A proposta de acabar com a escala 6×1 e reduzir a jornada máxima para 40 horas semanais, sem redução de salário, segue no centro do debate nacional. Enquanto o governo federal trata o tema como prioridade para 2026, o setor produtivo reage e fala em aumento de custos, risco de demissões e perda de competitividade.
Um levantamento divulgado pela Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul (Fiergs) mostra que a mudança traria percalços à economia gaúcha. Segundo a entidade, 67% dos trabalhadores formais no Rio Grande do Sul têm jornada entre 41 e 44 horas semanais. Na indústria, esse percentual chega a 91,7%.
O presidente da Fiergs, Claudio Bier, diz que a redução compulsória da jornada, sem corte proporcional de salários, aumenta automaticamente o custo da hora trabalhada. “Com o aumento do custo da mão de obra, haverá impacto na geração de renda, nas decisões de contratação e nos investimentos”, declarou.
A entidade também cita a baixa produtividade brasileira. Conforme o estudo, a produtividade do trabalhador brasileiro corresponde a cerca de 25% da norte-americana. Entre 1990 e 2024, o crescimento médio anual da produtividade no Brasil foi de 0,9%, abaixo de países como China (8%), Índia (5,1%) e Coreia do Sul (4,2%). Para a Fiergs, países que reduziram jornada de forma sustentável, fizeram isso após maiores ganhos em produtividade.
Prioridade do governo
O ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, Guilherme Boulos, reafirmou nesta semana que o fim da escala 6×1 é uma das principais prioridades do governo. “A proposta que nós estamos defendendo é o fim da escala 6×1, ou seja, no máximo, 5×2. No mínimo, o trabalhador ter dois dias de descanso por semana e reduzir a jornada máxima para 40 horas semanais sem redução de salário”, afirmou.
Boulos reconheceu a resistência empresarial, mas comparou o momento a outros avanços trabalhistas. “Eu nunca vi patrão defender aumento de direito do trabalhador. Ele sempre vai ser contra, sempre vai contar um monte de lorota dizendo que vai acabar [com a economia]. O fato é que tudo isso foi aprovado historicamente no Brasil e a economia não ruiu”, declarou.
Impacto no comércio de Pelotas
Em Pelotas, o presidente do Sindilojas, Renzo Antonioli, afirma que o impacto seria ainda mais intenso no varejo. “O comércio local não é diferente da indústria, o impacto vai ser severo e sendo que, no varejo, esse percentual que da indústria é de 90%, vai a 96%. É praticamente a 100% dos trabalhadores que fazem as 44 horas semanais”, disse.
Segundo ele, o momento é delicado. “Nós tivemos queda no varejo em dezembro e em janeiro, e estamos tendo queda nas vendas do varejo em fevereiro. Então, só para a manutenção do quadro atual já é um grande sacrifício”, afirmou.
Para ele, o efeito pode ser o oposto ao pretendido. “Acredito que as demissões vão aumentar.” Segundo o dirigente, pode haver substituição de funcionários com salários mais altos por novos contratados com remuneração menor. “Eu acredito que quem vai perder é o próprio trabalhador, o comércio e o consumidor.”
O lado de quem vive a 6×1
Do outro lado do debate está quem vive a rotina da escala 6×1 há anos. A comerciária Jodelie Goulart, 36, trabalha há 12 anos no setor e sempre cumpriu jornadas nesse modelo. “É cansativo. A gente precisa trabalhar e só tem um dia para resolver tudo, que geralmente é domingo, e domingo está tudo fechado”, relatou.
Ela conta que é comum perder aniversários e datas comemorativas, inclusive momentos tradicionais de convívio com a família. Além do trabalho, ela também estuda. “A gente acaba ficando com um psicológico ruim. Porque é muito cansativo, é muita coisa.”
Se a jornada passasse para 5×2, ela acredita que a mudança seria imediata na qualidade de vida. “Ia ser mais tranquilo para a gente fazer as coisas, descansar, ter o convívio com a família.” Ela também vê possibilidade de geração de empregos. “Eles podem contratar folguistas. Em Pelotas tem muito desemprego. Acredito que ia gerar mais empregos”, conclui.
