Desde o início do ano, Pelotas registrou 135,6 milímetros de chuva acumulada, o que representa, na linguagem técnica, uma condição de média mensal baixa. Nesse cenário, especialistas já apontam perdas nas lavouras por causa da falta de precipitação durante o verão, enquanto prefeituras da Zona Sul monitoram a situação do abastecimento, que ainda não apresentou problemas.
No campo, a cultura do milho já apresenta impactos e, mesmo sendo cedo para um balanço definitivo, a estimativa inicial indica perdas que podem chegar de 30% a 40% da produção. Outro cultivo que preocupa é a soja, principalmente pelo grande volume de área plantada no Rio Grande do Sul.
Segundo o responsável pela área de grãos da Emater/RS-Ascar na região Sul, Evair Ehlert, a combinação de altas temperaturas e baixa precipitação acelera a perda de umidade no solo. A evapotranspiração, processo que reúne a evaporação da água do solo e a transpiração das plantas, pode chegar a até oito milímetros por dia no verão. “Em uma semana, se percebe o quanto seca o solo nas áreas agrícolas”, explica.
Ehlert detalha que, em relação ao milho, os produtores reduziram as expectativas de produtividade. “Não teremos nada de espetacular e nem mesmo dentro da normalidade. Vai ficar bem abaixo do esperado”, afirma. Embora ainda não seja possível calcular com precisão o tamanho dos danos.
Soja preocupa pelo impacto econômico
A soja também deve registrar quebra de safra na região. A cultura tem forte peso na economia agrícola local e estadual, já que concentra a maior área plantada entre os grãos. Somente na região Sul do Estado são mais de 500 mil hectares cultivados. Por isso, mesmo uma redução percentual na produtividade pode gerar grande impacto econômico.
Segundo Ehlert, fevereiro e março são meses decisivos para o desenvolvimento da cultura, pois correspondem ao período de floração e enchimento de grãos, fases que exigem grande disponibilidade de água no solo. “Essa etapa é crucial, porque é quando a produtividade da lavoura realmente se define”, explica. Com a estiagem registrada nas últimas semanas, a expectativa inicial de produtividade dentro da média ou acima do normal já não deve se confirmar. Ainda assim, o percentual de perdas só deverá ser conhecido a partir de abril, quando começam as primeiras colheitas na região.
Arroz
Entre os principais cultivos na região, o arroz apresenta um cenário diferente. Por ser uma cultura irrigada, a falta de chuva não tem provocado perdas significativas nas lavouras. A colheita já começou e a expectativa é de que as produtividades fiquem dentro do padrão esperado. A principal preocupação do setor, no entanto, é econômica. “O problema hoje é o preço, que não cobre o custo de produção”, afirma Ehlert. Segundo ele, essa situação pode impactar investimentos futuros e até a continuidade da atividade para alguns produtores.
Feijão tem queda
No caso do feijão, cultivado em menor escala na região, também há impacto da estiagem, mas principalmente na produtividade. A maior parte das lavouras é de feijão preto, enquanto os chamados feijões coloridos e especiais ocupam áreas menores. A colheita ainda não foi totalmente concluída, o que impede uma avaliação final das perdas.
Mesmo assim, a redução no rendimento pode afetar o abastecimento local, especialmente para famílias rurais que produzem o alimento para consumo próprio. Segundo o técnico da Emater, em algumas áreas foram registradas até quatro semanas sem chuva, o que comprometeu o desenvolvimento das plantas.
Previsão de pouca chuva
De acordo com o Centro de Pesquisas e Previsões Meteorológicas (CPPMet) a previsão para o outono é de chuva abaixo da média na Zona Sul do Estado. Nos próximos dias, principalmente neste sábado, tem previsão de chuva mais significativa. Nas demais semanas do final do verão, a tendência é de ocorrências pontuais de chuva menos intensas.
Cenário na Zona Sul
Em relação ao abastecimento, o quadro ainda é de normalidade e há expectativa positiva para os próximos dias, já que a previsão indica instabilidades para a região. O secretário de Desenvolvimento Rural e de Economia de Capão do Leão, Danilo Leite, que responde pela Comissão de Secretários de Agricultura da Azonasul, afirma que as situações registradas são pontuais.
Segundo ele, em Herval havia preocupação com a falta de chuva, mas o cenário melhorou após as precipitações registradas recentemente. “Ontem choveu bem lá e o secretário Itamar Pereira comentou que, em princípio, a situação deu uma apaziguada, com melhora no setor”, relata. Em Santa Vitória do Palmar, a secretária Susana Terra também mencionou apreensão nos últimos dias, mas a previsão de chuva para o fim de semana deve ajudar a amenizar o quadro.
Leite explica que houve alguns pontos na região com falta de água, o que levou ao aumento da utilização de caminhões-pipa. Ainda assim, ele avalia que a situação não caracteriza estiagem. “Aqui na nossa região, especialmente em Capão do Leão, tivemos um período próximo de estiagem, com mais de vinte dias de janeiro muito secos. Porém, fevereiro já apresentou melhora e entramos em março com chuva”, observa.
Diante disso, o secretário acredita que a tendência é de normalização. “Os prognósticos indicam precipitações dentro da normalidade daqui para frente, então acreditamos que não teremos maiores problemas”, conclui.
