De 19 a 30 de janeiro, Pelotas volta a ocupar o centro do mapa da música de concerto da América Latina com a realização do 14º Festival Internacional Sesc de Música. Consolidado como um dos maiores eventos do gênero no continente, o Festival chega a mais uma edição ampliando números, além de aprofundar vínculos com a cidade e reforçar seu papel formativo, social e econômico. Durante quase duas semanas, a cidade será atravessada por sons vindos de diferentes países, sotaques, gerações e histórias, em uma ocupação cultural que mobiliza espaços simbólicos, projetos sociais, universidades, artistas consagrados e centenas de jovens músicos.
Criado em 2011, o Festival nasceu grande e permaneceu fiel a uma estrutura baseada em dois eixos centrais: o pedagógico e o sociocultural. “É um festival de música de concerto, mas que se organiza a partir da formação e do acesso”, resume o diretor de Música do Sesc-RS, Anderson Mueller. A realização é do Sistema Fecomércio-RS/Sesc, com apoio institucional da Prefeitura de Pelotas e apoio cultural de universidades e instituições parceiras.
A edição de 2026 reúne cerca de 400 alunos, mais de 20 estados brasileiros representados, estudantes de outros países e um corpo docente formado por 59 professores de 12 nacionalidades. “Estamos falando de uma engrenagem complexa, que envolve logística, gestão, curadoria e orçamento durante todo o ano, para entregar um evento com mais de 115 (número recorde) apresentações gratuitas em apenas 11 dias”, destaca.
A dimensão internacional se reflete diretamente no cotidiano de Pelotas. Durante o festival, a rede hoteleira da cidade atinge quase 100% de ocupação, além de aquecer bares, restaurantes, serviços e o comércio local. Mas o impacto vai além da economia. Concertos e recitais acontecem não apenas em palcos tradicionais, como o Theatro Guarany, o Conservatório de Música da UFPel e igrejas históricas, mas também em praças, hospitais, asilos, rodoviária, Mercado Público, Café Aquário, calçadão, Laranjal e comunidades periféricas, incluindo a colônia de pescadores.
Expectativas
Em 2025, a programação alcançou mais de 45 mil pessoas, e a expectativa para este ano é repetir ou ampliar esse público. No eixo formativo, o festival se consolida como um dos mais disputados da América Latina. Para esta 14ª edição, foram 1.179 inscrições para o processo seletivo, que definiu os bolsistas das classes de instrumentos, canto, composição e práticas coletivas. Os alunos selecionados representam, por exemplo, países como Argentina, Colômbia, México, Peru, Uruguai e Venezuela. Pela primeira vez, o eixo educacional recebe também alunos de fora das Américas, com a participação de seis estudantes do Reino Unido na classe de choro, resultado de parceria entre o Sesc-RS, a UFPel e a Bath Spa University.
“O encontro desses alunos e professores confere ao festival um caráter genuinamente global, com conexões diretas com centros musicais importantes da Europa, das Américas e da Ásia. É um grande intercâmbio de culturas, talentos e histórias”, resume Mueller. As bolsas integrais e parciais cobrem viagem, estadia e participação, garantindo excelência técnica e, ao mesmo tempo, diversidade de perfis.
Formação continuada
A inclusão social é outro pilar estruturante do festival. Além das bolsas para alunos de nível avançado, o evento recebe mais de 200 jovens de projetos sociais. Entre eles, estão integrantes das Orquestras do Areal, Municipal de Pelotas e da Orquestra Jovem Sesc Rio Grande do Sul, sediada no município.
Criada como um legado permanente do Festival, a Orquestra Jovem Sesc RS atende jovens de 15 a 20 anos, faixa etária que muitas vezes fica entre os projetos sociais iniciais e o ingresso em universidades ou conservatórios. “O festival não termina em janeiro: ele deixa uma ação sistemática na cidade, fortalecendo a educação musical e criando perspectivas reais de futuro”, afirma Mueller.
Neste sentido, o Festival tem fomentado a música para além das fronteiras de Pelotas. Um exemplo, são as orquestras formadas por estudantes dos ensinos fundamental e médio em diferentes cidades da Zona Sul do Estado. À frente destes projetos estão ex-integrantes das orquestras de Pelotas, que tiveram suas aptidões aprimoradas no Festival do Sesc. Como sintetiza Mueller, “o festival cresce, se renova e se oxigena a cada edição, mas mantém o mesmo propósito: democratizar a música de concerto e deixar um legado duradouro para Pelotas, para o Rio Grande do Sul e para o Brasil”.
Trajetória e consolidação
À frente da Direção Artística desde a primeira edição, o maestro Evandro Matté acompanha de perto essa trajetória de consolidação. “O Festival começou muito grande, mas ao longo dos anos houve uma qualificação enorme na logística, na estrutura e no atendimento. No início, tínhamos cerca de 40 apresentações; hoje chegamos a 115, espalhadas por todos os cantos da cidade e para todos os tipos de público”, destaca.
A escolha de Pelotas como sede permanente foi decisiva para esse sucesso. Matté lembra que a cidade reúne tradição cultural, equipamentos históricos e uma receptividade singular do público. “Sempre me chamou a atenção a forma como Pelotas recebe a música de concerto. Os concertos da Ospa (Orquestra a qual foi regente por uma década) aqui eram sempre lotados. Além disso, a cidade tem uma logística perfeita: teatros, universidades, hotéis e espaços culturais concentrados, o que facilita enormemente um evento desse porte. Pelotas abraçou o festival desde o primeiro ano, e isso tornou impossível pensar em tirá-lo daqui”, afirma.
O impacto humano sobre os alunos é um dos resultados mais visíveis. “Festivais intensivos de verão deixam marcas profundas. O aluno entra de um jeito e sai de outro. Para jovens de projetos sociais, assistir a aulas e concertos de altíssimo nível é transformador. Muitos descobrem ali o desejo de seguir carreira, e temos inúmeros casos de alunos que conquistaram bolsas no exterior ou ingressaram em grandes orquestras a partir dessa experiência”, relata o maestro.
Tempo de homenagens
A programação artística de 2026 também se destaca pelas homenagens e grandes produções. A abertura oficial, no dia 19, terá um cortejo musical no Largo do Mercado Público e, à noite, a ópera Em Busca das Paisagens Perdidas, da Companhia de Ópera do RS, no Theatro Guarany. O espetáculo celebra os 400 anos das Missões Jesuíticas Guaranis e homenageia Jayme Caetano Braun, com uma superprodução que promete marcar o público.
Sob o tema É tempo de se emocionar, esta edição também vai lembrar outras efemérides como os 120 anos de Radamés Gnattali, a obra de Hermeto Pascoal, o centenário do Centro Português de Pelotas e a trajetória da bailarina Diclea Ferreira de Souza, além de concertos populares, como a apresentação de Renato Teixeira com orquestra no Laranjal.
Alunos e mestres
Além de uma vida dedicada à música, Mathias Behrends Pinto e Thiago Perdigão têm em comum o fato de suas atuações profissionais ainda serem impactadas pelo Festival Internacional Sesc de Música. O violonista e compositor, conhecido como Mathias 7 Cordas, foi aluno da terceira edição do evento.
Atualmente é um dos professores do Núcleo de Choro do Festival. “Foi excelente, na época tive contato com grandes professores, além disso a estrutura do festival é muito importante. O festival Sesc dá todo o suporte para os alunos e o nível é altíssimo”, fala. Este ano ele vai estrear a sua composição Suíte Raízes, no dia 26, no Theatro Guarany, dentro da programação do Festival.
Por sua vez, o pianista, maestro e compositor, por formação, Thiago Perdigão, chega a sua oitava participação como aluno do Festival. O músico, que foi regente da Orquestra Jovem Sesc do RS, vai dar uma pausa na regência para se dedicar a outra paixão, a composição musical. “É o curso que eu sempre faço. Fiz aula com o compositor João Glenn Ripper, depois com André Mehmari”, relembra alguns dos seus mestres.
Perdigão salienta que o Festival oferece a oportunidade imperdível de se ter aulas gratuitas de expoentes em diferentes áreas. “Você consegue fazer aula com esses caras que você nunca conseguiria fazer se não fosse no Festival do Sesc”, fala. Outro estímulo importante para o músico é a possibilidade de ter uma composição interpretada por colegas. “Como têm muitos músicos, a gente consegue reunir o pessoal pra fazer obras nossas. Esse ano deve ter algumas composições minhas no Festival, é uma experiência muito legal”, fala.
