A geração que não conhece o Sete de Abril

Opinião

Jarbas Tomaschewski

Jarbas Tomaschewski

Coordenador Editorial e de Projetos do A Hora do Sul

A geração que não conhece o Sete de Abril

Por

O teatro mais antigo do Rio Grande do Sul, o Sete de Abril, fechado desde março de 2010, reabrirá suas portas para o público na próxima terça-feira, data dos 214 anos de Pelotas. Ficamos sem a casa de espetáculos por um período equivalente a 7,5% de toda a história do município. Uma década e meia sem o palco da mais relevante arte do desenvolvimento humano, transformadora e formadora de cidadãos, tanto na criticidade quanto na sensibilidade.

Pode-se dizer que os jovens pelotenses não têm memórias afetivas do Sete de Abril. Aqueles com 20 anos eram crianças quando o local foi interditado. Quem chegou aos 30, tinha 14 no mesmo período de fechamento e dificilmente frequentava as cadeiras e os camarotes. Gerações inteiras privadas de um legado cênico e da convivência com esse patrimônio histórico nacional.

A recuperação a conta-gotas gerou críticas à burocracia diante da importância do Sete – e aos gestores responsáveis pelo andamento dos projetos. Ele nunca foi prioridade e os 16 anos de espera são a prova. Também a sociedade se acostumou a aceitar o fechamento e a tratá-lo como circunstância comum, símbolo da falta de iniciativas mais eficazes e da baixa mobilização social que ainda se tenta combater por aqui. Foi apenas com o passar dos anos e com a percepção de que essa marca já estava se tornando incômoda à cidade que os movimentos se intensificaram, até chegarmos à assombrosa marca de inoperância.

Há lições na entrega do Sete de Abril. Não podemos repetir os erros do passado e voltar a perdê-lo. Trata-se de um imóvel sensível à ação do tempo; ele requer cuidados especiais e segurança constante, tanto em seu uso quanto em sua preservação interna e externa. E exige uma agenda para recuperar o tempo perdido por aqueles afastados da possibilidade de pisar em seus corredores.

A volta do Sete abre uma janela de oportunidades à cultura local e para o retorno da cidade ao circuito de peças teatrais. Não que isso fosse impeditivo a outros pontos de espetáculos, nas mãos da iniciativa privada. Mas o Sete, sob a gestão pública, tem características únicas.

Do ponto de vista político, o governo de Fernando Marroni (PT) será o que devolveu o imóvel à população. Precisou de um ano e meio para encaminhar as etapas finais do projeto. Não era prefeito quando as portas fecharam e também não era prefeito nos anos seguintes, marcados por demoradas ações. Simples assim, gostem ou não os opositores.

Existem outros “teatros fechados” em Pelotas, em uma fila à espera de respostas. O Grande Hotel, a sede definitiva da Câmara de Vereadores (no imaginário até hoje), os becos do Centro Histórico, o Castelo dos Simões Lopes, o Palacete Payssandu (onde viveu o escritor João Simões Lopes Neto), a antiga sede da Escola de Belas Artes, a Chácara da Brigada Militar, o Engenho Pedro Osório… Cruzamos por eles diariamente e, não raro, deixamos de percebê-los. A maioria tem o tempo como o único “morador” e nenhum horizonte à vista. No caso do antigo prédio do Banco do Brasil, na última sexta-feira foi assinado o termo que permite avançar com o projeto e transformá-lo em espaço administrado pelo Senac. Mesmo assim, vale lembrar: a proposta foi inscrita pela Prefeitura no programa Iconicidades em 2021, ou seja, há cinco anos.

A próxima terça-feira (7) será de celebrações em Pelotas. Voltaremos a respirar novo ciclo cultural. Voltaremos a subir no palco.

Acompanhe
nossas
redes sociais