Há alguns anos eu venho notando diferenças nos meus pais. Eles, que antes saíam depois do trabalho para beber uma cerveja ou duas, agora dormem no sofá às nove e meia, assistindo ao jornal. Eles viraram tão fãs de delivery quanto os filhos. Fazer qualquer plano quando está chovendo não é opção. E agora, quando enxergam crianças pequenas, só trocam olhares e falam “ainda bem que essa fase acabou”. E eu sempre me pego pensando: ainda bem que acabou a tempo de vocês ainda terem energia.
A verdade é que qualquer pessoa sem filhos não sabe como é ter filhos. Eu sabia disso, mas no fundo achava que não podia ser nada tão sobrenatural ou inimaginável. Então, minha teoria foi colocada à prova essa semana. Não tenho crianças na família, mas meu namorado tem duas: o Bernardo, de sete anos, e a Luiza, de três. Eu amo crianças, então, passar tempo com elas para mim é diversão, especialmente quando são tão educadas. Tive o privilégio de ver o Bernardo aprendendo a nadar. Desenhamos juntos, tomamos café. E eu só conseguia pensar o quanto é maravilhoso ter uma família grande e com crianças.
É importante pontuar algo crucial: nunca fiquei sozinha com os dois e não é à toa que estava sendo muito leve.
Dia dois. Eram sete e meia da manhã e o Lipe – meu namorado – precisava trabalhar às oito. Saí do quarto para encontrá-lo na cozinha, quando vejo uma pulguinha atrás de mim, com a pergunta mais temida para os inexperientes:
– Cadê a minha mãe?
A Luiza me disse com os olhos já marejados. Não consegui responder a tempo do pior: o choro de saudade. A pequena foi para a janela da frente, esperando a mamãe, chorando com tudo o que tinha no pulmão. Ofereci colo, mas eu não sou a mamãe. Olhei para o Lipe. O Lipe me olhou. Ele tentou explicar que a mãe havia saído e já voltaria, ou que estava dormindo, mas nada adiantou. Só o papai. No fim, nos olhamos de novo e eu só disse:
– Agora eu entendi.
Definitivamente não estamos prontos para sermos pais. Tudo bem. Não estávamos considerando de forma alguma. Aceito o título de tia ou prima descolada. E a canseira nunca esquecida dos meus pais foi finalmente compreendida. A verdade é que eles não poderiam se permitir descansar. E agora, comigo e meu irmão maiores de idade, eles finalmente podem dormir assistindo a tevê.