O acesso do Brasil à Série B do Brasileirão completa dez anos nesta sexta-feira. Em 17 de outubro de 2015, o Xavante segurou um empate sem gols com o Fortaleza, diante de quase 64 mil pessoas no Castelão. Devido à vitória por 1 a 0 no Bento Freitas uma semana antes, o Rubro-Negro conquistou um lugar entre os 40 principais clubes do país.
Quis o destino que a primeira década daquele feito chegasse durante a semana da aprovação da transformação do clube em Sociedade Anônima do Futebol (SAF). E entre os objetivos esportivos dos investidores do Consórcio Xavante está o retorno do time da Baixada à segunda divisão nacional até 2031.
Se atingida, essa meta seria semelhante à alcançada na capital cearense. A conquista no Nordeste foi o ápice da ascensão do Brasil iniciada em 2013, que teve como um dos protagonistas o capitão Leandro Leite. O ex-volante relembra o período dos acessos estaduais e nacionais, da Série A-2 do Gauchão à Série B do Brasileirão.
“Era um grupo que entendia bem o clube, entendia bem o torcedor. Quando cheguei no Brasil, o torcedor estava sofrendo, machucado, e conseguimos dar uma alegria muito grande”, conta o ídolo, hoje com 42 anos e que entre 2012 e 2020 disputou 389 partidas pelo Xavante.
Contexto extracampo
A eliminatória valendo vaga na Série B de 2016 chegou em um contexto dramático para o adversário do Brasil. O Fortaleza caiu para a Série C em 2009 e não conseguia sair. Respectivamente em 2012 e 2014, Oeste e Macaé deixaram o Leão do Pici pelo caminho no mata-mata do acesso. O clima era de tensão e muita pressão.
O então supervisor do Xavante e responsável – entre outros assuntos – pela logística das viagens, Moisés von Ahn, lembra de detalhes. O ônibus do Fortaleza atolou no estacionamento do Bento Freitas após o jogo de ida em função, segundo ele, da combinação entre brita e chuva.
“Os dirigentes do Fortaleza estavam indignados, achando que tínhamos colocado a tal brita de propósito. Para evitar qualquer retaliação no jogo de volta, contratei uns dez táxis para levar a delegação do Fortaleza para o hotel em Pelotas. Ânimos mais calmos, mandei deixar caixas de doces no hotel para entregar para os dirigentes e ficou tudo certo”, conta von Ahn.

Cleverson garantiu a vitória por 1 a 0 no primeiro jogo das quartas de final da Série C (Foto: Jonathan Silva)
Ajuda da PF e escolta constante
Encerrada a partida de ida com vantagem rubro-negra, começaram a surgir nas redes sociais comentários em tom de ameaça, indicando a realização de emboscadas, às vésperas do jogo de volta, que seria no sábado seguinte. A saída encontrada pela direção do Brasil foi entrar em contato com a Polícia Federal para cuidar da segurança.
“Um colaborador nosso entrou no grupo da torcida do Fortaleza, se passando por torcedor, e acabamos conseguindo monitorar em tempo real todas as ações deles. Com a ação da PF, eles conseguiram identificar os torcedores que estavam acampados no [aeroporto] Salgado Filho e ‘deportar’ para Fortaleza, antes do embarque xavante”, completa.
A delegação xavante embarcou na quarta-feira e seguiu sempre escoltada até o destino. Profissional parceiro do clube para viagens fora do RS e especializado em transfers, Marcelo Cristofaro já havia vistoriado hotel, alimentação e embalagens na capital cearense. Bebidas, por exemplo, só poderiam ser consumidas caso lacradas e em vidro.
Presente na cidade, Pedro Petrucci era repórter da Rádio Universidade. “Clima de segurança. Havia muita ameaça. Áudios circulando, de um clima muito hostil para o Brasil. Mérito para o Brasil que fez uma operação de segurança através das autoridades e com o apoio do próprio Fortaleza, e nesse caso apoiado pelo Ceará, que recebeu o Brasil para os treinamentos da semana, uma operação de proteção de ida e volta”, relembra.
No desembarque do Brasil em Fortaleza, foi encontrada uma forma de despistar os torcedores do Leão que aguardavam. A saída dos atletas e da comissão técnica se deu por um hangar, onde um ônibus os esperava, enquanto o roupeiro Davi e o massagista Paulo Sérgio, o Tatu, ao lado de Cristoforo, colocavam as bagagens dentro de uma van ao lado de outro ônibus, à vista dos torcedores.
Nas três noites em que a delegação xavante dormiu em Fortaleza, a preocupação era constante com os barulhos durante as noites. Von Ahn conta que os atletas usaram protetores auriculares para dormir e ficaram em quartos nos fundos do hotel, com vista para o mar, distanciando-se das tentativas de perturbação.

Xaro (foto) era o lateral-esquerdo titular do time de Rogério Zimmermann naquela temporada (Foto: Carlos Insaurriaga)
Saídas e chegadas até o acesso
Em toda aquela Série C, o Brasil frequentou o G-4 do grupo de dez times. Ao final da 17ª e penúltima rodada, quando perdeu em casa para o Guarani, porém, se viu obrigado a bater o Tupi em Juiz de Fora (MG). O triunfo por 2 a 0 garantiu a classificação por um gol de saldo acima do Juventude, que fez 3 a 0 no Guaratinguetá com os minutos finais sendo acompanhados pelos xavantes após o término da vitória no interior mineiro.
O adversário no mata-mata do acesso seria o líder da outra chave, o Fortaleza, dono da melhor campanha da primeira fase. Autor do gol da vitória no jogo de ida das quartas de final, Cleverson também rememora a época. “Foram momentos incríveis no dia a dia do clube. Era um desejo que eu tinha, jogar com a camisa xavante, muito por conta da torcida. Sempre gostei dessa atmosfera de casa cheia, de ter torcida para cobrar, xingar, elogiar”, diz.
Hoje aposentado e com 41 anos, Cleverson chegou à Baixada durante o campeonato junto com outro atacante, Soares. Ambos tinham a missão de substituir Alex Amado e Leandrão, que formaram dupla de ataque tão bem sucedida a ponto de chamarem atenção de, respectivamente, Ceará e Vasco, para onde se transferiram em meio à Série C. Nesse contexto, um velho conhecido retomou espaço e voltou a ser decisivo: Nena.
O centroavante marcou duas vezes contra o Tombense e uma diante do Madureira. Hoje com 43 anos, vive na Itália. A festa da chegada à Série B foi a segunda de ascensão nacional vivida por Nena no Brasil. “Uma multidão, todo mundo feliz. A gente sabia que tinha feito algo inédito. E a torcida xavante é isso, sabe comemorar, sabe curtir. O único aspecto ruim foi que ficamos dentro do ônibus, não conseguimos pegar o caminhão de bombeiros para curtir com eles”, fala sobre o retorno à cidade.
Toda essa caminhada foi coroada por uma grande atuação defensiva no Castelão. O Rubro-Negro pouco passou do meio-campo e teve no sistema defensiva o grande trunfo. Eduardo Martini, decisivo para o acesso à Série C no duelo com o Brasiliense em 2014, cumpriu papel de protagonista ao fazer milagres em chutes de Pio e Elias.
“Eduardo Martini foi o protagonista com defesas importantíssimas para segurar aquele 0 a 0. Nunca revi o jogo, só lembro de alguns lances. Foram 90 minutos mais acréscimos de uma retranca total, de segurar. […] Era o grande sonho do Brasil, o grande sonho do Claudio Milar. Essa declaração dele era sempre marcante: o Brasil tinha que estar na Série B. Sempre falava sobre isso, era uma obsessão”, resume Petrucci.
Fortaleza 0 x 0 Brasil
Fortaleza: Ricardo Berna; Tinga, Lima, Adalberto e Thallyson (Elias, 37’ 2T); Auremir (Pio, 20’ 2T), Corrêa, Daniel Sobralense e Everton; Maranhão (Ricardo Jesus, 31’ 2T); Lúcio Maranhão. Técnico: Marcelo Chamusca.
Brasil: Eduardo Martini; Wender, Leandro Camilo, Teco e Xaro; Leandro Leite, Washington, Felipe Garcia (Gustavo Papa, 37’ 2T), Diogo Oliveira e Cleverson (Galiardo, 21’ 2T); Nena (Cirilo, 45’ 2T). Técnico: Rogério Zimmermann.
