A criação do Parque Nacional do Albardão, no extremo sul do Rio Grande do Sul, avançou nas etapas técnicas e agora aguarda a decisão final da presidência da República. A proposta de unidade de conservação, localizada em Santa Vitória do Palmar e com área costeira e marinha que também envolve regiões próximas a Rio Grande e Chuí, voltou a gerar debate na Zona Sul sobre possíveis impactos ambientais e econômicos.
O projeto foi desenvolvido pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), responsável pela gestão de parques nacionais no país. Segundo o assessor de comunicação do órgão, Luiz Motta, todas as etapas técnicas necessárias para a criação da unidade já foram concluídas.
“Foram concluídas todas as etapas para criação do Parque Nacional do Albardão. Neste momento estamos aguardando a conclusão do processo por parte da presidência da República”, afirmou.
Apesar da informação sobre o avanço do processo, o secretário municipal de Meio Ambiente de Rio Grande, Antônio Soler, afirmou que não havia, até o fechamento desta reporagem, ato oficial publicado sobre a criação do parque.
A importância ambiental do Albardão
A região do Albardão reúne diferentes ambientes naturais, como dunas, lagoas costeiras, praias arenosas e fundos marinhos. Esses ecossistemas servem de abrigo e área de reprodução para diversas espécies.
Estudos apontam que o local é habitat de três espécies de tartarugas marinhas, além de mamíferos como a baleia-franca, o golfinho-nariz-de-garrafa e a toninha. Tubarões, raias e uma grande diversidade de peixes também fazem parte do ecossistema, muitos deles com importância ambiental e econômica.
A área é considerada prioritária para conservação desde o início dos anos 2000. Em 2005, foi destacada como fundamental para a preservação de tubarões e raias no Brasil. Posteriormente, também foi reconhecida como um dos principais sítios para conservação da biodiversidade costeira e marinha no sul da América do Sul.
ICMBio defende benefícios socioeconômicos
O ICMBio argumenta que a criação do parque foi planejada para reduzir ao máximo impactos nas atividades econômicas da região. Segundo o órgão, 98,7% da área proposta é marinha, enquanto apenas 1,3% fica em terra, sendo que a maior parte já é área de preservação permanente.
Ainda segundo o órgão, a criação do parque pode trazer benefícios ambientais e socioeconômicos para a região. A proposta prevê o desenvolvimento de atividades como ecoturismo, turismo de aventura, pesquisa científica e observação da natureza. Outro argumento é que áreas protegidas podem funcionar como berçários para espécies marinhas, contribuindo para a reposição de estoques pesqueiros no entorno.
Reação de lideranças locais
Apesar disso, a medida tem gerado críticas de parte das lideranças políticas da região. O deputado federal Daniel Trzeciak (PSDB) afirmou que a decisão ocorreu sem diálogo suficiente com a população local e pode trazer impactos para a economia da Zona Sul.
Segundo ele, a criação da unidade de conservação pode afetar atividades como a pesca artesanal, projetos de energia eólica e o turismo. O parlamentar afirmou que pretende atuar para reverter a medida. “[O parque] vai criar impactos econômicos na nossa região, para o pequeno e para o grande. Vai impactar na vida do pescador artesanal, vai impactar na energia renovável, na energia eólica e também no agronegócio”, disse o parlamentar
Audiências públicas anteriores
O tema já havia provocado debates acirrados em 2024, quando audiências públicas realizadas em municípios da região reuniram pescadores, moradores, ambientalistas e autoridades. Na época, prefeitos ligados à Associação dos Municípios da Zona Sul (Azonasul) manifestaram preocupação com possíveis reflexos sobre atividades econômicas locais.