Cadê a minha mãe?

Opinião

Helena Tomaschewski

Helena Tomaschewski

Estudante de Direito

Cadê a minha mãe?

Por

Há alguns anos eu venho notando diferenças nos meus pais. Eles, que antes saíam depois do trabalho para beber uma cerveja ou duas, agora dormem no sofá às nove e meia, assistindo ao jornal. Eles viraram tão fãs de delivery quanto os filhos. Fazer qualquer plano quando está chovendo não é opção. E agora, quando enxergam crianças pequenas, só trocam olhares e falam “ainda bem que essa fase acabou”. E eu sempre me pego pensando: ainda bem que acabou a tempo de vocês ainda terem energia.

A verdade é que qualquer pessoa sem filhos não sabe como é ter filhos. Eu sabia disso, mas no fundo achava que não podia ser nada tão sobrenatural ou inimaginável. Então, minha teoria foi colocada à prova essa semana. Não tenho crianças na família, mas meu namorado tem duas: o Bernardo, de sete anos, e a Luiza, de três. Eu amo crianças, então, passar tempo com elas para mim é diversão, especialmente quando são tão educadas. Tive o privilégio de ver o Bernardo aprendendo a nadar. Desenhamos juntos, tomamos café. E eu só conseguia pensar o quanto é maravilhoso ter uma família grande e com crianças.

É importante pontuar algo crucial: nunca fiquei sozinha com os dois e não é à toa que estava sendo muito leve.

Dia dois. Eram sete e meia da manhã e o Lipe – meu namorado – precisava trabalhar às oito. Saí do quarto para encontrá-lo na cozinha, quando vejo uma pulguinha atrás de mim, com a pergunta mais temida para os inexperientes:

– Cadê a minha mãe?

A Luiza me disse com os olhos já marejados. Não consegui responder a tempo do pior: o choro de saudade. A pequena foi para a janela da frente, esperando a mamãe, chorando com tudo o que tinha no pulmão. Ofereci colo, mas eu não sou a mamãe. Olhei para o Lipe. O Lipe me olhou. Ele tentou explicar que a mãe havia saído e já voltaria, ou que estava dormindo, mas nada adiantou. Só o papai. No fim, nos olhamos de novo e eu só disse:

– Agora eu entendi.

Definitivamente não estamos prontos para sermos pais. Tudo bem. Não estávamos considerando de forma alguma. Aceito o título de tia ou prima descolada. E a canseira nunca esquecida dos meus pais foi finalmente compreendida. A verdade é que eles não poderiam se permitir descansar. E agora, comigo e meu irmão maiores de idade, eles finalmente podem dormir assistindo a tevê.

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