O professor Flávio Sacco dos Anjos, da Universidade Federal de Pelotas, estreia na literatura de ficção com o romance histórico A última fronteira de Domênico Sacco (270 páginas), disponível em versões impressa e digital na Amazon. Na obra o autor resgata uma trajetória familiar para narrar, com base em fatos reais, a experiência da imigração italiana no Sul do Brasil e o entrelaçamento com a Primeira Guerra Mundial.
O livro acompanha a vida de Domênico Sacco, tio-bisavô do autor. O italiano chegou ao Brasil ainda jovem, em 8 de agosto de 1898, no final do século 19, junto à família que buscava melhores condições de vida. “Havia uma história familiar que esteve assim muito escondida e que, de certa maneira, é a história dos imigrantes aqui em Pelotas”, afirma o escritor.
Segundo o professor, a motivação para escrever surgiu da necessidade de trazer à tona memórias que permaneciam dispersas. “Isso me fez mergulhar, digamos, na história da cidade, sobretudo porque eu soube que ele (Domênico) tinha uma inclinação aos movimentos anarquistas, anticlericais que foram a base do sindicalismo no Brasil e a partir daí, mas por alguma razão desconhecida, ele resolve voltar pra Itália e se vincular ao exército italiano”, relembra o autor.
Desde a Itália
A narrativa percorre desde a saída da família do sul da Itália até a adaptação em Pelotas, onde os Sacco participaram do desenvolvimento econômico local, especialmente nas primeiras iniciativas industriais, como a produção de conservas de pêssego. Ao mesmo tempo, o romance mergulha em um período de intensas transformações sociais, marcado pela chegada de imigrantes europeus e pela formação de movimentos operários.
O ponto de inflexão da história ocorre quando Domênico decide retornar à Itália para lutar na guerra. “Aos 17 anos ele chegou aqui, e 17 anos depois, quando explode a Primeira Guerra Mundial, decide voltar para a Itália e se alistar”, relata Sacco dos Anjos.
Herói de guerra
O Domênico que inspirou o personagem do romance morreu em Montegrappa em 1917, episódio que estrutura o desfecho da obra. “Ele é um herói de guerra, na Itália ele foi condecorado. Eu consegui que o Ministério da Defesa italiana me desse a medalha dele, que entreguei para minhas irmãs e minha mãe”, conta o escritor.
Embora baseado em acontecimentos reais, o autor ressalta o caráter literário do trabalho. “Não é um livro de história, é um romance. As circunstâncias são reais, mas há um fio condutor narrativo”, explica. A reconstrução do contexto exigiu pesquisa em documentos históricos e visitas aos locais onde os eventos ocorreram, especialmente na Itália.
Identidade e pertencimento
O livro também aborda temas como identidade, pertencimento e os dilemas humanos em tempos de conflito. Para o autor, trata-se de uma narrativa que extrapola o âmbito familiar. “É uma história que conta também da nossa cidade, desse capítulo tão marcante que é a chegada dos imigrantes”, destaca.
Após quase quatro décadas dedicadas à carreira acadêmica, com atuação nas áreas de sociologia rural e antropologia, Flávio Sacco dos Anjos vê na literatura uma nova forma de expressão. “Foi a primeira vez que escrevi algo que não é técnico. É um romance baseado em fatos reais”, afirma.
A obra terá ainda uma versão em italiano, em preparação, ampliando o alcance da narrativa para além do Brasil. Enquanto isso, o autor planeja um lançamento presencial em Pelotas nas próximas semanas, o que reforça o vínculo entre a história contada e a cidade onde ela se desenvolveu.