Quadros Horripilantes, a obra de Francisco de Paula Pires reeditada após cento e quarenta e dois anos

Opinião

Luís Rubira

Luís Rubira

Professor de Filosofia

Quadros Horripilantes, a obra de Francisco de Paula Pires reeditada após cento e quarenta e dois anos

Por

Retomo aqui a abordagem de Quadros Horripilantes, cuja narrativa transcorre entre as cidades de Pelotas, Rio Grande, Porto Alegre e Bagé (neste caso, embora não apareça o nome da cidade, a referência à “rua do Monteiro” parece uma evidência, visto que nela havia uma rua com este nome até o ano de 1881).  Amélia, a moça dotada de “uma compleição ardente e voluptuosa”, após o plano bem-sucedido de sua mãe, Felisberta, casara-se com Donati. Trabalhando longe de casa o dia inteiro, em determinado momento ele “havia suspeitado qualquer mau procedimento por parte de sua esposa” (p. 40). A desconfiança e a dificuldade financeira numa cidade do interior leva o casal a mudar-se para Porto Alegre. Na capital, em “breve a miséria bateu-lhe à porta” (p. 42). O desfecho é trágico: pobreza, alcoolismo, prostituição. Numa última tentativa de escapar de “todos os degraus do vício”, Donati parte com Amélia para sua terra natal, a Itália. Mas em Roma, em breve ambos caem na “extrema miséria”. Amélia, “contaminada por uma moléstia sifilítica”, em pouco tempo vem a falecer.

Neste ponto do livro, começa a narrativa com foco em Adelina, que inicialmente mantinha namoros com homens. Felisberta, diante dos parcos recursos econômicos que dispunha após a morte do esposo, conduz Adelina a um casamento com o tenente Brígido. Como Adelina “obstinadamente negava-se a preencher os deveres conjugais” (p. 55), Brígido faz uma viagem com ela para a capital, onde passarão dois meses. Nela, Adelina fica encantada com um italiano que é tenor numa companhia lírica, e determinados eventos farão que ela e Brígido voltem a morar numa cidade do interior.  Nesta cidade Adelina, já grávida, passa a ter um caso com uma mulher casada, Joaninha (que tinha úlceras sifilíticas na garganta), até ser flagrada por Brígido, que dela se separa. Adelina muda-se para a capital, onde administrará um casebre cujas frequentadoras “deixaram em breve os maridos; outras tornaram-se mulheres públicas”.

A convite de um pretendente, ela volta para Pelotas com sua filha e a amante – “uma menina de quinze anos” (p. 64). Em pouco tempo separa-se do pretendente e segue com a filha e Josephina “para o interior da Província” (p. 67). Numa noite, Adelina e Josephina dirigem-se a um “lupanar”, no qual “o vinho rolaria solto a par de bons assados” (p. 70). Depois de comerem e beberem em demasia, deixam o baile e pegam muita chuva no caminho para casa. Com “os pés molhados e a roupa (…) completamente ensopada”, voltam a beber e, após manterem relações, Adelina morre no leito.

Na obra Quadros Horripilantes, embora o intelectual abolicionista e republicano Francisco de Paula Pires pretende-se narrar os “fatos da vida real”, sua interpretação da realidade ficou vinculada ao conceito “científico” de natureza humana acerca da “ninfomania”. Ao longo das narrativas, ele prima por mostrar que Felisberta mantinha relações paralelas com Rita e um fotógrafo, sendo que anos depois, “já gasta pelos gozos sensuais”, ela passa a viver com Violante, moça de 19 anos. Segundo o autor, nestas relações ela buscava mitigar “os ardores da sua enfermidade”. Por meio deste comportamento teria exercido influência sobre o destino das filhas: Amélia teria relações heterossexuais e Adelina de safismo (neste caso, Paula Pires fez questão de enfatizar, num momento em que Adelina e Joaninha estão entregues uma à outra, que esta última, ao perguntar para sua companheira “quem lhe ensinara aquilo”, ouve de Adelina a resposta de que fora “sua mãe”). Em última análise, ao tentar fixar em “quadros” o destino social de Amélia e Adelina como decorrentes da “fisiologia” de Felisarda, Paula Pires mostrou sua vinculação ao juízo de valor moral contido à época na definição de “ninfomania”.

Livro que se presta às mais diversas formas de análise e que estava desaparecido após a publicação em 1883, uma reedição foi realizada recentemente pelo pesquisador Jandiro Koch (Porto Alegre: Editora Bestiário, 2025). Ao narrar os diversos anos em que tentou localizar um exemplar, após conseguir uma fotocópia do mesmo em Pelotas com o historiador Eduardo Arriada, Jandiro Koch percebeu que “tinha em mãos algo raro, mormente para pesquisadores sobre gênero e sexualidade” (p. 151), algo que o conduziu à transcrição do texto de Francisco de Paula Pires e também ao resgate e organização de seus “contos” e “versos”, seus “apontamentos biográficos”, suas “críticas naturalistas/positivistas”, seus “textos castilhistas”. Ao final do capítulo “Um posfácio”, Jandiro Koch aporta diversos estudos e uma interpretação dos Quadros Horripilantes.

A escolha da imagem da capa para a reedição da obra é primorosa e fez-me lembrar de uma situação epidemiológica atual. De autoria de Christopher D’Alton, que na segunda metade do século dezenove trabalhou num hospital inglês e produziu ilustrações detalhadas de pacientes com doenças dermatológicas graves, a imagem intitula-se “Sífilis; feridas e pústulas no braço de mulher, 1858”. Na parte debaixo está escrito: “Prurido pustuloso em paciente afetado por sífilis secundária”. Doença infectocontagiosa que segue ativa em nosso século, dados do Ministério da Saúde mostram que “em 2021, foram registrados no Brasil mais de 167 mil novos casos de sífilis adquirida e 74 mil casos em gestantes”. Algo alarmante em relação aos anos anteriores.

Nota: A reedição de Quadros Horripilantes, organizada por Jandiro Koch é obra que recomendo às pessoas leitoras. No sentido de contribuir com detalhes que escaparam à transcrição do texto, aporto aqui, a partir do original, a seguinte revisão: p. 15 “gravemente enferma”; p. 16 “rua 7 de Setembro”; p. 19 “relance, aquela”; p. 21 “da Traviata”; p. 22 “conhecida por Delica”; p. 23 “entre as moitas”, “proporcionar momentos”; p. 26 “preparar vários capilés”, “torneada via-se patentemente”; p. 27 “nunca o conseguiu”; p. 29 “moça admitiria”, “Em tal conjuntura”, “dos seus negócios”, “frente à casa”; p. 33 “cuidando das suas”; p. 34 “enfermo seu velho pai”, “aproximou-se de seu pai”, “durante as horas”, “mau procedimento por parte da sua”; p. 41 “lábios carmesins”, “uma linda rosa”, “sacudidos por uma viração”; p. 42 “estivesse nas condições”; p. 44 “chegavam sempre às postas” (postas eram estações onde havia troca de cavalos); p. 48 “fazia na garganta”; p. 50 “botões: ao hotel”; p. 53 “foi logo fallada” (com dois eles, pois é palavra espanhola), “que queria tirar uma”, “continuava como comparsa”. Por fim, além da nota 3 estar fora de lugar; do número do capítulo ser IX (em romanos) e não X; também faltam alguns itálicos, travessões, aspas, ponto e vírgula, e um parágrafo na p. 52 (depois de “suas caldeiras”), a saber: “Nunca rezei um padre nosso por alma daquele condenado”.

Acompanhe
nossas
redes sociais