Com a proximidade do período de maior transmissão da doença e a ameaça de uma epidemia local, a infectologista Danise Senna explica a importância da pesquisa clínica para proteger a faixa etária mais vulnerável.
O Centro de Pesquisa do Hospital Escola da Universidade Federal de Pelotas (HE-UFPel), em parceria com o Instituto Butantan, está com inscrições abertas para voluntários interessados em participar do estudo clínico da vacina contra a dengue. Enquanto a vacina já está licenciada pela Anvisa para pessoas de 4 a 59 anos, a população idosa – que registra os maiores índices de mortalidade pela doença – ainda carece de um imunizante aprovado.
Qual o objetivo principal deste estudo e qual público vocês estão buscando no momento?
É um estudo de imunogenicidade, que vai medir os anticorpos em idosos e comparar com a faixa etária de 40 a 60 anos, e depois de 60 a 79 anos. Por isso, temos um pequeno recrutamento a partir dos 40 anos, mas o foco principal, onde precisamos de um número maior de voluntários, é na faixa de 60 a 79 anos. Pedimos que a população idosa de Pelotas tenha adesão e nos ajude participando voluntariamente.
Como funciona a rotina do voluntário que decide participar?
O estudo consiste em quatro visitas presenciais. Nelas, realizamos coletas de sangue, acompanhamento médico e monitoramento de febre, caso ocorra. O paciente é acompanhado de perto por um ano. Nos primeiros 21 dias após a vacinação, esse contato é diário.
Muitas pessoas ainda têm receio devido à desinformação sobre vacinas. Como vocês garantem a segurança desses voluntários?
Toda pesquisa clínica tem dois pilares: eficácia e segurança. Este é um dos protocolos em que me sinto mais segura, pois a vacina já é licenciada para pessoas até 59 anos. É raro fazermos um protocolo com algo que já passou pelo licenciamento em outra faixa etária. Já realizamos pesquisas onde não havia licenciamento para ninguém; desta vez, já sabemos que o imunizante é seguro.
Por que os idosos são os mais impactados pela dengue e por que ainda não há vacina liberada para eles?
Provavelmente pela imunossenescência, que é o envelhecimento natural do sistema imune. Algumas doenças têm uma curva de mortalidade em “U”, atingindo mais crianças e idosos. No caso da dengue, a vacina já avançou para as crianças, mas para os idosos ainda precisamos desses dados que estamos coletando agora.
Existem restrições para quem deseja ser voluntário? Idosos com doenças crônicas podem participar?
Pacientes idosos com doenças controladas são muito bem-vindos. Pode ter hipertensão ou diabetes, desde que esteja sob controle. As restrições principais são: não ter sido internado nos últimos três meses, não estar em tratamento contra o câncer e ter o compromisso de realizar as quatro visitas ao longo de um ano.
Qual a gravidade do cenário atual para a nossa região?
Antigamente era inimaginável ter dengue no Sul do país, mas passamos por uma série de mudanças climáticas e hoje a realidade é outra. Já tivemos epidemia na periferia de Porto Alegre e, em Pelotas, faz dois ou três anos que estamos em alerta. A epidemia vai vir, e estamos correndo contra o tempo para vacinar. Temos todos os elementos para isso: muitos mosquitos, o calor propício para a multiplicação e uma população suscetível
