Quem pediu socorro foi morto

Opinião

Jarbas Tomaschewski

Jarbas Tomaschewski

Coordenador Editorial e de Projetos do A Hora do Sul

Quem pediu socorro foi morto

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A Segurança Pública é, ao lado da Saúde, a área mais sensível de uma sociedade. Quando falham, a população padece. A Brigada Militar de Pelotas deixou estarrecida uma população inteira pela forma como agiu na propriedade do produtor rural Marcos Nornberg, 48, na madrugada de ontem. Chegou ao local sem se identificar, reagiu de forma violenta à ação mais do que esperada de alguém que vê sua terra ser adentrada à noite e matou Marcos. Poderia ter sido pior, muito pior. A esposa, Raquel Nornberg, estava em casa e ouviu o marido, baleado, mandar ela se proteger. Foram as últimas palavras que trocaram.

Em choque, a colaboradora do Hospital Universitário São Francisco de Paula da Universidade Católica de Pelotas (UCPel) permaneceu com o rosto coberto, acreditando estar nas mãos de bandidos prontos para matá-la. Precisou responder a perguntas sob intensa pressão dos policiais militares, sabendo que seu companheiro já não estava mais ali.

As imagens da propriedade rural impressionam. Paredes, janelas e utensílios cravejados de tiros. Local onde viviam e dormiam uma servidora da saúde e um trabalhador do campo.

O governador Eduardo Leite (PSDB) manifestou-se. Disse que a polícia “é bem preparada, mas não é imune a erros”. Prometeu apuração e acompanhamento de perto. O deputado federal Daniel Trzeciak (PSDB) chamou de ação de desastrosa e totalmente equivocada. “O maior dano possível já foi feito. É impossível de ser reparado: a vida perdida”. O vereador Jurandir Silva (PSOL) escreveu que o agricultor foi assassinado, numa ação “inaceitável”. Outros vereadores também se manifestaram com cobranças. O deputado federal Alexandre Lindenmeyer (PT) referiu-se à tragédia como algo “a partir de uma informação equivocada, que escancara a gravidade de operações baseadas em pistas frágeis”.

Não existe outra forma de a morte de Marcos ser tratada pela BM: transparência e apuração rigorosa, com a velocidade que o caso exige. Há uma comunidade sob forte impacto, tentando entender a truculência sem fazer juízo de valor.

Sete de cada dez pelotenses confiam, hoje, na Brigada, percentual maior que o índice nacional de confiança dos brasileiros na Polícia Militar. Os dados foram divulgados recentemente em pesquisa feita para o jornal A Hora do Sul pelo Instituto Pesquisa de Opinião (IPO). A alta favorabilidade é reflexo de anos de trabalho sério na cidade, responsável por transformar a imagem da corporação. Patamar tão difícil de alcançar quanto de manter. O episódio provocado pelos PMs envolvidos na operação tem força suficiente para causar sérias fissuras no que foi feito até aqui. E ninguém deseja isso. Mas, como disse o governador, o órgão não é imune a erros. Precisa responder por suas falhas, principalmente as graves.

Marcos morreu tentando defender a propriedade da família. Raquel, cuja rotina é dedicada muitas vezes a ajudar quem chega ao Hospital Universitário, não conseguiu salvá-lo por também temer por sua vida. Ironicamente, haviam pedido socorro às forças de Segurança Pública após o local onde cultivam alimentos e sonhos ter sido alvo de bandidos. E acabaram tratados como tal.

Pelotas está estarrecida com o grau de violência empregada contra dois de seus cidadãos. É hora de respostas.

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