Na semana crucial para a colheita do arroz, a falta de óleo diesel para os maquinários nas lavouras pode comprometer a safra do cereal, que já vem enfrentando desafios relacionados ao preço e ao custo de produção, fatores que inclusive reduziram a área plantada. A soja é outro cultivo que pode ser impactado caso o combustível não chegue às revendedoras. Na Zona Sul, o cenário é considerado preocupante por produtores e empresas do setor, que relatam dificuldades para adquirir o produto.
A Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul), a Federação das Associações de Arrozeiros do Estado (Federarroz) e o governo do Estado acionaram o Ministério de Minas e Energia em busca de esclarecimentos. Postos cadastrados como Transportadores Revendedores Retalhistas (TRR), responsáveis por abastecer propriedades rurais, relatam quebra de contratos e já comunicaram a situação aos clientes.
Diretor da Farsul e produtor de arroz, Fernando Rechsteiner afirma que há uma preocupação crescente entre os produtores diante da restrição na entrega de diesel para empresas que atendem diretamente o campo. Segundo ele, há um represamento por parte das grandes distribuidoras de óleo diesel para as TRRs. “Eles estão abastecendo os postos de gasolina, mas as TRRs, que são as empresas responsáveis por abastecer os produtores rurais, estão tendo uma restrição de venda muito grande.”
Para o dirigente, há no Rio Grande do Sul, uma especulação. “Há produto, mas as principais distribuidoras não estão liberando para as TRRs. Isso acaba chegando até o produtor rural”, afirma, ao citar que órgãos competentes estão fazendo uma fiscalização nas distribuidoras pedindo explicação dessa retenção, algo que para Rechsteiner não se justifica. A Petrobras ainda não subiu o preço, mas a suba já chegou aos produtores, chegou aos postos”,diz.
A situação preocupa especialmente neste momento em que a colheita começa a se intensificar. Conforme Rechsteiner, os trabalhos estavam em fase inicial nas últimas semanas, mas devem ganhar ritmo justamente agora. “O forte da colheita do arroz começa nesta semana e praticamente todos os produtores da região devem estar colhendo. Não podemos admitir atraso por falta de combustível”, diz.
Outro fator apontado por ele é a dificuldade de armazenar diesel nas propriedades. Segundo o produtor, a maioria das granjas não possui grandes estruturas de estocagem devido aos custos e às exigências legais. “Armazenar combustível exige licenças ambientais e estruturas adequadas, o que não é realidade da maioria dos produtores. Normalmente o combustível é comprado conforme a necessidade”, explica.
A Farsul informou que acionou seu departamento jurídico e também o governo do Estado para buscar uma solução junto ao Ministério de Minas e Energia. A entidade acompanha o caso e afirma que seguirá pressionando por uma normalização no fornecimento.
Revendas relatam falta de produto
Empresas responsáveis pela distribuição de diesel para o setor rural confirmam dificuldades para adquirir o combustível. Em comunicado enviado a clientes, a empresa Coqueiro Comércio de Diesel e Lubrificantes informou que todas as distribuidoras teriam suspendido temporariamente as negociações, impossibilitando a definição de preços e a compra de novos volumes.
Segundo a empresa, a situação estaria relacionada ao cenário internacional e aos reflexos de conflitos no Oriente Médio. “No momento não conseguimos adquirir produtos para revenda, apesar de todos os esforços realizados. A conjuntura atual está além do nosso controle”, informa a empresa na nota.
Gerente comercial da empresa Sul Diesel Fitazul, Márcio Vinícius Zarnotti confirma que a rede de distribuição voltada ao atendimento de lavouras enfrenta dificuldades. Ele explica que, enquanto postos de combustíveis ainda recebem produtos por conta de contratos diretos com distribuidoras, a situação é diferente para empresas que abastecem propriedades rurais. “Os TRRs, que atendem a lavoura, estão com muita dificuldade. Falta produto para comprar e, quando aparece, o preço está muito elevado”, afirma.
Zarnotti relata que a empresa atende produtores de diferentes regiões do Estado e já enfrenta situações em que não consegue cumprir todos os pedidos. “Estamos tendo que deixar alguns clientes sem atendimento porque simplesmente não conseguimos adquirir o diesel para revender”, diz.
Produtores já sentem reflexos
Entre os produtores, a preocupação varia conforme a capacidade de armazenamento nas propriedades. O arrozeiro Carlos Alberto Iribarren afirma que conseguiu garantir estoque para o período da colheita, mas reconhece que essa não é a realidade da maioria. “Eu consegui me abastecer na semana passada e acredito que tenha diesel suficiente para toda a colheita. Mas sei que muitos produtores não têm tanque na propriedade e compram conforme vão utilizando”, relata. Segundo ele, nesses casos, qualquer interrupção no fornecimento pode impactar diretamente o andamento dos trabalhos no campo.
Denúncias e fiscalização
Diante das reclamações, a Federarroz abriu um canal para receber denúncias de produtores sobre aumento de preços ou dificuldades de abastecimento no Estado. Os relatos serão encaminhados ao Ministério Público, à Polícia Civil, à Polícia Federal e à Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), além de órgãos de defesa do consumidor.
A entidade orienta que os produtores informem casos de cancelamento de vendas ou alegação de falta de estoque para serem reunidos para eventual investigação. De acordo com a Federação, os relatos indicam duas situações principais: aumentos no preço do combustível nos últimos dias e cancelamento de vendas ou alegação de ausência de estoque por parte de estabelecimentos que comercializam óleo diesel. A entidade informa que a identidade dos produtores será preservada. As denúncias podem ser encaminhadas para o e-mail [email protected].
Governo acompanha situação
O governo do Rio Grande do Sul informou que entrou em contato com o Ministério de Minas e Energia após relatos de dificuldades no abastecimento de diesel em algumas regiões. A Agência Nacional do Petróleo foi acionada para apurar a situação. Segundo informações repassadas ao Executivo estadual, até o momento não há indicação de falta de combustível no mercado nacional. Ainda assim, o governo busca identificar casos concretos e acompanhar o impacto no abastecimento do setor agropecuário.
A Assessoria de Comunicação da Petrobras busca junto à área técnica informações sobre a demanda, mas não retornou até momento desta matéria.
Origem
Devido aos temores gerados pela guerra no Oriente Médio, que entra na segunda semana sem previsão de trégua, as bolsas de valores registraram fortes quedas. O preço do petróleo chegou a subir até 30%, aproximando-se de US$120 por barril. Ontem o barril do West Texas Intermediate (WTI), referência nos Estados Unidos, subiu 12,59% chegando a US$102,34. O Brent, referência global, fechou com US$103,85 o barril.
