Oposição faz cálculos para tentar Impeachment

Opinião

Pedro Petrucci

Pedro Petrucci

Jornalista

Oposição faz cálculos para tentar Impeachment

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O discurso de impeachment contra o governo municipal não surgiu por acaso nem de forma descolada da dinâmica política da Câmara. Ele começa a ganhar corpo no momento em que a relação entre oposição e governo se tenciona nos bastidores, especialmente em disputas por cargos e protagonismo. Esse tipo de conflito raramente aparece de forma explícita no plenário, mas costuma se revelar quando surge uma brecha institucional capaz de ser explorada politicamente. No caso recente, essa brecha foi aberta pela controvérsia em torno das emendas parlamentares e da discussão sobre o que foi pago, empenhado ou apenas anunciado.

O debate técnico sobre emendas rapidamente virou combustível político. A oposição passou a trabalhar a narrativa de fragilidade administrativa e de desorganização do governo, ainda que os ritos orçamentários sejam conhecidos e complexos. Mais do que o mérito da discussão, o ponto central é o desenho que ela permite. Pela legislação nacional que trata dos crimes de responsabilidade de prefeitos, reproduzida na Lei Orgânica do Município, um processo de impeachment só avança com o voto favorável de dois terços dos vereadores. A regra existe justamente para impedir que uma medida extrema seja tomada por maioria simples ou por um impulso circunstancial.

A conta, portanto, é objetiva. Com 21 vereadores em exercício, são necessários 14 votos para que um impeachment prospere. É esse número que organiza toda a estratégia da oposição neste momento. Nos bastidores, o mapeamento já está feito. Os 13 vereadores que votaram a favor da suspensão da vereadora Fernanda Miranda são tratados como um bloco praticamente fechado para um eventual processo de impeachment. Falta apenas um voto para atingir o quórum exigido em lei.

É nesse ponto que entra o cálculo político em torno da possível suspensão de Fernanda e da consequente convocação do suplente. Com o afastamento temporário por 60 dias, caso o processo se confirme, a vaga passa a ser ocupada por Júlio Moura, do Rede Sustentabilidade. Embora a Rede integre a mesma federação do PSOL, o alinhamento político concreto do suplente não acompanha essa lógica. Suas manifestações públicas, especialmente nas redes sociais, indicam maior proximidade com o campo oposicionista.

Por isso, dentro da leitura estratégica da oposição, Moura aparece como a possível peça que falta para chegar ao 14º voto. A suspensão de Fernanda deixa de ser apenas um processo disciplinar isolado e passa a se conectar a um movimento mais amplo. A troca temporária de uma cadeira altera a correlação de forças e pode retirar do governo um voto decisivo em votações futuras de alto impacto.

Nada disso significa que um impeachment esteja pronto ou inevitável. Mas o desenho existe, é conhecido nos corredores da Câmara e está sendo testado passo a passo. Uma decisão que, à primeira vista, parece restrita a uma vereadora pode ter efeitos diretos sobre a estabilidade do governo nos próximos meses.

Caneta orçamentária

Ao vetar cerca de R$ 400 milhões em emendas e reorganizar o Orçamento de 2026, o presidente Lula tratou a peça orçamentária como decisão política central do governo. A reação ao Congresso estabelece o limite de que o Executivo quer manter capacidade de escolha sobre onde o dinheiro público será aplicado ao longo do ano, especialmente em um calendário que combina execução administrativa e pressão eleitoral.

Esse movimento protege os programas sociais, que seguem como base do governo federal. O orçamento aprovado pelo Congresso reduziu margens dessas políticas durante a tramitação, e o veto funciona como tentativa de evitar que ajustes no papel se transformem em paralisações na prática. Sem previsibilidade financeira, políticas continuadas perdem escala, e isso afeta diretamente a sustentação política do próprio governo.

A tensão aparece na educação superior. As universidades federais convivem com cortes sucessivos no custeio, tema recorrente nas entrevistas feitas pelo Grupo A Hora, e o Orçamento mantém esse aperto. Instituições como a UFPel, Furg e IF Sul acompanham com atenção a agenda da próxima semana. Lula estará em Rio Grande, e o deputado Alexandre Lindenmeyer afirmou na Rádio Pelotense que o ministro Camilo Santana deve passar por Pelotas, Rio Grande e Santa Maria para tratar do orçamento. A esperança é que a decisão presidencial não se limite aos programas sociais e inclua uma recomposição mínima para as federais, porque nelas o ajuste aparece no funcionamento diário e na permanência dos estudantes.

Bastidores 2026

A sinalização de apoio de Tarcísio de Freitas (Republicanos) a Flávio Bolsonaro (PL) precisa ser lida com mais camadas no contexto da corrida presidencial que começa a ganhar forma. Tarcísio governa São Paulo, o maior colégio eleitoral do país, e tem a reeleição estadual como opção concreta em 2026. Antes de Jair Bolsonaro anunciar o apoio do filho Flávio, o nome do próprio Tarcísio chegou a ser ensaiado, ainda que de forma discreta, como alternativa no campo conservador. Nesse contexto, o discurso de “apoio total na hora certa” funciona tanto como gesto de lealdade quanto como cálculo de timing: preservar espaço político e evitar se antecipar em uma estratégia ainda em montagem. A última pesquisa Genial/Quaest mostra que o presidente Lula lidera todos os cenários de primeiro e segundo turno em 2026, com vantagem sobre Flávio e sobre Tarcísio.

Este último aparece em terceira posição no primeiro turno e mais próximo no segundo, mas ainda atrás de Lula nas simulações mais recentes. Portanto, apoiar Flávio sem se queimar antes pode preservar capital para o governador de SP, tanto na disputa federal quanto na sua opção estadual.

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