No Rio de Janeiro descobri seu nome: Marguerite Rose Marie Elichéry Ramos, a “Pierrette”

Opinião

Luís Rubira

Luís Rubira

Professor de Filosofia

No Rio de Janeiro descobri seu nome: Marguerite Rose Marie Elichéry Ramos, a “Pierrette”

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Tal como Édipo na mitologia grega, eu não descanso enquanto não soluciono um enigma. Em minhas investigações sobre Alberto Ramos (1871-1941), o primeiro tradutor brasileiro de “Textos escolhidos na obra do autor de Assim falou Zaratustra”, tentei descobrir quem seria sua esposa, pois graças a ela os mesmos foram preservados e publicados sob o título Nietzschiana (Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 1949). Depois de alguns anos, com base em fontes de imprensa, arrisquei uma hipótese no artigo A francesa Pierrette, esposa de um pelotense que traduziu textos de Nietzsche? (A Hora do Sul, 01/11/2025, p. 17).

Durante uma estadia de duas semanas no Rio de Janeiro, em missão pelo Programa de Pós-Graduação em Filosofia da UFPel, dirigi-me na “Sexta-Feira Santa” a um dos roteiros culturais mais prestigiosos da cidade, localizado no bairro Botafogo: o Cemitério São João Batista. Nele estão sepultadas centenas de personalidades famosas de nosso país, entre as quais Cândido Portinari, Cecília Meireles, Carmen Miranda, Heitor Villa-Lobos, Lima Barreto, Lucio Costa, Santos Dumont, Tom Jobim e Vinícius de Moraes. Meu objetivo principal era visitar o túmulo de Alberto Ramos e verificar se poderia encontrar alguma informação sobre sua esposa.

Ao chegar no local, numa temperatura acima de trinta e cinco graus, adentrei o Pórtico Monumental e dirigi-me à sala da Administração. Um funcionário atendeu-me, perguntou os dados do falecido e, logo em seguida, munido com uma escada dirigiu-se a um antigo armário embutido na parede, com portas em madeira pintadas de azul. Dele retirou um dos Livros de Registro de Sepultamento e após anotou num pedaço de papel: “Jazigo 1463-F, Quadra 02”. Sob o sol escaldante tive dificuldade em localizar o sepulcro, até que outro funcionário que cruzava pelo local ajudou-me a encontrar. O túmulo estava sob um belo e frondoso arbusto nativo de Alamanda-Amarela. Tive de afastar os galhos e retirar o acúmulo de folhas de parte da lápide para nela poder encontrar a inscrição: “Alberto Ramos † 15-2-1941”.

Após visitar outros túmulos (fiquei encantado com o monumento a Santos Dumont, erguido pelo L’Aero Club de France) retornei à sala da Administração, de modo a perguntar se naquele Livro de Registros não constava o nome da esposa de Alberto Ramos. Outro funcionário atendeu-me e mais tarde disse-me que naquele jazigo estavam também sepultados Alberto Ramos Filho (falecido em 10/08/1953) e sua “madrasta” e esposa de seu pai: a senhora Marguerite Rose Marie Elichéry Ramos (que veio a óbito em 07/06/1966). Finalmente descobrira, naquele momento, o verdadeiro nome de “Pierrette” (apelido como ela era conhecida entre os amigos do casal).

De volta a Pelotas consultei novamente os periódicos nacionais. Constatei então que ela já estava no Brasil pelo menos desde o ano de 1916, visto que partiu do Rio de Janeiro no “paquete Flandre francês, que saiu na madrugada de ontem, para Bordeaux e escalas, e levou em primeira classe os seguintes passageiros: (…) Elichéry Marguerite” (Jornal do Comércio, RJ, 10/03/1916, p. 6). Em seguida verifiquei que alguns meses depois ela retorna para nosso país: “Conforme era esperado chegou hoje ao porto desta capital o paquete francês Liger, da Compagnie de Navegation Sud Atlantique, conduzindo os seguintes passageiros: (…) Elichéry Marguerite (…) de Bordéos” (Jornal do Comercio, RJ, 30/08/1916, p. 4). E depois de novamente regressar ao seu país de origem, ela para cá retorna no ano seguinte: “Liger – em 1ª classe chegaram: (…) Elichéry Marguerite” (Gazeta de Notícias, RJ, 06/06/1917, p. 9).

Foi impossível descobrir outras informações, incluindo sua data de nascimento, mas pude constatar que seu casamento ocorreu no dia 28/09/1926, conforme notícia veiculada no dia seguinte em dois jornais do Rio de Janeiro: “Realizou-se ontem o casamento do Sr. Alberto Ramos, diretor da Agência Havas, com a senhora dona Marguerite Rose Elichéry” (O Jornal, 29/09/1926, p. 7; Correio da Manhã, p. 5). Ora, a data de seu casamento explica que ela, de fato, viera a ser madrasta de Alberto Ramos Filho, pois ele havia nascido em 1903 (nada descobrimos acerca de sua mãe e, portanto, desta companheira anterior de seu pai). “Albertinho” naquela ocasião tinha já vinte e quatro anos de idade.

Alberto Ramos casou-se aos quarenta e seis anos com “Pierrette” e ambos viveram juntos outros vinte e quatro anos. Dois anos antes dele falecer, seus nomes surgem novamente impressos num jornal: “No avião Electra, da Panair, chegaram ao Rio de Janeiro, procedente de Poços de Caldas: Dr. Alberto Ramos, Sra. Marguerite R. M. Ramos” (Diário de Notícias, RJ, 24/05/1939, 2ª Seção, p. 9). E dizer que um dos primeiros livros de poesia de Alberto Ramos intitulou-se Ode a Santos Dumont (Rio de Janeiro: Laemmert & Cia, 1903) e que após o falecimento de Marguerite, ambos descansam em sono eterno a poucos metros do túmulo e monumento a Santos Dumont, cuja escultura é uma réplica da obra O voo de Icaro, do artista francês Georges Colin.

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