Com o olhar atento de quem caminha para pensar, o artista visual Alexandre Lettnin apresenta a exposição Através Ando, aberta ao público a partir de hoje no Rooftop Vanguarda, no 12º andar do Edifício Vanguarda, no Parque Una. A mostra reúne 59 obras, entre xilogravuras e desenhos, construídas sob influência do pensamento do filósofo alemão Friedrich Wilhelm Nietzsche. A visitação ocorre de segunda a sábado, das 8h às 23h.
Xilogravurista e desenhista, Lettnin transforma cenas urbanas e rurais em imagens marcadas pelo contraste entre preto e branco, explorando também variações de cinza e composições em cor. Muitas das obras nascem de desenhos feitos in loco, em caminhadas pela cidade, prática que dialoga diretamente com a filosofia que inspira a exposição.
“Nietzsche via a arte como uma força ativa e criadora, uma expressão da vontade de potência”, afirma o artista. Para ele, a ideia de transformar a própria vida em obra de arte, conceito presente desde O Nascimento da Tragédia, ecoa no fazer artístico. “Ele valorizava o corpo, o caminhar, o pensamento ao ar livre. A criação surge dessa troca com o território.”
Ocupação progressiva
A curadoria é de Paula Weber, também diretora criativa do espaço, que destaca a proposta do Rooftop Vanguarda de integrar arte, gastronomia, livraria e eventos. Inaugurado em agosto do ano passado, o local dá sequência à programação expositiva iniciada com Cinco em Letras, do Grupo 5, formado pelos artistas Lauer Santos, Graça Marques, Lúcia Weymar, Rami Leandro e Gordo Muswieck.
Segundo Paula, Através Ando mantém a ocupação progressiva do espaço, da entrada aos corredores que levam à área externa. Uma das novidades é a instalação interativa em um antigo gaveteiro pertencente à família de Beth e Gelso Lovatel, proprietários do Rooftop e da Livraria Vanguarda.
As 24 gavetas abrigam obras sem moldura, convidando o público a abrir, descobrir e interagir. “A ideia é provocar uma experiência de descoberta”, explica.
A escolha dialoga com o próprio universo da gravura. Lettnin recorda que ateliês de gravuristas tradicionalmente utilizam móveis com gavetas para armazenar matrizes e impressões. A xilogravura, técnica de origem antiga e ligada à impressão dos primeiros livros ocidentais, também estabelece conexão direta com o universo editorial, não por acaso, o artista mantém produção frequente de ex-líbris, gravuras destinadas a identificar a propriedade de livros.
Formação em Pelotas
Formado em Artes, com habilitação em Gravura, na década de 1990, Lettnin construiu trajetória internacional antes de retornar a Pelotas, sua cidade natal, em 2004. Atuou em ateliês de gravura na Europa, onde, segundo ele, a arte visual recebe maior reconhecimento social. A experiência consolidou sua prática e ampliou sua rede de contatos, permitindo-lhe viver exclusivamente da produção artística durante esse período.
De volta ao Brasil, passou a lecionar e, mais recentemente, retomou os estudos acadêmicos. O aprofundamento em filosofia fortaleceu a dimensão conceitual de sua obra. “A técnica não é um empecilho; é um limite que funciona como trampolim criativo”, afirma. Cada cor em suas xilogravuras exige uma matriz distinta, processo minucioso que resulta em sobreposições precisas e imagens de forte presença gráfica.
Ao retratar postes, fachadas, os emaranhados de fios nos postes, corpos e elementos do patrimônio urbano, Lettnin busca ressignificar o olhar sobre Pelotas. Para o artista, a arte pode transformar a imagem sobre a cidade, revelar o que está visível, mas ainda não foi percebido.
