A jovem Layla Centeno Ribeiro, de 23 anos, está entre os sobreviventes do grave acidente registrado na última sexta-feira (2), no km 491 da BR-116, em Pelotas, que deixou 11 pessoas mortas e ao menos 12 feridas após a colisão entre um ônibus de linha e uma carreta carregada com areia.
Moradora de Pelotas, Layla seguia para Turuçu, onde pretendia passar o dia com a mãe. Em entrevista, ela relata com detalhes o que viu e sentiu antes, os momentos de tensão e medo, durante e após o impacto, além de refletir sobre a dimensão da tragédia e deixar um apelo por mais atenção nas estradas. Confira a entrevista na íntegra:

(Foto: arquivo pessoal)
Onde você estava sentada no ônibus e qual era o cenário antes do acidente?
Eu estava sentada na penúltima poltrona do lado direito. Percebi que tinha algo errado logo depois que o ônibus passou pela Ecovias Sul [Serviço de Atendimento ao Usuário], porque ele chegou a parar, por alguns segundos. Aí ficou aquela movimentação: os passageiros começaram a olhar para fora. Me levantei do banco e consegui enxergar a lona preta de um caminhão. Cheguei a imaginar que fosse pista simples, porque a gente já está acostumado com essa função das obras de duplicação – às vezes uma pista para e só a outra funciona. Nesse momento, inclusive, o cobrador, que estava sentado atrás de mim, foi até a frente do ônibus. Normalmente eles fazem isso, vão ficar com o motorista. Logo depois dessa parada, o ônibus seguiu viagem normalmente. Alguns segundos depois, aconteceu a batida.
O que você lembra do instante do impacto?
Eu lembro é de um barulho muito forte. Logo depois do impacto, fui projetada para a frente. A gente se levantou no desespero, mas não houve gritos naquele instante. Acho que foi um susto para todo mundo. Todos estavam sentados e, quando aconteceu, só aconteceu. O que mais me marcou foi quando me levantei do banco e vi aquele morro de areia. Aí, sim, as pessoas começaram a se desesperar. Começou um alvoroço. Ficaram nervosos, tentaram quebrar as janelas. Foi tudo muito rápido.
Depois da colisão, qual foi a primeira coisa que você viu ou sentiu?
Eu fui arremessada para a frente e para o lado. A primeira coisa que fiz foi olhar ao redor. Me levantei do banco e vi pessoas muito machucadas, com a boca machucada, os braços machucados. Nesse momento, comecei a perguntar se elas estavam bem, enquanto outras pessoas já tentavam quebrar os vidros para sair.
Muitas vítimas ficaram soterradas pela areia. Como foi a sua situação dentro do ônibus após o impacto?
Essa é uma das perguntas mais difíceis de responder. Quando eu subi no ônibus, me lembro que havia bem mais pessoas sentadas na parte da frente do que atrás. Quando aconteceu e me levantei do banco, eu só vi um morro de areia. Agora eu penso: ‘naquele morro de areia tinham 11 pessoas’. É muito triste. Ficou muita areia dentro do ônibus. Depois do impacto, as partes de cima do ônibus, aquelas estruturas de metal, caíram, algumas ficaram sobre a areia. Estava tudo muito destruído.
Houve ajuda imediata entre os passageiros antes da chegada do resgate?
Sim. Duas ou três pessoas já quebraram as janelas. Antes de descer, eu ainda ajudei uma senhora a sair pela janela. Foi tudo muito rápido. Alguns já tinham conseguido descer e, a partir disso, começaram a ajudar os outros. Um senhor que saiu antes me pediu para achar a carteira e o celular dele. Eu achei. E a gente começou a jogar para fora tudo o que conseguia: mochila, bolsa, o que estivesse ao alcance.
Como foi o trabalho dos socorristas aos seus olhos?
Foi muito bom e rápido. Pela complexidade da situação e pela areia, entendo que era um trabalho delicado, mas os primeiros socorros foram muito rápidos, acho que justamente pela proximidade da Ecovias Sul. No momento em que desci do ônibus, já haviam duas ambulâncias e algumas pessoas já haviam descido.
Houve algum tipo de temor que passou pela sua cabeça naquele momento?
Na hora de descer do ônibus, eu ainda fiquei por ali. Consegui pegar meu celular, minha mochila e ajudar aquela senhora. Eu tinha muita vontade de ajudar mais pessoas, principalmente as que estavam soterradas. Mas não sou da área da saúde e, quando comecei a falar que tinha gente ali e que queria ajudar, uma moça do lado de fora do ônibus me disse para sair, porque estava vazando combustível e quem conseguisse sair precisava sair. Um momento bem difícil foi essa escolha: ficar e tentar ajudar mais gente ou respeitar o pedido e descer. No fim, o meu medo era que o ônibus tombasse ou pegasse fogo. Eu respeitei o pedido da moça e saí do ônibus assim que foi possível.
Que tipo de ferimentos ou outros impactos você sofreu?
Fisicamente, o único ferimento que tive foi no joelho. Acho que ele foi projetado para a frente e bateu no banco. Ainda está um pouco roxo, mas nada de mais. O mais difícil tem sido lidar com o psicológico. No momento, estou muito abalada. Sempre que lembro, eu choro e fico mal. Tenho tentado rezar bastante, agradecer pela minha vida, rezar pelas famílias que perderam pessoas e também por quem ainda está no hospital.
Como você lida com a dimensão da tragédia e o número de vítimas?
Sempre tive dimensão do que tinha acontecido. Ainda dentro do ônibus, consegui ligar para a minha mãe, que trabalha no posto de saúde de Turuçu. Pedi para ela me buscar e, ao mesmo tempo, para avisar os colegas de trabalho para acionarem o Samu, porque tinha acontecido algo muito grave. Eu lembro de dizer na ligação que tinha muita gente morta, que o acidente tinha sido horrível, mas que eu estava bem. A imagem que eu tinha era do ônibus destruído e de um grande monte de areia, e eu sabia que ali embaixo havia muita gente.
Depois de tudo o que você viveu, há uma mensagem importante deixada por este acidente?
O mais importante é pedir que as pessoas prestem atenção no trânsito. Às vezes a gente nem imagina o que pode acontecer e quantas pessoas podem ser afetadas. Também queria pedir que as empresas de gerenciamento de trânsito tenham mais cuidado com essas paradas de caminhão. Eu sei que o caminhão que estava parado não teve uma ligação direta com o acidente, mas, indiretamente, foi uma das causas. Não é a primeira tragédia que acontece com esse tipo de situação. Um caminhão parado em um local sem acostamento é muito perigoso. E que Deus abençoe e dê calma ao coração de todos que passaram por isso e também das famílias.