Instituto João Simões Lopes Neto projeta futuro como centro cultural

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Instituto João Simões Lopes Neto projeta futuro como centro cultural

Entidade, que completa 20 anos, está sendo preparada para alcançar públicos que ainda não conhecem o escritor regionalista

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Atualizado sábado,
11 de Abril de 2026 às 08:59

Instituto João Simões Lopes Neto projeta futuro como centro cultural
Paulo Marques diz que o IJSLN surgiu para organziar o acervo e fomentar novas leituras sobre Simões (Foto: Ana Cláudia Dias)

Neste ano o Instituto João Simões Lopes Neto celebra duas décadas de atuação, consolidando-se como uma das principais referências na preservação e difusão da obra do patrono da entidade. Fundado com o propósito de manter viva a memória e a relevância do autor pelotense, o Instituto caminha agora para a ampliação de projetos.

A atual diretoria, presidida pelo professor Paulo Marques, propõe-se a reposicionar a Casa como agente ativo na produção cultural e educacional. A nova fase aposta na ampliação de público, na formação de pesquisadores e na valorização da obra de um dos principais nomes da literatura brasileira.

Criado em 2006, o Instituto surgiu da preocupação de pesquisadores e entusiastas da obra de Simões com a necessidade de preservar, organizar e difundir o legado literário do escritor, considerado um dos maiores nomes da literatura regionalista. Desde então, a entidade atua na realização e promoção de estudos, eventos, publicações e ações educativas voltadas tanto ao público acadêmico quanto à comunidade em geral.

De acordo com o professor Paulo Marques, a fundação da entidade respondeu a uma lacuna histórica. “Havia um reconhecimento da importância do Simões Lopes Neto, mas faltava uma instituição dedicada exclusivamente a organizar esse acervo e fomentar novas leituras sobre a obra dele”, afirma.

Ao longo de sua trajetória, o Instituto construiu um acervo significativo, promoveu seminários e estabeleceu parcerias com universidades e centros culturais. Também realizou o Prêmio Simões Lopes Neto de Artes Visuais e em 2005 lançou o Prêmio 300 Onças, que reconhece, desde então, aqueles que se destacaram no trabalho pela preservação da memória e na divulgação da obra do escritor pelotense. Essas iniciativas contribuíram para alavancar a obra do autor no cenário contemporâneo e ampliar seu alcance para além do Rio Grande do Sul.

Sede histórica

Desde a sua criação o Instituto ocupa uma casa histórica. Além de ser um imóvel da rua Dom Pedro II, 810, construído no século 19, mais precisamente em 1891, o prédio pertenceu ao próprio Simões, que residiu por lá, já casado com Francisca de Paula Meireles Leite. Foram cerca de dez anos neste endereço, de 1897 a 1907, período em que escreveu obras para o teatro e a lenda O Negrinho do Pastoreio, publicada pela primeira vez em 1906.

Casa em que o escritor morou está apta para receber eventos (Foto: Ana Cláudia Dias)

Nesta mesma residência funcionou também a firma João Simões & Mendes, uma das empresas criadas pelo escritor, esta em sociedade com o cunhado José Gomes Mendes. A identificação da casa coube ao pesquisador e biógrafo de Simões, Carlos Sica Diniz. “Foi a segunda casa dele, depois de casar, ele tinha morado em outra residência, e depois, ele comprou essa casa. Diniz encontrou nos cartórios toda a documentação de compra e venda, de quem o Simões tinha comprado, inclusive depois para quem ele vendeu”, explica Marques.

Na década de 1990 a casa pertencia a uma entidade religiosa, que a vendeu para uma empresa imobiliária. Após a identificação do imóvel, os simonianos, grupo de pesquisadores e estudiosos da obra do escritor, fizeram uma grande mobilização social envolvendo prefeitura, Câmara de Vereadores, Ministério Público e governo do Estado, para impedir que a casa fosse derrubada.

“Inclusive teve o apoio desse proprietário, que se somou a essa mobilização, para conseguir impedir que a casa fosse derrubada e iniciar um processo de recuperação do prédio”, relembra Marques. Para isso era necessário, através do governo do Estado, conseguir recursos, através de leis de incentivo à cultura, foi então que o Instituto foi criado.

Patrimônio do Estado

“O Instituto João Simões Lopes Neto ficou responsável por organizar todo o processo de arrecadação do acervo e a criação de projetos para pleitear recursos, via leis de incentivo à cultura. E eles ganharam a LIC e iniciou-se a recuperação da casa, que foi concluída, demorou uns quatro anos, em 2006 ela foi concluída”, relembra o presidente da entidade. Em 4 de outubro de 1999, o Estado sancionou o projeto de lei número 138/99, que declarava o imóvel integrante do patrimônio cultural dos gaúchos.

A inauguração ocorreu em 9 de março, dia do aniversário de Simões Lopes Neto, de 2006. “O objetivo era transformar a Casa Simões Lopes Neto num centro cultural”, fala Marques. A casa foi aberta à comunidade, apresentando um conjunto de atividades e de espaços, como, por exemplo, uma biblioteca aberta ao público. O acervo é composto por obras raras, as primeiras edições de Simões, materiais pessoais dele, fotos raras de família e também obras de estudiosos do conjunto da obra. “O acervo é muito rico. Tem as primeiras edições dos Contos gauchescos (1912), das Lendas do Sul (1913), da editora Universal aqui de Pelotas, que foi a primeira, que lançou as edições de 1913 e 1910, que foi a obra Cancioneiro Guasca. Temos também uma biblioteca muito rica, que serve para pesquisadores”, fala. A sede ainda possui um auditório para a realização de conferências, debates, seminários e espaço para exposições, que permanentemente exibe obras e materiais relacionados com o autor.

Como entidade privada de interesse público, o Instituto depende de contribuições de associados e patrocínios. Atualmente, conta com apoio de empresas parceiras, mas busca ampliar essa rede por meio do programa Empresa Amiga do Instituto.
A meta é garantir sustentabilidade financeira e, ao mesmo tempo, ampliar a oferta de atividades gratuitas à população.

Obra em diálogo com o presente

Para Marques, o papel do Instituto vai além da preservação. “A nossa missão não é apenas guardar documentos, mas manter a obra viva, em diálogo com o presente. A literatura do Simões continua extremamente atual”, destaca. Segundo ele, essa perspectiva tem guiado as ações da entidade ao longo dos anos.

Atuação de Simões no teatro também está presente no Instituto (Foto: Ana Cláudia Dias)

Entre as novidades recentes, o Instituto tem investido na digitalização de acervos, na produção de conteúdo online e em projetos educativos voltados a novas gerações. A ampliação da presença digital é vista como estratégica. “Precisamos estar onde o público está hoje. A tecnologia permite que mais pessoas tenham acesso a esse patrimônio cultural”, ressalta Marques.

Outra frente de atuação envolve a realização de eventos híbridos, combinando atividades presenciais e virtuais, o que tem ampliado significativamente o alcance das iniciativas. Além disso, há planos de expansão de parcerias institucionais e desenvolvimento de novos projetos editoriais.

“Chegar a duas décadas é um marco importante, mas também um ponto de partida para novos desafios. Ainda há muito a ser feito”, conclui o professor Paulo Marques.

Com uma trajetória marcada pela dedicação à memória literária e pela busca constante de inovação, o Instituto segue como um agente ativo na construção e difusão do patrimônio cultural brasileiro, mantendo viva a voz de um dos seus autores mais emblemáticos.

Novas ações e projetos

Entre as iniciativas implementadas está a criação da Livraria Mário Matos, inaugurada em março. O espaço reúne obras de Simões, literatura gaúcha e clássicos, que estão à venda, bem como souvenirs identificados com o Instituto. O espaço, a primeira sala à direita do casarão, está aberto também para acolher clubes de leitura e atividades educativas.

Outro destaque é o lançamento do curso inédito Vida e Obra de Simões Lopes Neto, estruturado em três módulos: biografia, análise da obra e estudos contemporâneos, que começou esta semana. Com carga horária de 22 horas e edições previstas ao longo do ano. O objetivo é formar multiplicadores, especialmente professores e estudantes. “Queremos, principalmente, atingir professores da rede pública ou privada, professores de ensino médio, ensino fundamental, pesquisadores, estudantes de Letras, de História, mas também é aberto à população em geral. A ideia é fazer com que as pessoas conheçam Simões”, explica.

Os encontros são presenciais, no Instituto, das 19h às 21h, nas quintas-feiras. “O curso ocorrerá durante três meses, mas a ideia é que seja permanente. Essa é a primeira edição, neste primeiro semestre, a segunda edição é em agosto”, comenta o professor.
A entidade também retoma o Núcleo de Estudos Simonianos, voltado à pesquisa acadêmica interdisciplinar. A proposta é estimular novas investigações sobre a obra do escritor, que dialoga com áreas como história, filosofia, psicologia e antropologia.

Programação cultural e eventos

A agenda do Instituto passa a incorporar atividades regulares, como as Conferências Simonianas, que ocorrerão mensalmente com especialistas de diferentes áreas. A primeira está prevista para maio, com uma análise filosófica da obra do autor.

Outro projeto estruturante é a criação da Semana Simões Lopes Neto, programada para a semana que marca a morte do escritor, que ocorreu dia 14 de junho de 1916. O evento, que deve se tornar anual, incluirá palestras, exposições, apresentações teatrais e exibições audiovisuais, marcando os 110 anos da morte do escritor.

“Queremos inaugurar a Semana Simões Lopes de 10 a 14 de junho”, comenta. Para Marques é muito importante que por estes dias o teatro esteja presente no evento, porque Simões também foi um dramaturgo, escreveu e teve suas peças montadas em palcos, como Sete de Abril.

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