Segundo a poeta norte-americana Edna St. Vincent Millay, “a infância é o reino onde ninguém morre”. Não se consegue colocar uma idade específica para o amadurecimento, mas, segundo esse poema, ele acontece quando se descobre a finitude da vida.
A maioria das pessoas não se recorda do momento exato dessa descoberta, mas eu lembro. Por crescer em uma família católica, quando eu questionava sobre isso, a resposta era sempre a mesma:
— Nós vamos para o céu, com todas as pessoas que nós amamos, e finalmente conhecemos o Papai do Céu.
Aquilo parecia ótimo. Quem não gostaria de passar a eternidade voando nas nuvens com todos de quem gostamos?
Até que um dia convidei a minha melhor amiga, também chamada Helena, para vir na minha casa. Essa Helena não tinha ouvido a mesma história que eu. Na dela, não havia nuvens, céu, quem dirá Papai do Céu. E ela me contou a sua versão: que, quando acabou, acabou. Quando foi contestada por mim, apenas respondeu:
— Tem essa possibilidade, mas a chance maior é de que não exista nada depois daqui.
Comida de minhoca. A fala me fez parar de sentir as pernas. Fiquei tonta e, desde então, não fui a mesma pessoa. A dúvida me fazia pensar como as pessoas conseguiam viver suas vidas sem ficar constantemente deprimidas, pensando que o fim pode ser literalmente o fim.
Perguntei ao meu pai que, pela primeira vez na vida, disse que era ateu:
— Ah, uma vida só está boa, não acha?
Obviamente, eu achava que não. Se não existe nada depois e eu só conheço o “tudo”, o que nos resta?
A vida seguiu, e eu seguia preocupada. O tempo foi passando, eu já não era mais criança e não conseguia acreditar na história do céu. Parecia que tinham me iludido com o Papai Noel ou o coelho da Páscoa. Com a vida acontecendo, a frequência dos meus pensamentos sobre a morte foi se espaçando cada vez mais. Até que comecei a olhar em volta e ver as “coincidências” da vida. Ver como eu era sortuda. Ver como uma perda era apenas um redirecionamento para algo melhor. Ver como existia beleza em tudo. E ver Deus — não em uma religião específica, mas em tudo: no perdão, no amor, nas famílias.
Desde então, eu vi com meus próprios olhos. Não porque nasci em um berço católico ou estudei em um colégio de freiras. Nem porque o nome do meio do meu pai é “Aparecido”, em homenagem à santa. Mas porque eu sentia.
Hoje, não sou mais criança e a morte é viva, mas já não me assusta. Nem com céu ou sem céu. Sou feliz demais nesta vida e hoje entendo meu pai, com sua satisfação com uma só — apesar de que eu viveria várias vezes a minha. Mas ainda acredito que, quando o fim chegar e nos encontrarmos em outra realidade, vou rir e dizer que ele terá que me aguentar por mais algumas.