O Dia Mundial do Bem-Estar Mental dos Adolescentes, data celebrada dia 2 de março, é dedicado à conscientização sobre a importância da saúde emocional nessa fase da vida. A iniciativa dialoga com dados da Organização Pan-Americana da Saúde, vinculada à Organização Mundial da Saúde, que alertam para a dimensão do tema. Atualmente, uma em cada seis pessoas no mundo tem entre 10 e 19 anos. Nessa faixa etária, as condições de saúde mental representam 16% da carga global de doenças e lesões.
Segundo os dados, metade dos transtornos começa por volta dos 14 anos, mas a maioria dos casos não é identificada nem tratada precocemente. A depressão figura entre as principais causas de adoecimento e incapacidade entre adolescentes, e o suicídio é a terceira principal causa de morte entre jovens de 15 a 19 anos.
A adolescência é uma fase marcada por transformações profundas e pela construção da identidade. Entre mudanças físicas, emocionais e sociais, jovens passam por um período de descobertas que pode ser ao mesmo tempo desafiador e decisivo para a formação da vida adulta.
Especialistas apontam que, no contexto atual, fatores como a pressão social, o uso intenso das redes digitais e os impactos recentes da pandemia ampliaram as demandas relacionadas à saúde mental dos adolescentes. E que não enfrentar essas questões pode trazer consequências que se estendem à vida adulta, afetando relações, oportunidades profissionais e a própria saúde física. E o diálogo, as relações pessoais ainda é o melhor caminho para a prevenção.
A psicóloga infantil Thais Vieira Cardoso explica que essa etapa da vida é caracterizada por intensas mudanças físicas, cognitivas e emocionais. Segundo ela, trata-se de um período de “crise” no sentido de transição, em que o jovem busca construir sua identidade e encontrar um lugar de pertencimento. “É uma fase marcada por comparações com os pares e pela necessidade de aceitação. Hoje, esse processo é ainda mais intenso porque as redes sociais ampliam a exposição a padrões de aparência, desempenho e estilo de vida”, observa.
De acordo com a psicóloga, o ambiente digital também potencializa cobranças relacionadas ao futuro. Muitos adolescentes, ainda em processo de autoconhecimento, enfrentam expectativas precoces sobre produtividade, desempenho e escolha de carreira. Esse cenário pode contribuir para o aumento de quadros de ansiedade e depressão entre jovens.
Thais destaca que algumas mudanças fazem parte do desenvolvimento natural dessa fase, como a maior proximidade com amigos e a busca por autonomia em relação à família. No entanto, determinados comportamentos podem indicar a necessidade de atenção.

A psicóloga reforça que validar os sentimentos dos adolescentes é um passo essencial para que se sintam compreendidos (Foto: Divulgação)
Entre os sinais de alerta estão isolamento excessivo, irritabilidade constante, mudanças bruscas de comportamento e queda no rendimento escolar. Quando esses fatores passam a prejudicar relações e atividades do cotidiano, pode ser importante buscar acompanhamento profissional. Para a especialista, o diálogo dentro da família é um dos principais fatores de proteção emocional.
Ela ressalta que a forma como os adultos conduzem as conversas com os adolescentes pode fazer diferença na abertura para o diálogo. “Para que o adolescente consiga se abrir e dialogar com os pais, é fundamental que os cuidadores substituam o interrogatório por curiosidade genuína. Quando se sentem julgados ou excessivamente criticados, os jovens tendem a se fechar”, explica.
Um pouco de atenção
A psicóloga reforça que validar os sentimentos dos adolescentes é um passo essencial para que se sintam compreendidos. Somente após esse acolhimento é que orientações e limites tendem a ser mais bem recebidos. Outra estratégia apontada por Thais é aproveitar momentos cotidianos para iniciar conversas, como durante um trajeto de carro ou enquanto pais e filhos realizam alguma atividade juntos. Segundo ela, ensinar o chamado vocabulário emocional, ajudando o jovem a identificar e nomear sentimentos, também contribui para uma comunicação mais clara e saudável.
Além disso, a profissional destaca a importância de abordar temas relevantes de forma aberta, como sexualidade, prevenção de violências, escolhas profissionais e uso das redes sociais. Mais do que exercer uma vigilância rígida, ela defende uma presença ativa e interessada no universo dos adolescentes. “Fortalecer vínculos familiares e manter comunicação aberta são estratégias centrais para que o jovem atravesse essa fase com mais segurança emocional e construa bases saudáveis para a vida adulta”, afirma.
Thais também lembra que o desenvolvimento cerebral segue em andamento até cerca dos 24 anos, especialmente nas áreas relacionadas ao planejamento e ao controle de impulsos. Por isso, segundo ela, é fundamental que os adultos ofereçam orientação, compreensão e apoio durante esse processo.
Isolamento na pandemia
A psicóloga Joice Batista, que atua no Núcleo de Apoio ao Estudante da Universidade Católica de Pelotas (UCPel), também chama atenção para fatores recentes que influenciam a saúde mental dos jovens. Ela destaca que o período pós-pandemia trouxe impactos importantes nas relações sociais, especialmente entre adolescentes e jovens que passaram longos períodos afastados do convívio presencial.
“Quando a gente fala em saúde mental dos jovens, precisamos lembrar que essa geração passou por um período de isolamento durante a pandemia. Esse afastamento das interações presenciais pode favorecer o surgimento de sintomas de ansiedade e depressão”, explica. Segundo Joice, muitos adolescentes passaram a se relacionar principalmente por meio das redes sociais, o que pode gerar uma percepção limitada sobre o próprio estado emocional. “Eles acabam muito imersos no ambiente digital e, muitas vezes, não percebem esse afastamento dos convívios presenciais. Para eles, a rede social passa a ser a principal forma de relacionamento”, observa.
É nesse momento que o papel da família se torna ainda mais importante. A psicóloga destaca que pais e responsáveis podem ajudar a identificar mudanças de comportamento e oferecer suporte emocional. Para ela, um aspecto fundamental nessa relação é a validação dos sentimentos do jovem. “O adolescente está em uma fase de transição, em que ainda depende muito da opinião dos pais, mesmo quando há divergências entre gerações. Por isso, é importante que os adultos façam essa escuta e validem o que o jovem traz”, afirma.
Com a palavra, a adolescente
Joana Kirst tem 15 anos e estuda no primeiro ano do Ensino Médio do Colégio Gonzaga. Ela revela que tenta encarar as transformações da fase como aprendizado e experiência.
Como você encara as mudanças características da adolescência?
Eu as vejo como uma forma de evolução. Há diversas descobertas surpreendentes que vêm à tona, mas acredito que, sabendo lidar com elas, aprendo cada vez mais sobre mim mesma.
Você costuma compartilhar dúvidas com pais ou alguém mais próximo?
Sim. Inclusive, acredito que o diálogo é a melhor forma de comunicação. Sempre procuro conversar sobre as minhas dúvidas com pessoas que já passaram por essa experiência e com pessoas em quem confio.
Você já ficou balançada com alguma referência das redes sociais, ou que tem deixado incomodada ou frustrada?
Eu acredito que todos os adolescentes alguma vez já passaram por isso, porque atualmente as redes sociais têm grande influência sobre a nossa vida. Mas eu tento não me deixar abalar por comparações, pois sei que cada um tem sua realidade e suas dificuldades e que nem tudo que mostram na internet é o que realmente acontece na vida real.
Já teve algum influenciador como referência?
Eu não acompanho muitos influenciadores, porém procuro assistir a pessoas que mostram sua realidade e motivam os outros a melhorar a cada dia.
As gerações não são as mesmas, então evite comparações
De acordo com Joice, muitas vezes o maior erro dos adultos é antecipar julgamentos ou tentar impor imediatamente suas próprias experiências como resposta às dúvidas dos adolescentes. “O jovem quer primeiro ser escutado. O momento inicial precisa ser de acolhimento. Depois, em outro momento, os pais podem trazer orientações ou compartilhar experiências”, explica.
A psicóloga também aponta que é necessário respeitar os limites da individualidade do adolescente, observando sinais de recusa ou silêncio durante as conversas. “Quando surge o silêncio ou a recusa, pode ser o momento de recuar e buscar outra forma de aproximação. Essa sensibilidade ajuda a preservar o vínculo”, afirma.

o período pós-pandemia trouxe impactos importantes nas relações sociais, especialmente entre adolescentes e jovens que passaram longos períodos afastados do convívio presencial (Foto: Divulgação)
Outro ponto destacado por Joice é a importância do convívio social presencial para o desenvolvimento emocional dos jovens. Ela avalia que medidas como a restrição do uso de celulares em ambientes escolares podem contribuir para estimular a interação entre estudantes. Segundo a psicóloga, essas experiências favorecem trocas, aprendizados e o desenvolvimento de habilidades sociais que muitas vezes não se reproduzem no ambiente virtual. “As redes sociais nem sempre mostram a realidade. Já o convívio direto permite lidar com sentimentos, diferenças e experiências diversas”, afirma.
Atenção aos medicamentos
A psicóloga aponta um ponto importante que é o aumento do uso de medicamentos controlados entre jovens. Para ela, o caminho mais eficaz continua sendo o fortalecimento dos vínculos familiares e o acolhimento emocional. “Nunca é tarde para resgatar essa aproximação. Quando os pais conseguem oferecer mais acolhimento, respeito e amor, o jovem se sente mais seguro e pertencente”, destaca.
Para as especialistas, investir em diálogo, escuta ativa e relações de confiança é fundamental para que adolescentes atravessem essa fase de forma mais equilibrada. Mais do que controlar ou vigiar, o desafio está em construir pontes de comunicação que permitam aos jovens se sentirem compreendidos, apoiados e preparados para os desafios da vida adulta.
