Em alusão ao Dia Internacional da Mulher, celebrado no último domingo (8), a coordenadora do Centro de Referência de Atendimento à Mulher em Situação de Violência (CRAM) de Pelotas, Myryam Viegas, fala sobre o tema. Psicóloga e integrante do movimento de mulheres há décadas, ela falou sobre o atendimento prestado no município, o perfil das vítimas e os desafios para romper o ciclo da violência doméstica.
Como funciona hoje o atendimento do CRAM em Pelotas?
Nós fazemos parte de uma rede de atendimento à mulher que Pelotas tem praticamente completa em relação à violência contra a mulher. Estamos dentro da Secretaria de Políticas para as Mulheres, que é uma secretaria nova, criada no ano passado. Dentro dela está o CRAM e também a Casa de Acolhida. O CRAM é um serviço que as mulheres podem procurar mesmo sem ter feito boletim de ocorrência. É uma porta aberta. Recebemos demandas espontâneas e também encaminhamentos. Só entre janeiro e fevereiro já tivemos 212 encaminhamentos, o que mostra que é um número bastante alto. Esses encaminhamentos vêm, por exemplo, da Delegacia da Mulher, do Juizado da Violência Doméstica, das UBS e até do pronto-socorro, quando chegam mulheres machucadas.
O que vocês observam no perfil das mulheres atendidas?
As mulheres que chegam ao CRAM geralmente têm um perfil um pouco diferente das que vão para a Casa de Acolhida. Muitas têm mais escolaridade, trabalho e alguma autonomia financeira. O que aparece muito forte é a dependência emocional. Já as mulheres que vão para a Casa de Acolhida são mais vulneráveis. Muitas não têm rede de apoio, não têm família ou amigos que possam ajudar e dependem financeiramente do agressor.
Muitas mulheres ainda têm dificuldade de denunciar?
Sim. Muitas chegam ao CRAM sem ter feito o boletim de ocorrência. Às vezes ainda não tiveram coragem. É muito difícil a mulher chegar até a delegacia e fazer essa denúncia. Existe muita vergonha, muita culpa. A mulher chega no CRAM literalmente destruída, com a autoestima muito baixa, sentindo-se culpada por a relação ter chegado a esse ponto. Isso tem muito a ver com a violência psicológica.
A violência psicológica costuma ser o início de tudo?
Sim. Toda violência começa pela violência psicológica. Não começa com um tapa. As relações começam de forma sedutora. O agressor costuma ser muito sedutor, faz promessas, juras de amor. Depois começam pequenas atitudes: controle da roupa, da maquiagem, com quem a mulher sai ou conversa. Esses são sinais de uma relação abusiva. Por isso trabalhamos muito isso com adolescentes nas escolas, para que eles identifiquem esses primeiros sinais.
Mesmo com mais informação, os casos continuam acontecendo?
Infelizmente, sim. Nós estamos vivendo uma realidade assustadora. Em dois meses tivemos 20 feminicídios no Estado. É um número enorme. Às vezes parece que estamos enxugando gelo. A sociedade está muito adoecida. Existe uma epidemia de feminicídios e isso está muito ligado ao machismo estrutural. Por isso sempre falamos três palavras-chave com os adolescentes: machismo, feminismo e respeito. O respeito está faltando.
Há casos de mulheres que conseguem sair desse ciclo?
Sim, muitas conseguem. Mas é um processo difícil. Há estudos que mostram que pode levar em torno de 12 anos para a mulher romper o ciclo da violência. Esse ciclo começa na violência psicológica e vai evoluindo. Muitas vezes chega à violência física e, infelizmente, em alguns casos termina em feminicídio. No CRAM nós temos um protocolo de 16 atendimentos psicológicos individuais. Trabalhamos o resgate da autoestima e ajudamos a mulher a pensar projetos de vida sem violência.
Que mensagem você deixa para o Dia Internacional da Mulher?
Hoje existem mecanismos de proteção. Criem coragem e procurem ajuda. Nós vemos na prática que muitas mulheres conseguem sair desse ciclo. Não fiquem em silêncio. O silêncio também é uma arma. O CRAM e toda a rede de apoio estão à disposição. É possível romper com a violência e construir uma vida diferente.