20, na Vila Farroupilha, não encare mais um período de incertezas. A dona de casa mora no bairro há cerca de 15 anos e, no último episódio de cheia, perdeu tudo. Mãe de um menino de dois anos, ela relembra a dificuldade que passou quando precisou sair de casa com o filho de poucos meses nos braços. “A gente fica com medo que tudo aconteça de novo. Ir com uma criança pequena pra um abrigo é muito complicado. A gente não tem visto nada mudar, por isso ficamos preocupados sempre que ouvimos sobre isso de poder ter mais chuva”, conta.
Em processo
No momento, está sendo construída a nova ponte da Colônia Z-3, cuja estrutura anterior foi levada pela enchente. A obra é realizada com recursos do Fundo Nacional da Defesa Civil, do governo federal, com investimento de R$ 897 mil.
Outra demanda antiga é a construção de um dique na Estrada do Engenho, às margens do Canal São Gonçalo. O projeto está no trâmite do Plano Rio Grande, mas ainda são necessárias complementações no projeto. Segundo a prefeitura, diferentemente dos outros projetos, neste não será praticado o modelo de contratação integrada, que é quando a empresa realiza o projeto executivo e a obra ao mesmo tempo, por isso, a construção do projeto precisaria ser mais detalhada por parte das equipes do município.
