Na rotina de entrevistas da Rádio Pelotense com os pré-candidatos ao governo do Estado, o microfone da vez foi para Marcelo Maranata, prefeito de Guaíba e nome do PSDB para 2026. Um trecho da conversa ficou martelando depois, porque não era promessa de obra específica nem frase de efeito. Ele falou em criar uma secretaria regional dedicada a políticas públicas para a Zona Sul, com prioridade permanente dentro do Executivo.
O argumento dele parte de um diagnóstico conhecido. Uma parte grande dos municípios da região convive com indicadores sociais e econômicos mais frágeis, portanto depende mais de decisão política e continuidade para destravar investimento, serviço e infraestrutura. O ponto que chama atenção não é só a “ideia de ajudar”, é o desenho institucional.
Hoje, a lógica mais comum funciona de baixo para cima. A região se organiza, constrói pauta e tenta abrir portas em Porto Alegre e, quando dá, também em Brasília. A Azonasul cumpre esse papel de articulação municipal, juntando prefeitos e agendas regionais para pressionar por obras e projetos. Os Coredes, por sua vez, existem desde os anos 1990 por lei estadual e ajudam a estruturar debate e prioridades, mas não são um braço de execução com orçamento próprio para entregar política pública.
A proposta de uma secretaria regional inverte esse fluxo. Se a prioridade estiver dentro do governo, o movimento sai do Palácio Piratini e desce para o território. Isso muda a forma de cobrança, porque cria um centro de decisão que, em tese, pode organizar a carteira de projetos, montar metas, estabelecer prazos e disputar orçamento dentro do próprio Executivo, em vez de depender apenas de demanda regional batendo à porta.
Esse detalhe conversa com a realidade política da Zona Sul. A região costuma ficar muito amarrada à força de deputados estaduais e federais locais, porque a engrenagem do dia a dia vira emenda. Essa representatividade segue sendo importante, porque dela saem votações, fiscalização e costura política. O problema aparece quando o básico vira exceção, porque o planejamento estadual não “puxa” a região como prioridade contínua.
O PSDB chega a essa entrevista tentando se reposicionar. Eduardo Leite saiu do partido e foi para o PSD em maio de 2025. No fim de 2025, Paula Mascarenhas deixou o PSDB, depois de ter sido apresentada como pré-candidata. Maranata, por sua vez, trocou o PDT pelo PSDB em 1º de setembro de 2025, num movimento que já sinalizava a construção do seu nome para 2026.
Obviamente, a ideia da secretaria regional só vai virar notícia completa se vier com a estrutura e metas. Sem isso, ela vira mais uma boa intenção. Com isso, ela vira um instrumento que pode mexer na relação histórica da Zona Sul com Porto Alegre, porque cria um caminho mais direto entre prioridade e entrega.
Dino fecha a porta do parentesco
O ministro Flávio Dino, do STF, proibiu a destinação de emendas parlamentares para entidades do terceiro setor, como ONGs, quando elas forem administradas por cônjuge, companheiro ou parente até o terceiro grau do congressista que indicou o recurso, ou de assessor ligado a esse parlamentar. A vedação também vale para casos em que a ONG funcione como ponte e, depois, contrate ou subcontrate empresas e pessoas na mesma condição, fazendo o dinheiro público chegar a familiares e círculos de gabinete por outro caminho. Na decisão, Dino cita reportagens que apontam um crescimento acelerado desse tipo de repasse. Segundo o material mencionado, as emendas para ONGs teriam saltado dez vezes desde 2019 e atingido o recorde de R$ 1,7 bilhão em 2025. Desde 2023, entidades privadas já receberam R$ 3,5 bilhões em emendas, um volume 410% acima dos R$ 729,4 milhões destinados durante toda a legislatura anterior, de 2019 a 2022. O mesmo levantamento coloca as ONGs como o terceiro principal destino das verbas controladas por congressistas, atrás apenas de prefeituras e fundos municipais de saúde. O ponto central da medida é impedir que a indicação orçamentária vire benefício privado. Dino escreve que há indícios graves de malversação, com dinheiro público destinado à satisfação de interesses particulares, o que equivale, na visão dele, a uma apropriação do Orçamento em desvio dos critérios impessoais que deveriam orientar a administração. Por isso, a decisão trata o parentesco e o vínculo de assessor como um sinal de risco suficiente para bloquear o repasse e também para bloquear o caminho indireto via contratação e subcontratação. De um lado, está o crescimento do uso de ONGs como destino preferencial de emendas, com volume que já supera o repasse a governos estaduais e ao Distrito Federal, conforme os números citados.
Safra formal
A Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), liderada pelo deputado Afonso Hamm (PP), voltou a divulgar o chamado “PL dos Safristas” (PL 715/2023) como uma tentativa de destravar um nó antigo do trabalho temporário no campo: muita gente evita assinar contrato curto porque teme perder benefícios sociais quando a renda do mês sobe. O texto faz duas mudanças centrais. A primeira é excluir a remuneração do contrato de safra do cálculo da renda familiar mensal usado para acesso e manutenção de benefícios, citando o Bolsa Família como exemplo. A segunda é obrigar o registro de informações do contrato no eSocial, para dar rastreabilidade e permitir conferência pelo poder público. Na tramitação, o projeto foi aprovado pela Câmara em 2024 e avançou no Senado em dezembro de 2025 com um substitutivo, o que explica a frase “aprovado no Congresso” usada em posts e materiais de divulgação. Como houve mudança de texto, a proposta voltou para a Câmara, que precisa decidir se confirma essa versão para então seguir para a etapa final.