O que colho muito além do jardim

Opinião

Jarbas Tomaschewski

Jarbas Tomaschewski

Coordenador Editorial e de Projetos do A Hora do Sul

O que colho muito além do jardim

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É impossível rever um dos clássicos do cinema dos anos 70 — Muito Além do Jardim, com Peter Sellers e Shirley MacLaine — e não associar a crítica feita naquele momento ao que vivemos hoje. Obras-primas têm essa peculiaridade, costumam ser atemporais.

A quem se interessar, e antes de sentar na frente de uma tela, dou uma dica: você estará vendo um filme levado ao público quase 50 anos atrás, quando o mundo e os valores eram outros, assim como a forma como se faziam longas-metragens. Não espere efeitos especiais ou uso de IA. Espere — e tente buscar — profunda reflexão.

Muito Além do Jardim é inspirado no livro O Videota, de Jerzy Kosinski, e conta a história de um homem com mentalidade de criança, quase um idiota (Chance, interpretado por Peter Sellers), que entende o mundo apenas pela tevê e passou a vida cuidando do jardim de um homem. Até ser obrigado a deixar a casa após a morte de quem o abrigava.

Na rua pela primeira vez e sem nenhuma base para se sustentar sozinho, mas vestido como um verdadeiro lord, ele admira a decadente Washington enquanto caminha sem rumo, até ser atingido por uma limusine. Do carro desce uma mulher que, para evitar problemas, leva-o para atendimento médico em sua casa, onde seu marido idoso e milionário já recebe assistência em saúde ao final da vida.

E aqui vem a grande virada. Na mansão, cercado de gente influente junto ao poder, Chance encanta a todos com sua simplicidade nas palavras para tratar de assuntos espinhosos, como política e economia. O idoso milionário, amigo do presidente dos Estados Unidos, passa a admirá-lo e transforma-o em uma espécie de guru. Ele fica famoso e passa a ser alvo da mídia, em reportagens e análises sobre seu conhecimento de tudo e o quanto está influenciando as autoridades. Quando, na verdade, sempre responde aos questionamentos por metáforas associadas ao cultivo de plantas, sua única referência.

O jardineiro vira, inclusive, alguém investigado pelo FBI e pela CIA, além de opositores do governo, que nada encontram sobre ele, o que só aumenta o mistério em torno de sua figura. E, sempre sem contribuições que possam acrescentar às pautas estratégicas do país — mas analisadas como grandes reflexões —, ele sequer percebe o crescimento de tanto prestígio. Seu único desejo é ver tevê, momento em que tem, de fato, algum prazer superficial.

Quando terminei de assistir Muito Além do Jardim, e seu final surpreendente acrescentado pelo diretor, fiquei impressionado com a forma como o filme pode ser transportado aos dias atuais. Em 1979, a crítica era ao mundo que passava a dar voz e espaço a quem nada tinha a dizer e era tratado como verdadeiro oráculo. Exatamente o que nós, hoje, reproduzimos. A sociedade idolatra quem tem a mesma idade mental de Chance. A tevê usada no longa-metragem é o símbolo da falta de compromisso com a realidade, cheia de programas que apenas oferecem entretenimento. A palavra TikTok lhe diz algo?

Busquei algumas análises do filme antes de escrever esta coluna, e quase todas convergem para o mesmo caminho: a idiotização do pensamento é o mal da nossa era. Como declarou o romancista e teórico da literatura Umberto Eco, em 2015, “a internet deu voz a uma legião de imbecis”. E como declarou Chance (sem nada dizer) em uma das cenas épicas: “Há a primavera e o verão, mas também o outono e o inverno. E depois a primavera e o verão outra vez.”

E você: quantos videotas escuta todos os dias pelas redes sociais? Quantos ajuda a transformar em filósofos das telas?

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