Enquanto me afogava no caos das ruas de São Paulo, encontrei uma alma encantadora que me cativou ao falar, de repente, que era artista.
Foi um abraço repentino.
Porque uma artista reconhece outra.
Prendia minha atenção com o seu modo profundo de demonstrar paixão por algo que no fundo, a machucava.
Eu conseguia ver sua dor ao dizer que abandonou a poesia por causa da agonia que ela causava.
Será esse meu medo?
Ser refém do meu próprio conhecimento?
Penso que as palavras não surgem por acaso, por isso escrevo.
Mesmo trazendo a sensação de tirar espinhos de dentro do peito.
Amo, entretanto, sangro.
Escrevo, todavia, me derramo.
No papel, eu grito.
No silêncio eu sofro.
Então me torturo na tentativa de consolar o pensamento do outro.
Todo artista divide a mesma dor.
Dor essa por não conseguir sentir pouco.
Quem vive a arte, não consegue se contentar com a banalidade.
Sente tudo a flor da pele, sensível até que se rasgue.
Se reescreve em versos para tentar ser inteiro.
No fundo, sinto que a poesia é o monstro que tanto me dá medo.
Vejo se aproximar, e ao me encarar cada vez mais perto, respiro fundo e o enfrento.
“A poesia machuca.
Então deixei ela ir, para conseguir sentir.”