O curta Lá do alto e o longa Kasa Branca, ambos com direção de Luciano Vidigal, são as primeiras atrações do Cine Céu Porto, que começa na noite desta quarta-feira (4). O ator, roteirista e diretor carioca, com uma longa trajetória no cinema nacional, está em Pelotas e, após as exibições, participa de um bate-papo com o público. O evento prosseguirá até sexta-feira, sempre a partir das 19h, na Associação Otroporto, rua Benjamin, 701 A, no bairro Porto. A entrada é franca.
Kasa Branca (2025) é um dos trabalhos recentes mais comentados da filmografia de Vidigal. O longa, que aborda com sensibilidade temas como família e comunidade, integrou a pré-lista brasileira para o Oscar, ampliando sua visibilidade no circuito internacional. “Kasa Branca é um filme lindíssimo, muito sensível, um filme de favela, que nos traz a história de três amigos. A avó de uma delas está com Alzheimer e eles tentam dar, e conseguem, dias melhores para essa senhora. Fala de amizade, de pertencimento, de família e da comunidade deles”, comenta o organizador do Cine Céu do Porto, Alexandre Mattos Meireles.
A presença do diretor em Pelotas, segundo Meireles, reforça o compromisso do festival em promover intercâmbio entre realizadores consagrados e a cena local. “O Luciano é um cara jovem ainda, apesar de já ter a sua trajetória no cinema nacional. E essa temática da família está muito presente na obra dele, inclusive em Lá do alto”, comenta. Após Pelotas, o diretor segue para Punta del Diablo, no Uruguai, para a 4ª edição do Cine del Tridente, que acontece até o domingo (8).
Arte e transformação
Essa é a primeira vez que Luciano Vidigal vem a Pelotas e para o diretor, é sempre bom visitar os lugares através do cinema, o ofício que ele escolheu para a vida. Oriundo de projeto social, que usa a arte como ferramenta de transformação, o artista acredita muito no poder da arte, não só como comunicação, mas como transformação. Para o carioca, estar no município exibindo seus filmes é uma honra.
O cineasta comenta que se sente homenageado ao poder juntar duas de suas obras, exibi-las e poder debater com o público de Pelotas. “Enfim, sobre cinema negro, sobre esse cinema que tenta humanizar o território da favela, enfim, tentando fazer poesia, então acho que vai ser uma troca. Honrado mesmo, de verdade, assim, bem feliz, empolgado”, fala sobre o evento que ele chama de “momento de celebração”.
Ao ser questionado sobre o que ele costuma dizer aos novos realizadores, Vidigal lembra que sempre repete que “a arte tem poder”. “Acreditar que a gente que realiza cinema, audiovisual e a arte como todo, tem uma responsabilidade de poder contar uma história e colocar as pessoas, fazer as pessoas refletirem sobre quem elas são, os lugares em que elas fazem parte, o que a gente pode fazer para melhorar o mundo que a gente vive”, reflete.
O diretor também não esquece de falar aos novos cineastas sobre a importância de ser original. “Você pode contar quem é você, contar sobre o seu lugar pro mundo”, diz.
Encontrar a sua identidade na arte cinematográfica é um dos desafios, dos muitos que aparecem nessa caminhada. Por isso o diretor recomenda paciência e persistência. “É possível fazer com que os nossos trabalhos cheguem nas pessoas. Também trabalhar e estudar bastante. Tem que ter sede do saber. Consumir bastante cultura para que a gente tenha bastante referências, ter qualidade no ofício e poder voar. Voar com a nossa arte, é isso”, reflete.
Vidigal ainda comenta que o cinema brasileiro está em um momento especial. “Um momento lindo, ganhamos um Oscar e pelo que eu tô vendo vamos ganhar de novo. Acho que o mundo tá de olho aqui na nossa arte. Momento importante é isso que o cinema brasileiro tá vivendo”, comenta.
Outras sessões
A programação segue até sexta-feira, sempre às 19h. Amanhã, o foco recai sobre os curtas produzidos na região, como O Jogo, com direção de Meireles e Chico Maximila, O Tempo Tambor, de Cíntia Langie e Êmily Passarinho, e O Pico de Ballmer, de Cadu Zimmermann, com mediação de Vidigal.
No último dia, será exibida outra produção local, o longa O mundo cabe em um Fusca, com direção de Nauro Júnior, evidenciando a vitalidade da produção pelotense. A mediação é do jornalista Roberto Giovanaz.
Formação
Além das sessões, o evento investe na formação de novos realizadores. Uma oficina de introdução ao audiovisual será ministrada por Elidiel de Leon para estudantes de escolas da região do Porto. A iniciativa dialoga com a estratégia de longo prazo defendida pela organização: garantir a permanência de mostras, estimular a produção independente e fortalecer a cadeia criativa.