Apesar dos avanços na medicina, o câncer de próstata ainda é uma das doenças que mais preocupam os homens em todo o mundo. E o Novembro Azul está aí para reforçar a conscientização sobre prevenção e que o homem precisa estar atento a sua saúde. Só em 2022 foram registrados cerca de 1,47 milhão de novos casos, segundo dados do World Cancer Research Fund, colocando-o entre os tipos de câncer mais comuns na população masculina. No Brasil, os números também impressionam e os avanços no diagnóstico podem mudar este cenário.
O Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima que, entre 2023 e 2025, surjam 71.730 novos casos por ano, o que representa um risco estimado de 67,86 casos a cada 100 mil homens. É o câncer mais incidente entre os brasileiros, desconsiderando os tumores de pele não melanoma, e o segundo que mais mata homens no país. Somente em 2021, mais de 16 mil brasileiros perderam a vida em decorrência da doença, uma média de 44 mortes por dia. Em Pelotas, até quinta-feira, mais de 3,2 mil pacientes estavam na lista de espera para consulta, exame e procedimentos cirúrgicos.
Diagnóstico mais preciso
O urologista João Siqueira explica que os maiores avanços no manejo do câncer de próstata se concentram em duas frentes: o diagnóstico e o tratamento. “O uso de ressonância magnética multiparamétrica e PET scan aumentou a precisão no diagnóstico e no estadiamento. Hoje também dispomos de exames de sangue e urina mais específicos, que reduzem a necessidade de biópsias”, detalha o médico.
Para os casos de doença localizada, a conduta médica pode variar conforme o risco. “Nos tumores de baixo risco, adotamos a vigilância ativa, acompanhando o paciente de perto sem iniciar o tratamento imediato. Já para os de risco intermediário ou alto, o avanço das técnicas cirúrgicas robóticas e da radioterapia modulada trouxe resultados mais seguros e com menos efeitos colaterais”, acrescenta.
Nos casos mais avançados, há uma verdadeira revolução terapêutica. “Hoje utilizamos terapias hormonais de nova geração, imunoterapia, quimioterapia combinada e terapias-alvo. Uma das inovações mais promissoras é o uso da molécula Lutécio-177, que emite radiação diretamente nas células tumorais”, afirma.
Cirurgia robótica
Entre os avanços que mais impactaram a qualidade de vida dos pacientes, a cirurgia robótica é um destaque. O procedimento permite uma recuperação mais rápida, com menos dor, menor sangramento e cicatrizes discretas. “Além disso, a precisão dos braços robóticos reduz o risco de danos aos nervos e ao esfíncter, o que melhora a preservação da continência urinária e da função sexual”, observa Siqueira. “O controle urinário geralmente é recuperado entre três e seis meses, e a função erétil pode voltar em poucos meses, dependendo da idade e do caso clínico.”
115 cirurgias robóticas
Em Pelotas, o avanço tecnológico chegou recentemente à rede hospitalar. O urologista Saulo Recuero, que coordena o programa local de cirurgia robótica, conta que a cidade já contabiliza mais de 115 cirurgias realizadas em menos de um ano. “A maioria dos pacientes operados era de câncer de próstata. Com a tecnologia robótica, conseguimos resultados funcionais muito melhores, com índices mais baixos de incontinência e impotência. É um salto de qualidade em relação às técnicas tradicionais”, afirma o médico.
Mitos

(Foto: Divulgação)
Apesar dos avanços e da ampla divulgação do Novembro Azul, mitos e tabus continuam afastando muitos homens das consultas preventivas. “Um dos mitos mais comuns é o de que ‘quem procura, acha’”, comenta Recuero. “Esse pensamento é perigoso, porque o diagnóstico precoce é justamente o que permite um tratamento menos agressivo e com maiores chances de cura.”
Outro equívoco recorrente envolve o exame de toque retal, muitas vezes cercado de constrangimento e receio. “O exame é rápido, indolor e dura cerca de 10 a 15 segundos. Ele fornece informações valiosas sobre o tamanho e a textura da próstata, e pode identificar nódulos suspeitos. Não é um exame confortável, mas está longe de ser doloroso”, explica o urologista.
O médico também destaca a evolução dos tratamentos para doenças benignas da próstata, como a hiperplasia prostática benigna (HPB), que causa sintomas urinários. “Hoje dispomos de medicamentos eficazes e de técnicas minimamente invasivas, como o HOLEP, que utiliza laser para remover o tecido prostático aumentado pela uretra. O paciente tem alta em 24 horas, com mínima chance de sangramento e preservação da função sexual”, descreve.
O papel da prevenção e o rastreamento adequado
O PSA (antígeno prostático específico) segue sendo o principal exame de triagem, mas sua interpretação mudou. “O PSA isolado não deve mais ser usado como único critério. Hoje, associamos o resultado a outros biomarcadores e à ressonância magnética multiparamétrica, o que ajuda a evitar biópsias desnecessárias”, explica o urologista João Siqueira. A tendência, segundo ele, é caminhar para uma medicina cada vez mais personalizada, que considere o perfil genético e clínico do paciente.
O rastreamento deve começar aos 50 anos para a população em geral, e aos 45 anos para grupos de risco, homens negros ou com histórico familiar de câncer de próstata, de mama ou ovário.
Recuero lembra que há também um vazio de acompanhamento médico entre adolescentes e adultos jovens. “Depois que o menino deixa o pediatra, ele costuma passar décadas sem procurar um médico, até que surjam sintomas. É importante incentivar o cuidado contínuo com a saúde masculina desde cedo.”
Novembro Azul
Para além da próstata, o Novembro Azul é um convite ao cuidado integral com a saúde do homem. “É um momento de lembrar que não se trata apenas de prevenir o câncer de próstata, mas também de cuidar do coração, da alimentação e da saúde mental”, reforça Recuero. “A campanha tem surtido efeito: os homens estão procurando mais o urologista, mas ainda há muito a evoluir. Cerca de 70% só vão ao médico por incentivo da esposa ou de uma filha, segundo a Sociedade Brasileira de Urologia.”
Esperança e qualidade de vida
Com o avanço das tecnologias e o acesso crescente a cirurgias minimamente invasivas, o câncer de próstata se tornou cada vez mais tratável. “A mensagem mais importante é que o diagnóstico precoce salva vidas e permite uma vida plena após o tratamento”, conclui João Siqueira. “Hoje temos recursos para preservar a masculinidade, a função sexual e a autoestima dos pacientes, e isso faz toda a diferença.”
Encaminhamento feito pela Prefeitura
Até quinta-feira, haviam 3.252 solicitações em fila de espera para urologia adulto, de acordo com o Sistema de Gerenciamento de Consultas (Gercon), usados no RS para centralizar e priorizar agendamentos de consultas e exames especializados do SUS.
Solicitações em fila para procedimento cirúrgico em urologia
- Hospital Universitário São Francisco de Paula: 4
- Sociedade Portuguesa Beneficência Portuguesa: 19
- Hospital Escola/UFPel: 15
