Bibliotheca Pública Pelotense celebra 150 anos preservando história e cultivando leitores

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Bibliotheca Pública Pelotense celebra 150 anos preservando história e cultivando leitores

A entidade, de caráter privado, ainda se mantém como um imprescindível aparelho cultural para o município

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Bibliotheca Pública Pelotense celebra 150 anos preservando história e cultivando leitores
(Foto: Holding In.Pacto)

Na próxima sexta-feira (14), Pelotas celebrará um marco raro no cenário cultural brasileiro: os 150 anos da Bibliotheca Pública Pelotense (BPP). Fundada em 14 de novembro de 1875 por um grupo de cidadãos empenhados em promover o acesso ao conhecimento, a instituição chega a esse aniversário fiel à sua missão original — preservar a memória e estimular o gosto pela leitura —, mantendo-se como um dos maiores símbolos do engajamento comunitário do município.

Criada como entidade privada e sem fins lucrativos, a BPP é sustentada por seus associados e pelo apoio da sociedade civil. “Chegamos inteiros. A Bibliotheca, eu tenho dito, não é só um depósito de livros. É um centro cultural. Ali acontecem espetáculos musicais, de teatro, ali acontece lançamento de livros, e ela foi criada para ser um centro cultural”, comenta a presidente da entidade, Lisarb Crespo Costa.

Um centro cultural onde os serviços são gratuitos. “Nós prestamos um serviço gratuito. E nós temos apostado há 20 anos na formação de leitores”, afirma Lisarb. Hoje, a instituição reúne cerca de 1,5 mil sócios. “E nós agradecemos muito a toda a comunidade. Mas sempre fazemos um apelo para que se associem, para que nos ajude a sobreviver”, fala.

Parte das contribuições ajuda a manter um acervo que ultrapassa os 150 mil títulos, entre obras gerais e raras, ainda documentos, fotografias, periódicos e outras publicações, além do museu no subsolo. Nos últimos anos, a BPP passou também a se destacar no processo de digitalização do acervo, que já abrange metade de seus títulos. Pesquisadores do Brasil inteiro acessam esse material que tem obras que não são encontradas nem na Biblioteca Nacional.

Legado coletivo

Ao longo de um século e meio, a Bibliotheca Pública Pelotense se firmou como símbolo da força comunitária. Desde sua fundação, em 1875, quando 45 cidadãos doaram os primeiros 960 volumes e lançaram a pedra fundamental do prédio em 1878, a história da Bibliotheca é também de engajamento cultural.

“Ela é uma casa dos pelotenses. Qualquer pessoa entra na Bibliotheca. Uma casa democrática. Uma casa que em 1877 começou um programa de alfabetização para adultos. Quando nessa época se pensava nessa possibilidade? Ali se criaram quantas e quantas entidades”, relembra a presidente.

Entre essas entidades estão a escola Louis Braille, que funcionou ali, bem como a  escola de Belas Artes, destaca Lisarb. “Nós somos o nascedouro de um caldo cultural. Nós mantemos ali a história da cidade, por isso é um dos lugares mais importantes da vida dessa cidade.”

O coração da memória pelotense

No interior do prédio histórico da praça Coronel Pedro Osório, o Centro de Documentação abriga um dos acervos mais ricos do Estado. Sob a coordenação do historiador Ueslei Goulart, o setor reúne a hemeroteca, o arquivo histórico e o memorial fotográfico, com documentos que remontam ao século 18.

“Temos jornais desde o século 19, como O Pelotense, de 1853 — o mais antigo do acervo —, além de títulos como Diário Popular, Opinião Pública e Correio Mercantil. São fontes essenciais para a pesquisa da história local e regional”, explica Goulart.

O arquivo histórico guarda atas da Câmara Municipal, relatórios públicos e documentos de famílias e instituições, compondo um retrato multifacetado da sociedade pelotense ao longo dos séculos. Já o memorial fotográfico conta com mais de 4 mil imagens da cidade, a partir da década de 1930.

Segundo o historiador, o acesso ao acervo é controlado e monitorado com rigor. “Nós registramos diariamente todos os atendimentos há mais de dez anos. Muitos pesquisadores passam meses ou até anos aqui, desenvolvendo seus trabalhos. A Bibliotheca oferece uma gama de possibilidades enorme”, destaca.

O cuidado com as obras raras

Também responsável pelo setor de Obras Raras, a bibliotecária Aritana Becker Dias chegou à instituição há apenas três meses, em meio ao processo de restauro do prédio histórico. “Trabalhar aqui é um privilégio e uma responsabilidade enorme. Tenho memórias afetivas desse lugar, onde pesquisei muito quando estava na escola, num período antes da internet”, conta.

O acervo de obras raras inclui livros dos séculos 17, 18 e 19 — entre eles, uma obra de poesia em espanhol datada de 1617, a mais antiga da casa. Essas obras podem ser pesquisadas, mas para segurança, elas não saem do prédio.

Manter todo esse precioso material em dia não é fácil. O trabalho de catalogação e preservação é contínuo. “É um processo infinito, que envolve atualização de registros, higienização e acondicionamento das obras. Tudo é feito de forma cuidadosa para garantir que esses exemplares resistam por muitas gerações”, explica Aritana.

Além de preservar o passado, a Bibliotheca se abre para o futuro. O recente projeto de revitalização das obras raras, contemplado pela Lei Paulo Gustavo, permitiu a modernização do espaço e a digitalização de 30 títulos históricos, já disponíveis no site da instituição.

Formação de leitores e vida cultural

Se nos primórdios a entidade era abrigo para cursos de alfabetização e até profissionalizantes, hoje a BPP também se destaca pelo compromisso com a formação, mas agora voltada a estimular novos leitores. Seu setor infantil e infantojuvenil é um dos mais movimentados, com contação de histórias, oficinas e projetos de extensão.

Um deles é o Bibliocantos, que leva o ônibus-biblioteca às escolas públicas da cidade, promovendo o contato direto das crianças com os livros. “O setor infantil e juvenil é um dos mais importantes para nós”, diz Lisarb. Mesmo com as obras, as ações do setor não pararam e por estes dias estão concentradas na Alameda das Crianças, durante a 51ª Feira do Livro.

Revitalização de outras áreas

Desde agosto a BPP está de portas fechadas para revitalização do telhado do Salão Nobre. Desde ontem a entidade não recebe o público de leitores e pesquisadores, apenas do trabalho interno segue normalizado. A previsão era de que os serviços à comunidade fossem retomados em 40 dias, porém isso não aconteceu.

“Nesse momento, nós queríamos dar um grande presente que é estar com a Bibliotheca restaurada, pronta para receber o povo pelotense. Felizmente, o presente que a Bibliotheca pode dar para a sua comunidade é saber que ela está sendo restaurada”, fala a presidente.

O prédio da BPP é reconhecido como um dos principais patrimônios culturais do Estado, integrando os bens do Conjunto Histórico de Pelotas, tombados pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Para a obra a entidade recebeu R$200 mil do Banrisul Cultural e R$82,5 mil da Fecomércio. “O Salão Nobre estava numa situação crítica, de ter, inclusive, a possibilidade de desabar, com infiltrações no telhado, necessitando de um restauro urgente”, relembra.

Para aproveitar esse momento em que o prédio está fechado e com estantes fora de seus locais, nada melhor do que ir além e revitalizar outros setores.

Nas próximas semanas o resto do telhado vai ter telhas substituídas. Também, com parte desses recursos do Banrisul, serão restauradas algumas das aberturas, as mais deterioradas, segundo Lisarb, e também será trocada a fiação elétrica, levando uma tecnologia nova que empregue mais segurança ao prédio histórico. “Embora a atual tenha segurança, nós estamos sempre procurando melhorar”, comenta.

Esses melhoramentos elevam o prazo de abertura para o primeiro trimestre de 2026. “Eu tenho muito medo de falar em datas quando se fala em obras. Mas a nossa ideia é março: abriremos as portas e aí sim comemoraremos com várias atividades, com artistas locais, como tínhamos já programado”, afirma Lisarb.

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