Fadiga de decisão: quando o cansaço começa a liderar

Opinião

Felipe Gonçalves

Felipe Gonçalves

Psicólogo

Fadiga de decisão: quando o cansaço começa a liderar

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Durante muito tempo, acreditei que o cansaço era parte do pacote. Agenda cheia, decisões em sequência e poucas pausas já foram motivo de orgulho. Com alguma distância, entendi o custo disso.

A fadiga de decisão não chega de forma abrupta, mas se instala aos poucos. Quanto mais cansado eu estava, mais simples ficava o meu raciocínio.. Eu evitava escolhas complexas, empurrava conversas difíceis e aceitava soluções rápidas só para encerrar o assunto. Na prática, deixava de decidir melhor para decidir mais rápido.

Isso é científico e mais comum do que você pensa: o cérebro, sob exaustão, passa a economizar energia. A urgência parece sempre maior do que a importância. O curto prazo ocupa todo o espaço e o pensamento estratégico, que tanto buscamos, se estreita.

Uma pesquisa de 2025 mostrou que 58% dos executivos relatam exaustão estratégica, com impacto direto na visão de longo prazo e na qualidade das decisões. Quando li esse dado, ele fez sentido imediato. Eu já tinha vivido isso antes mesmo de saber que tinha nome.

Líder cansado decide mal. Isso não é uma crítica pessoal, mas sim uma constatação sobre como a dinâmica humana opera. Liderar exige decisões contínuas, muitas delas ambíguas, impopulares ou complexas e, quando estamos cansados, começamos a evitar o que dará trabalho e endurecer nossa escuta.

Não confunda esse estado com comprometimento. Descansar não precisa significar ritmo, nem parar sinal de fraqueza. Hoje, vejo quantas decisões melhores eu poderia ter tomado se tivesse criado mais espaço para pensar. Hoje, esse espaço é prioridade pois é nele que crio minha visão de longo prazo.

Por isso, cuidar da própria energia não é luxo nem pauta paralela. É responsabilidade de quem precisa tomar decisões. Quando não criamos espaço para refletir, terceirizamos nossas decisões para o cansaço, para o impulso e para a pressa.

A pergunta que aprendi a fazer não é quantas decisões consigo tomar por dia, mas em que estado estou quando decido. Porque liderar, no fim, não é suportar mais. É decidir melhor, de forma consistente, ao longo do tempo.

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