Por trás das piadas que circularam nas redes sociais sobre a mulher que foi ao aeroporto esperar o ator Brad Pitt, há um problema sério de saúde mental. A professora do curso de Psicologia da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), Thaíse Mendes Farias, explica que golpes sentimentais utilizam manipulação emocional e podem provocar impactos psicológicos profundos, especialmente em pessoas em situação de vulnerabilidade.
Uma senhora foi até o aeroporto esperar o Brad Pitt, isso virou notícia e também motivo de chacota para muitas pessoas. A gente não sabe como ela lidou ou está lidando com isso. Como vocês percebem esse tipo de cenário?
A cada minuto, no Brasil, cerca de 75 pessoas são abordadas para sofrer algum tipo de golpe via WhatsApp ou e-mail. Metade dos brasileiros já sofreu algum tipo de abordagem nesse sentido e, aproximadamente, 30 milhões de pessoas já caíram em golpes. Isso representa quase R$ 30 bilhões perdidos. Nesse caso específico, um golpe sentimental que, talvez, ainda não tenha incorrido em perdas financeiras – porque a maioria dos golpes sentimentais visa justamente isso: a extorsão. O golpista adentra a intimidade da pessoa e começa o processo de extorsão, pedindo valores, às vezes de forma amigável, outras vezes por meio de chantagem. Às vezes, é alguém que tem um compromisso, é casada, tem filhos. Isso impacta de forma significativa as relações, gerando sentimentos intensos de vergonha e culpa, o que faz com que muitas vítimas não procurem ajuda. Isso pode levar ao desenvolvimento de transtornos mentais como ansiedade, depressão, transtorno de estresse pós-traumático ou até suicídio.
Como é construída essa relação falsa?
Com a inteligência artificial, fica difícil distinguir o que é real. Isso se soma às vulnerabilidades das pessoas, especialmente aquelas com menos familiaridade com ferramentas digitais ou que estão em momentos de fragilidade emocional. Os golpistas coletam dados sensíveis nas redes sociais. São estelionatários preparados para detectar vulnerabilidades e construir narrativas. Mulheres costumam ser abordadas por discursos românticos, já homens por abordagens mais sexuais. Há um estudo do perfil psicológico e psicossocial das vítimas, considerando idade, renda, hábitos e fase da vida. E, com as redes sociais, existe uma falsa sensação de proximidade com celebridades. Comentamos em perfis de famosos, recebemos respostas, e isso cria a ilusão de que esse contato é possível. Por isso, apesar de parecer absurdo, para algumas pessoas não soa tão improvável. E mesmo quando não há crime financeiro, a exposição pública pode ser extremamente danosa. Virar meme pode ser devastador, especialmente para quem já está emocionalmente fragilizado. Precisamos ter muito cuidado ao transformar tudo em piada. Isso pode gerar sofrimento psicológico intenso e até consequências jurídicas, como ações por danos morais.
O que mais tem chegado até vocês como prejuízo das redes sociais?
Os jogos de azar online, já são um problema de saúde pública. Há uma epidemia de vício em jogos, inclusive entre jovens e adolescentes. Essas plataformas são pensadas para viciar, com estímulos visuais e sonoros. Antes, havia algum controle físico, como idade mínima em bingos e cassinos. Hoje, com o celular, qualquer pessoa pode acessar.
O STF suspendeu o bloqueio de bets para beneficiários do Bolsa Família. Esse público é mais atingido?
Sim, porque existe a esperança de sair da vulnerabilidade financeira. Em momentos de crise social e econômica, aumentam tanto o comportamento de risco com jogos quanto o fanatismo religioso. Não podemos responsabilizar apenas o indivíduo: é um fenômeno econômico, social e político.