“O veterinário é um personagem que  criei para sustentar o artista”

ABRE ASPAS

“O veterinário é um personagem que criei para sustentar o artista”

Mário Schuster - Artista plástico

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“O veterinário é um personagem que  criei para sustentar o artista”
Artista esteve na Rádio Pelotense para falar de uma de suas obras na Bienal da Amazônia (Foto: João Pedro Goulart)

O artista plástico Mário Schuster, natural de Pelotas, tem levado sua arte para o mundo. Veterinário de formação, ele redescobriu nas telas o caminho que, segundo diz, “sempre foi o certo”. Agora, uma de suas obras integra a Bienal da Amazônia, em Belém (PA), que acontece junto à COP30, conferência mundial sobre o clima. Mário fala sobre a trajetória entre a veterinária e a pintura, as inspirações e o significado da obra escolhida para representar o Sul na exposição.

Como começou tua relação com a arte?
Parece um pouco contraditório, mas não é. Eu sempre desenhei, desde que me lembro por gente. O desenho sempre fez parte da minha vida. Ao mesmo tempo, os animais também. Quando eu era criança, morava nas Três Vendas, que naquela época era mais afastada da cidade, e a gente tinha animais em casa. Então, eu estava sempre entre o desenho e os bichos. Com uns 12 anos, entrei no ateliê do professor Rodrigues, um pintor uruguaio que dava aula na universidade, no tempo das Belas Artes. Ele não queria me aceitar por eu ser muito jovem, mas fez um teste comigo: montou uma natureza morta, foi mudando os objetos e eu fui desenhando. Aí ele resolveu me aceitar. Fiquei dois anos desenhando e pintando com ele.

E como a veterinária entrou nesse caminho?
Talvez inconscientemente eu já tivesse a ideia de que viver de arte não é fácil. Então, como eu tinha essa ligação com os animais, optei pela veterinária. Fiz o que quase todo mundo faz: terminei o segundo grau, passei no vestibular, fiz faculdade, casei, tive filhos e trabalhei com veterinária. Mas sempre pintei. Nunca como hobby, era uma necessidade. Eu pintava porque precisava, não para me distrair.

E quando veio a primeira exposição?
Eu me formei em veterinária num sábado, com 23 anos, e na segunda-feira começou minha primeira exposição, no saguão da prefeitura. Meu irmão montou porque eu estava envolvido com a formatura. Quando cheguei lá para ver, entrei em choque. Me deu vontade de tirar tudo e levar para casa, porque era a primeira vez que eu estava mostrando meu trabalho em público. Me senti muito exposto. Depois, com o tempo, fui me acostumando com a ideia. Hoje penso completamente diferente. Naquela época eu não tinha experiência.

Por que tu costumas brincar que o veterinário sustenta o artista?
Dentro da história da arte, o pintor sempre precisou de alguém que o sustentasse (reis, mecenas, a Igreja). Viver de arte nunca foi fácil, e continua não sendo. Então, eu digo que o veterinário é um personagem que criei para sustentar o artista. Hoje, faço o que realmente acho que nasci para fazer: pintar e desenhar. Mas ainda é difícil, porque o artista plástico precisa fazer tudo: produzir, se divulgar, correr atrás.

E como surgiu a participação na Bienal da Amazônia, dentro da COP30?
Vi uma chamada na internet. Perguntei, mandei meu portfólio virtual, gostaram e me convidaram. Tudo aconteceu em dois ou três dias. A organização é feita por três galerias: uma de Nova Iorque, uma de São Paulo e uma de Belém. São cerca de 27 artistas, a maioria estrangeiros. Provavelmente eu seja o único gaúcho participando. O curioso é que a obra não foi feita especialmente para COP. Eu estou sempre pintando, e quando surge uma oportunidade vejo se algum trabalho se encaixa na proposta.

Qual obra foi enviada para Belém?
É uma índia vestida com o manto da Nossa Senhora Aparecida. A série questiona as imposições culturais, não apenas religiosas, do que chamamos de “civilização” sobre culturas que talvez sejam mais civilizadas do que a nossa. Esses povos preservam a natureza porque dependem dela. E agora, na COP, estamos discutindo justamente o que fizemos com o espaço em que eles viviam. Então é um questionamento: até que ponto estamos certos e eles errados? A história sempre é contada pelo ponto de vista do conquistador.

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