De ferramentas compradas em carnê a um grupo com mais de 140 funcionários

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De ferramentas compradas em carnê a um grupo com mais de 140 funcionários

A história de perseverança de Volnei Kurtz, resultou na criação de uma empresa referência no setor dos implementos rodoviários

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Atualizado domingo,
08 de Março de 2026 às 09:04

De ferramentas compradas em carnê a um grupo com mais de 140 funcionários
(Foto: Divulgação)

Quando decidiu abrir a própria oficina mecânica, em 1984, Volnei Kurtz tinha pouco mais do que um sonho e algumas ferramentas simples compradas a prazo. Eram equipamentos de uso doméstico, pagos em carnês mensais, longe do padrão profissional de uma oficina de caminhões. Nem mesmo a esposa acreditava que o projeto fosse viável. Ainda assim, ele insistiu. Quarenta anos depois, o que começou como uma pequena oficina em um galpão de fundo de quintal se transformou no grupo Rodokurtz, referência no setor de implementos rodoviários, com mais de 140 colaboradores e unidades em expansão.

A história de Volnei começa muito antes da fundação formal da empresa, uma trajetória surpreendente que até merece registro em livro e é o que o diretor fundador da Rodokurtz, tem feito mais recentemente. Nascido em 1956, ele se mudou ainda jovem do interior de Canguçu para Pelotas com a família. O pai conseguiu emprego em uma fábrica de esquadrias e a mãe trabalhou por 33 anos no Curi Hotel. Em 1971, aos 15 anos, Volnei iniciou sua vida profissional em uma oficina mecânica, onde sua função era lavar peças.

Volnei Kurtz tinha pouco mais do que um sonho e algumas ferramentas simples compradas a prazo (Foto: Nátalli Bonow)

Sem qualquer experiência, o jovem mecânico aprendeu na prática. “Eu me sujava mais do que lavava as peças”, recorda. Na época, não havia treinamento ou incentivo formal. Cada trabalhador precisava encontrar seu próprio caminho. Volnei permaneceu ali por 12 anos, observando o funcionamento do setor e adquirindo conhecimento técnico enquanto alimentava um sonho silencioso: ter o próprio negócio.

O desejo de empreender, porém, parecia distante da realidade. Em 1982, já casado com Neci Kurtz, o casal morava em duas pequenas peças construídas no fundo da casa do sogro. O banheiro era compartilhado. A renda era limitada e mal cobria as despesas da casa. “Eu falava para minha esposa que queria montar uma empresa, e ela dizia que era loucura”, conta Volnei. “A gente não tinha nada.”

Começo com o básico

Mesmo assim, ele começou a comprar ferramentas. As aquisições eram modestas, pagas em prestações. Quando reuniu o básico, tomou a decisão que mudaria sua trajetória: pediu demissão do emprego.

Convencido de que precisava tentar enquanto ainda era jovem, Volnei convidou o irmão para se juntar ao projeto. O ano de 1984, marcou o que seria a virada na vida dos Kurtz, um ano de nascimentos, trabalho e esperança.

Volnei e o irmão deixaram seus respectivos trabalhos e, em 6 de fevereiro, abriram uma pequena oficina em um galpão alugado de cerca de 200 metros quadrados, nos fundos de um terreno no Fragata. O espaço comportava apenas dois caminhões. “Foi um salto no escuro”, resume. Pouco antes, em 17 de janeiro daquele mesmo ano, havia nascido Diego, o primogênito de Volnei e Neci, dando mais motivação para o empreendimento.

Os primeiros anos foram de muito trabalho e poucos recursos, mas também de construção de reputação. Volnei apostou em um princípio que carregaria por toda a carreira: a qualidade do serviço. “Mesmo quando o ganho era pequeno, eu nunca deixei de fazer o trabalho bem feito”, afirma.

Oportunidade e determinação

Três anos depois, a empresa já tinha quatro colaboradores. Em 1987, Volnei comprou um terreno e iniciou a construção da primeira sede própria. A obra só foi possível graças a uma negociação criativa: parte da estrutura pré-moldada foi obtida por meio de troca de serviços com um cliente do setor de concretos.

A expansão ganhou ritmo na década de 1990. Em 1997, a empresa assumiu a representação regional da fabricante de implementos rodoviários Guerra, de Caxias do Sul. O acordo foi fechado mesmo sem capital disponível.

“Eu me meti em uma dívida grande, baseada na palavra”, lembra o empresário. A parceria ampliou o volume de negócios e exigiu novos investimentos em estrutura. Com o crescimento contínuo, em 2005 a empresa adquiriu o imóvel que hoje abriga a matriz, no Distrito Industrial de Pelotas. O pagamento foi novamente fruto de negociação: três caminhões entregues ao longo de seis anos.

Volnei e o irmão deixaram seus respectivos trabalhos e, em 6 de fevereiro, abriram uma pequena oficina em um galpão alugado de cerca de 200 metros quadrados (Foto: Nátalli Bonow)

A negociação com a empresa de Caxias do Sul acabou por expor diferentes visões empreendedoras e os irmãos Kurtz decidiram finalizar, sem traumas, a sociedade. “Eu sempre penso assim: uma sociedade pode não ter o momento exato para começar, mas ela tem um momento certo para parar”, diz.

A trajetória, no entanto, não foi feita apenas de avanços. Em 2016, a Guerra entrou em recuperação judicial e acabou decretando falência, deixando a empresa de Volnei sem sua principal representada.

Para manter a operação, o grupo assumiu a representação da fabricante Noma, do Paraná, por cerca de dois anos. A parceria enfrentou dificuldades financeiras e problemas de entrega, trazendo riscos ao negócio.

Novo ciclo

O novo ciclo começou em outubro de 2020, quando a Librelato procurou a empresa para oferecer a concessão regional da marca. A aceitação do desafio exigiu novas obras, adequações estruturais e investimentos para atender aos padrões da fabricante.

Ao mesmo tempo, o negócio passou a incorporar de forma definitiva a segunda geração da família. Diego já atuava na empresa e Douglas, que interrompeu a carreira no basquete após um problema de saúde, assumiu a gestão de uma nova unidade: uma fábrica de implementos rodoviários do grupo, no segmento leve.

Confirmando que está é uma empresa familiar, depois de se preparar, Neci passou a cuidar do setor de Recursos Humanos. Hoje, o complexo empresarial reúne diferentes frentes de atuação. A matriz em Pelotas possui cerca de 17 mil metros quadrados de área, sendo 5,9 mil metros de área construída, e emprega 117 pessoas. A fábrica de implementos conta com 28 colaboradores em um espaço de 2,1 mil metros quadrados.

Em janeiro de 2026, o grupo inaugurou mais uma unidade: a loja Rodokurtz Libre Parts, em Rio Grande, localizada na BR-392, próxima ao porto, com foco na venda de peças e acessórios para caminhões. “Está anexa ao posto Buffon. É um local estratégico, porque já tem uma concentração bastante grande dos caminhoneiros que chegam para descarregar ou estão aguardando a carga no porto”, explica.

Presença diária

Apesar do crescimento, o diretor fundador segue presente no dia a dia da empresa. Aos poucos, porém, começa a transferir responsabilidades para os filhos. “Eu quero ir tirando o pé, mas continuar ajudando”, diz.

(Foto: Nátalli Bonow)

Ao olhar para trás, o empresário credita o sucesso a alguns pilares que considera fundamentais: perseverança, investimento constante, qualidade no trabalho e fé. “Se eu não tivesse arriscado, não sei o que seria hoje. Às vezes as coisas não se resolvem na hora. Tem que ter paciência e acreditar, reflete.

Para ele, a principal lição para quem deseja empreender continua sendo começar pequeno e crescer de forma consistente. “A empresa se constrói com credibilidade (junto aos clientes, fornecedores e colaboradores). Precisam confiar em você. É isso que sustenta qualquer negócio.”

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