Em um mundo marcado pela hiperconectividade e pelo imediatismo digital, construir e manter relacionamentos saudáveis tornou-se um dos maiores desafios da vida moderna. Para compreender como a neurociência e a terapia emocional podem ajudar a sair do “modo automático” e desenvolver a chamada inteligência relacional, Ronaldo Tisatto, especialista em neurociência da consciência e terapeuta emocional, traz reflexões fundamentais para quem vive no mundo digital.
Em um mundo tão conectado, qual é o papel das relações saudáveis hoje, na tua opinião?
As relações saudáveis, eu acredito que seja o desejo de toda pessoa. Nós somos seres emocionais e, sendo assim, a gente precisa entender essas emoções para desenvolver essa inteligência relacional. Então, passa pela inteligência emocional e vai para a inteligência relacional, a partir do entendimento das emoções.
E esse termo, “inteligência relacional”, é um conceito novo ou já é algo que vocês estudam há mais tempo?
O termo em si é novo para o grande público, assim como a própria dinâmica das relações modernas. Pense em um casal que está começando a construir uma família: para eles, tudo ali é novo. O homem e a mulher trazem suas bagagens e aprendizados emocionais, mas não trazem teorias na mala. Por isso, o dia a dia muitas vezes vira um exercício de apagar incêndios. Todo mundo quer uma relação saudável e próspera, mas, para alcançar isso, é preciso olhar para dentro, entender como funcionamos e perceber quais expectativas estamos projetando no outro.
Em uma conversa ou debate mais caloroso, dependendo da situação, podemos ativar gatilhos emocionais na outra pessoa. Você acha que, nesse mundo onde tudo é para ontem e estamos hiperconectados, esse é o nosso maior desafio?
Sem dúvida. Os gatilhos estão o tempo todo disparando reações baseadas no que carregamos internamente. Quando estamos conscientes, conseguimos viver no presente e agir de forma mais alinhada com o que queremos. O problema é que passamos a maior parte do dia no modo automático, cerca de 90% a 95% do tempo. Quando operamos no automático, ficamos vulneráveis aos gatilhos. Alguém esbarra em uma ferida nossa sem saber, ou nós mesmos reagimos sem entender o porquê. Isso gera reações que vão desde explosões até o distanciamento e o isolamento. Em qualquer um dos extremos, nós perdemos o que há de melhor nas relações.
E nas redes sociais, onde temos o mundo nas mãos, mas, no momento do encontro real, parece que muitos não sabem como agir ou reagem mal. Esse também é um tema debatido entre os terapeutas?
Sim, conversamos muito sobre isso, justamente por conta das expectativas. As redes sociais alimentam constantemente o nosso desejo de aprovação. O problema do ambiente online é o imediatismo; as cobranças e estímulos acontecem 24 horas por dia, sem pausa ou horário comercial. Para lidar com isso, precisamos fortalecer a nossa consciência, mas sabemos que é uma disputa diária e desproporcional.
E nós conseguimos praticar e exercitar isso desde a infância, com as crianças, ou é algo que só passamos a entender com a maturidade e os tombos da vida?
É totalmente possível começar cedo. Não existe uma receita de bolo, pois cada indivíduo funciona de um jeito, mas o nosso sistema automático é treinável. Claro que isso exige tempo, esforço, consciência e método científico. No entanto, quando falamos em gatilhos emocionais, mais do que treinar, precisamos investigar. O caminho envolve um protocolo individualizado para ouvir o paciente e aplicar técnicas de escuta e mentalização. Nossos gatilhos e comportamentos automáticos são fundamentados nas memórias armazenadas no hipocampo. Ou seja, o que vivemos no passado projeta a forma como agimos no presente e, muitas vezes, atrapalha a nossa vida atual. Por isso, tratar o passado é fundamental.