Desculpa institucional

Opinião

Pedro Petrucci

Pedro Petrucci

Jornalista

Desculpa institucional

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As justificativas apresentadas pelo presidente da Câmara de Pelotas para explicar a paralisação do projeto para contratar profissionais que estão em falta nas escolas municipais não se sustentam do ponto de vista institucional. O argumento, repetido tanto na reportagem publicada por A Hora do Sul quanto no release divulgado pela assessoria de imprensa do próprio Legislativo, mistura temas distintos e cria uma relação de causa e efeito que não existe no processo legislativo. Quando se observa o funcionamento formal da tramitação de projetos, a explicação perde consistência.

Projetos de lei possuem tramitação própria e independente dentro da Câmara. Após serem protocolados, passam por comissões, recebem pareceres técnicos e podem ser levados à votação em plenário. A eventual prestação de contas sobre projetos já aprovados não é um requisito regimental para que novas matérias avancem. Caso haja dúvidas sobre a execução de leis anteriores, os instrumentos de fiscalização são outros: pedidos de informação, convocações de secretários, audiências públicas ou mesmo comissões parlamentares de investigação. Nenhum desses mecanismos impede, do ponto de vista formal, a análise de novos projetos.

Outro ponto problemático está na própria ideia de “prestação de contas” usada como justificativa. Quando a Câmara aprova um projeto, a justificativa técnica e o impacto financeiro já deveriam ter sido apresentados pelo Executivo no momento da tramitação. Ao aprovar a matéria, o Legislativo aceita esse conjunto de informações. A fiscalização posterior diz respeito à execução da lei e ocorre em outra esfera do controle institucional, inclusive com participação do Tribunal de Contas. Não se trata de uma condição regimental para o andamento de outras propostas.

Na prática, cria-se uma narrativa que conecta assuntos distintos sem que exista nexo real entre eles. Diante desse quadro, a conclusão mais plausível é que a paralisação do projeto decorre de uma decisão política, não de uma exigência técnica ou regimental. A presidência da Câmara possui influência sobre a definição da pauta e pode optar por não levar determinadas matérias à votação. Isso faz parte da dinâmica política do Legislativo. O problema surge quando essa escolha é apresentada como consequência de requisitos institucionais que, na prática, não existem.

PSB em transição

A guinada do PSB mais à esquerda no Rio Grande do Sul, com a volta de Beto Albuquerque ao comando estadual do partido e a saída da sigla do governo de Eduardo Leite, tende a produzir reflexos também em Pelotas.

Na cidade, o diretório é presidido pelo vereador César Brizolara, o Cesinha, um dos principais articuladores dos processos da Câmara de Vereadores e atualmente posicionado na oposição. Nos últimos meses, porém, o PSB local demonstrou conviver com algo próximo de dois CEPs políticos. Em sentido distinto ao do vereador, o secretário de Obras, Rogério Salazar, é um dos nomes de confiança do prefeito Fernando Marroni e mantém proximidade com Beto Albuquerque, assim como Tony Sechi, que assumiu recentemente a Secretaria de Comunicação do município.
A reconfiguração estadual pode tensionar esse arranjo local, porque o reposicionamento partidário tende a exigir maior alinhamento político entre direção estadual e bases municipais. Resta observar como o PSB de Pelotas irá acomodar essas diferenças internas e quais espaços cada grupo manterá no novo cenário. Será a perda de protagonismo de Cesinha?

Jurandir marca posição

O debate interno no PSOL sobre uma eventual federação com o Partido dos Trabalhadores também repercute em Pelotas. Fundador do partido no município, o vereador Jurandir Silva utilizou as redes sociais para manifestar posição contrária à proposta de federação. Na avaliação dele, o instrumento tende a reduzir a autonomia partidária porque obriga os partidos a atuarem de forma conjunta por um período mínimo de quatro anos.

Jurandir defende que a relação entre as siglas ocorra por meio de coligações eleitorais, mecanismo que permite alianças políticas sem amarrar a atuação dos partidos de forma permanente. O vereador citou como exemplo a experiência do PSOL no atual governo municipal de Fernando Marroni. Na composição local, o partido ocupa a vice-prefeitura, exerce a liderança do governo na Câmara por meio do próprio Jurandir e participa da administração com três secretarias.
O posicionamento acompanha a divisão interna que o PSOL vive nacionalmente às vésperas da decisão sobre a federação. Parte da direção do partido vê na aproximação com o PT uma estratégia de fortalecimento do campo de esquerda nas eleições. Outro grupo, no qual Jurandir se inclui, entende que a construção de alianças pode ocorrer caso a caso, conforme a realidade política de cada cidade e estado.

Pedágios internos

A entrevista de Marroni na Pelotense apontou uma prioridade que a região pretende levar à assembleia sobre o novo modelo de pedágios, em 18 de março. Segundo ele, é fundamental que as futuras cobranças não fiquem posicionadas dentro das divisas municipais. A preocupação é evitar que moradores tenham de pagar pedágio para realizar deslocamentos cotidianos dentro do próprio município, situação que já ocorreu no passado quando a praça localizada no Retiro fazia com que moradores de áreas como o Posto Branco precisassem pagar para acessar a região central da cidade. O alerta também se estende às BRs 116 e 392, especialmente para comunidades da zona rural. Pelas projeções iniciais do novo modelo, alguns pontos de cobrança podem permanecer próximos aos locais onde já existiam praças, o que tende a gerar impacto semelhante.

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