O Instituto Nacional do Seguro Social identificou um novo produto financeiro ligado ao Banco Master que estaria sendo ofertado de forma irregular na área de crédito consignado para aposentados e pensionistas. Segundo a autarquia, há indícios de fraudes em contratos do chamado M Fácil Consignado, modalidade que até a semana passada não fazia parte das apurações internas conduzidas pelo órgão federal.
Indícios de irregularidades em contratos
De acordo com análises iniciais do INSS, alguns contratos apresentam inconsistências graves, como nomes duplicados em um mesmo documento, ausência de informações sobre juros cobrados e falta de assinaturas que permitam validar a autorização do beneficiário. As irregularidades levantaram suspeitas sobre a legalidade da oferta do produto a segurados da Previdência.
Produto seria semelhante ao Credcesta
O presidente do INSS, Gilberto Waller Júnior, afirmou que o M Fácil tem funcionamento semelhante ao Credcesta, um cartão de benefício consignado criado em 2018 pelo empresário Augusto Lima. O produto foi posteriormente levado ao Banco Master, onde Lima se tornou sócio de Daniel Vorcaro. Inicialmente voltado a servidores públicos estaduais e municipais, o Credcesta foi posteriormente expandido para aposentados e pensionistas do INSS. Segundo a avaliação do presidente da autarquia, trata-se de uma modalidade de crédito com operação considerada irregular e sem amparo legal, além de possibilitar a cobrança de juros compostos sobre os contratos firmados.
Cancelamento de contratos do Credcesta
Diante das incertezas sobre a forma de funcionamento e a migração de uma modalidade de crédito para outra sem clareza sobre taxas aplicadas, o INSS decidiu cancelar contratos ligados ao Credcesta. A medida foi tomada após avaliações internas indicarem falta de transparência nos termos utilizados nas operações.
Nova investigação sobre o M Fácil
Durante a análise individual de contratos, o órgão também detectou irregularidades no M Fácil, o que levou à abertura de uma investigação para apurar o alcance da operação entre clientes do Banco Master. A análise foi realizada em conjunto com a Controladoria-Geral da União e as informações já foram encaminhadas a outros órgãos de controle.
Segundo o INSS, os documentos examinados não permitem confirmar a autenticidade das assinaturas eletrônicas dos beneficiários. Além disso, não há detalhamento claro sobre taxas de juros ou valores das parcelas previstas nos contratos.
Casos podem ir para a esfera criminal
A autarquia informou que os indícios identificados podem levar o caso à esfera criminal. Para o INSS, as modalidades M Fácil Consignado e Credcesta não são reconhecidas formalmente como operações autorizadas dentro do sistema de crédito consignado. “Para o INSS, é como se esses produtos não existissem, porque a gente só autoriza o consignado mediante contrato específico do segurado com a instituição financeira”, afirmou Waller Júnior. Segundo ele, quando ocorre a migração de um tipo de crédito para consignado, surgem dificuldades para verificar eventuais irregularidades, inclusive pela impossibilidade de quebrar sigilo bancário ou conferir a aplicação de juros.
Defesa do banco e situação do Master
Em nota, a defesa de Daniel Vorcaro afirmou que o Banco Master sempre respeitou as normas estabelecidas pelo INSS para concessão de crédito consignado, incluindo procedimentos de identificação e comprovação de consentimento dos contratantes. Já o Banco Central do Brasil, responsável pelo processo de liquidação da instituição financeira, não respondeu aos questionamentos da reportagem.
Acordo com o governo foi encerrado
Entre setembro de 2020 e setembro de 2025, o Banco Master operou diversas linhas de crédito consignado do INSS por meio de um acordo de cooperação técnica com o governo federal. O convênio não foi renovado diante da crise enfrentada pelo banco e das suspeitas de irregularidades em operações envolvendo carteiras de crédito consignado. Na prática, a decisão resultou no descredenciamento da instituição para atuar nesse tipo de operação.
Mudança na divulgação do produto
Após as investigações, o M Fácil passou a ser apresentado no site da instituição como empréstimo pessoal, sem a utilização do termo “consignado”. Atualmente, o produto é divulgado com valores entre R$ 150 e R$ 1.500. Antes da mudança, o serviço incluía benefícios adicionais, como descontos em farmácias.
Histórico e investigação policial
Produtos semelhantes ao Credcesta passaram a ser permitidos para aposentados e pensionistas do INSS após a edição de uma medida provisória em 2022, durante o governo de Jair Bolsonaro. O Credcesta também teve contrato de exclusividade de 15 anos com o governo da Bahia durante a gestão de Rui Costa, hoje ministro da Casa Civil no governo de Luiz Inácio Lula da Silva.
O caso ganhou novos desdobramentos após operações da Polícia Federal que investigam suspeitas de fraudes envolvendo venda de carteiras de crédito ao Banco de Brasília. Em novembro, Daniel Vorcaro e Augusto Lima chegaram a ser presos durante a investigação. Vorcaro voltou a ser detido nesta semana em nova fase da Operação Compliance Zero, que apura a existência de um grupo supostamente envolvido em monitoramento e intimidação de adversários.
