“O campo da política é o mais avesso à presença das mulheres”

Abre aspas

“O campo da política é o mais avesso à presença das mulheres”

Rosângela Schulz — professora do Programa de Pós-Graduação em Ciência Política da UFPel

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“O campo da política é o mais avesso à presença das mulheres”
(Foto: Reprodução)

Em entrevista ao programa Debate Regional, a professora Rosângela Schulz, docente do Programa de Pós-Graduação em Ciência Política da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), analisou os obstáculos que dificultam a participação das mulheres nos espaços de poder, o crescimento da violência política de gênero e os desafios para ampliar a presença feminina nas eleições.

O Brasil chega a mais um ano eleitoral em 2026. Esse desequilíbrio entre homens e mulheres na política tem data para terminar?

É um tema bastante complexo. A sub-representação das mulheres no Brasil é muito significativa. Hoje nós ocupamos cerca de 15% das cadeiras da Câmara dos Deputados, e essa realidade se repete nos legislativos estaduais e municipais. Isso acontece apesar da existência de leis de cotas que estimulam a participação feminina. É interessante que o campo da política é o mais avesso à presença das mulheres. Nós estamos em todos os lugares, nas universidades, nos diversos trabalhos e onde a gente tem mais dificuldade de entrar é realmente na política. Os próprios partidos políticos são ambientes praticamente comandados por homens, que não oferecem possibilidade para as mulheres se destacarem, até para surgirem novas lideranças.

Quais são os principais obstáculos para que mais mulheres entrem na política?

A literatura da área aponta três grandes obstáculos. O primeiro é institucional, ligado principalmente às instituições e aos partidos políticos, que ainda funcionam como ambientes dominados por homens e que dificultam o surgimento de novas lideranças femininas. O segundo é social e econômico: muitas mulheres enfrentam dupla ou tripla jornada de trabalho, conciliando emprego, cuidados com filhos, casa e familiares. Isso limita a disponibilidade para participar da vida partidária. Além disso, as mulheres recebem menos pelos mesmos trabalhos e têm menos disponibilidade de tempo para ocupar esses espaços. O terceiro obstáculo é cultural, ligado ao machismo e à ideia de que a política não seria um espaço para as mulheres.

A violência política de gênero também aparece como um fator de afastamento das mulheres da política?

Sim. Depois do processo de impeachment da presidenta Dilma, por exemplo, houve uma reflexão muito grande na academia sobre aquilo que hoje chamamos de violência política de gênero. As formas de violência às quais ela foi submetida desde o início, com ataques constantes, são exemplos disso. E a gente percebe que essa violência tem aumentado no Brasil. Muitas mulheres sofrem violência de colegas dentro das próprias câmaras e parlamentos. Isso é algo assustador e acaba afastando mulheres da política.

Recentemente surgiu o debate sobre partidos buscarem mulheres apenas para compor chapas como vice. Isso ajuda na representatividade?

Tem um dado importante nisso. Essa busca por mulheres como vice também está vinculada aos critérios de distribuição de recursos financeiros das campanhas. Existe um percentual mínimo de investimentos que deve ser destinado a candidaturas femininas. Então, quando uma chapa tem uma vice mulher, muitas vezes os recursos que seriam destinados a essa candidatura acabam sendo direcionados para a chapa inteira. Isso mostra como os partidos utilizam as regras de acordo com seus interesses.

Estamos no mês de março, marcado por debates sobre os direitos das mulheres. Como enfrentar os altos índices de violência?

Eu acho que a gente tem que reconhecer que o Estado está sendo ineficiente. Não estou dizendo que não existam políticas, mas se não estamos conseguindo proteger as mulheres, então algo não está funcionando. Precisamos de mais políticas públicas e mais investimentos. Também é fundamental parar de culpar as mulheres pela violência que sofrem. E esse debate não pode ser direcionado apenas às mulheres, ele precisa envolver os homens e toda a sociedade.

Para finalizar, qual a principal mensagem em um ano eleitoral?

É muito importante que as pessoas pensem que tem eleição esse ano. Nós temos que mudar esse quadro, nós temos que eleger mulheres. Se não for por outra razão, porque nós somos 50% da população e precisamos ocupar todos os lugares.

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