Um levantamento da Coordenação de Saúde e Qualidade de Vida da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) apontou que transtornos mentais e comportamentais motivaram 44,3% das licenças para tratamento de saúde dos servidores da instituição em 2025. Especialistas apontam para a necessidade de fortalecer políticas institucionais voltadas à promoção da saúde mental e à melhoria das condições de trabalho.
Ao todo, foram registradas 521 licenças, envolvendo 376 servidores, que somaram 14.907 dias de afastamento ao longo do ano. Entre os dez diagnósticos mais frequentes, sete estão relacionados à saúde mental, como ansiedade, depressão e estresse. O diagnóstico mais recorrente – e também o que gerou maior número de dias de afastamento – foi o transtorno misto ansioso e depressivo, responsável por 13,4% das licenças e 18,1% dos dias afastados.
Os dados indicam que quase um terço das licenças foi concedido a professores do magistério superior. No entanto, todos os docentes aparecem agrupados em uma única categoria e os técnicos administrativos são divididos em diferentes cargos. Dessa forma, quando analisados proporcionalmente, não há diferença significativa entre docentes e técnicos administrativos.
Sobrecarga e contexto do trabalho
A coordenadora de Saúde e Qualidade de Vida da UFPel, Thaíse Mendes Farias, explica que o cenário reflete uma tendência mais ampla no mundo do trabalho, marcada por fatores como sobrecarga, contexto político, precarização das condições de trabalho e conflitos interpessoais. “Os transtornos mentais têm sido a principal causa de afastamento, tanto no serviço público quanto na iniciativa privada. Temos comparativos com outras instituições e percebemos que se trata de um fenômeno mais amplo”, afirma.
Segundo ela, esses problemas se intensificaram nos últimos anos, especialmente durante a pandemia e as enchentes de 2024. “Tanto a população quanto os servidores da UFPel foram duramente afetados. Estivemos na linha de frente. Nosso trabalho é servir as pessoas, mas também somos pessoas que adoecem no meio desses processos”, ressalta. A fala da coordenadora dialoga com os dados de afastamento entre profissionais da área da saúde, que aparecem entre os cargos com maior número de licenças em 2025.
Outro fator é a sobrecarga que recai sobre as mulheres. Segundo Thaíse, muitas enfrentam jornada dupla ou até tripla de trabalho, além do cuidado com filhos e familiares idosos, fenômeno conhecido como “geração sanduíche”, o que pode contribuir para quadros de ansiedade, depressão e burnout.
Impactos e prevenção
Além de refletirem problemas de saúde entre os servidores, os afastamentos também impactam o funcionamento da universidade. Em casos de afastamento prolongado de docentes, é possível contratar professores substitutos. Já entre os técnicos administrativos não há previsão de reposição temporária, o que pode gerar sobrecarga para as equipes.
Para enfrentar o problema, a universidade desenvolve ações de prevenção, como acompanhamento psicossocial, atendimento psicológico, práticas integrativas e grupos de apoio. A instituição também pretende implementar um levantamento de riscos psicossociais no trabalho, com objetivo de identificar fatores de adoecimento e orientar políticas de prevenção.
Principais diagnósticos por número de licenças
- Transtorno misto ansioso e depressivo – 34 licenças;
- Reações ao estresse grave e transtornos de adaptação – 23 licenças;
- Ansiedade generalizada – 20 licenças;
- Diarreia e gastroenterite de origem infecciosa presumível – 18 licenças;
- Episódio depressivo grave sem sintomas psicóticos – 17 licenças;
- Episódio depressivo moderado – 17 licenças;
- Infecção aguda das vias aéreas superiores não especificada – 12 licenças;
- Episódios depressivos – 11 licenças;
- Lumbago com ciática – 11 licenças;
- Transtorno depressivo recorrente, episódio atual moderado – 10 licenças.
Doenças com mais dias de afastamento
- Transtorno misto ansioso e depressivo – 1.310 dias;
- Episódio depressivo grave sem sintomas psicóticos – 702 dias;
- Neoplasia maligna da mama – 593 dias;
- Episódio depressivo moderado – 566 dias;
- Reações ao estresse grave e transtornos de adaptação – 548 dias;
- Estado de estresse pós-traumático – 426 dias;
- Síndrome do manguito rotador – 409 dias;
- Transtorno depressivo recorrente, episódio atual grave – 399 dias;
- Transtorno afetivo bipolar – 357 dias;
- Transtornos de discos lombares com radiculopatia – 346 dias.
Cargos com mais licenças
- Professores do Magistério Superior – 176 licenças, 7.002 dias e 100 servidores;
- Assistentes em Administração – 127 licenças, 3.442 dias e 57 servidores;
- Auxiliares de Enfermagem – 107 licenças, 2.058 dias e 44 servidores;
- Auxiliar em Administração – 44 licenças, 1.247 dias e 13 servidores;
- Enfermeiro – 43 licenças, 510 dias e 16 servidores;
- Técnico de Laboratório – 25 licenças, 1.285 dias e 12 servidores;
- Técnico em Enfermagem – 15 licenças, 263 dias e três servidores;
- Médico – 15 licenças, 393 dias e oito servidores;
- Professor substituto – 15 licenças, 98 dias e nove servidores;
- Técnico em Radiologia – 15 licenças, 92 dias e 12 servidores.
