Responsável pelo Departamento de Resíduos Sólidos do Sanep, Edson Plá analisa os dados mais recentes do Índice de Sustentabilidade da Limpeza Urbana (ISLU). Com mais de 40 anos de atuação na área, ele detalhou os avanços de Pelotas, os desafios financeiros e, principalmente, o papel decisivo da população para melhorar os indicadores.
Pelotas aparece com classificação média no índice. Como você avalia esse resultado?
Eu, particularmente, como técnico, fiquei muito satisfeito com essa classificação. Quando a gente compara Pelotas com outros municípios do Estado e até do Brasil, percebe que a média geral é baixa. Mesmo em regiões mais desenvolvidas, como Sul e Sudeste, os índices não são altos. Então, estar em nível médio, nesse contexto, é um resultado positivo.
O que esse índice avalia?
É uma ferramenta estatística que verifica se o município atende aos princípios da Política Nacional de Resíduos Sólidos. Ele se baseia em quatro indicadores: prestação de serviços, impacto ambiental, sustentabilidade financeira e participação da população. Ou seja, não depende só do poder público, mas também do comportamento da comunidade.
E como Pelotas se sai nesses indicadores?
Nos dois primeiros, que avaliam a atuação do município, nós temos desempenho excelente. Pelotas tem 100% de coleta seletiva na área urbana, coleta domiciliar integral e tratamento adequado dos resíduos de saúde. No impacto ambiental, temos a destinação correta dos resíduos e sem lixões ativos. Os outros dois indicadores puxam a nota para baixo. Um deles é a sustentabilidade financeira. Quanto mais o município investe em tecnologia e serviços, maior o custo. E nem sempre a arrecadação acompanha. O outro ponto que pesa negativamente é a participação da população. Esse é o indicador em que tivemos o pior desempenho. Apesar de toda a estrutura disponível, como ecopontos e coleta seletiva em toda a cidade, ainda há pouca adesão. As pessoas misturam resíduos, descartam irregularmente e não utilizam os serviços oferecidos.
O que a população pode fazer para melhorar esse cenário?
O básico: separar corretamente os resíduos, respeitar os dias da coleta e utilizar os ecopontos. Hoje, nenhuma residência fica menos de cinco dias sem coleta, somando orgânica e seletiva. Mesmo assim, o serviço é subutilizado.
Falta informação ou conscientização?
Informação existe. O Sanep divulga nas redes sociais, no site e há até aplicativo da prefeitura que mostra dias e horários de coleta. Falta, na verdade, a população assumir seu papel como geradora de resíduos.
Há também problemas com descarte irregular?
Sim, e isso é muito grave. Muitas vezes, as pessoas contratam freteiros ou carroceiros que descartam os resíduos em terrenos baldios. Isso gera custo extra para o município, porque exige equipes e equipamentos específicos para retirada.
Há novos projetos em andamento?
Sim. Estamos participando de um edital para implantação de uma usina de compostagem em larga escala, possivelmente entre 2026 e 2027. Isso vai ajudar a reduzir a quantidade de resíduos enviados ao aterro.
Para encerrar, qual é o principal desafio hoje?
Equilibrar investimento e receita e, principalmente, aumentar a participação da população. Porque não adianta o poder público fazer a sua parte se a comunidade não acompanha. Se conseguirmos avançar nisso, Pelotas tem condições de estar entre os melhores índices do país.