Quando o Grupo A Hora teve acesso à planilha das emendas pagas e empenhadas até 31 de dezembro de 2025 e cruzou esse material com a lista completa das emendas indicadas, uma coisa ficou clara logo de saída. Não foi a escolha das prioridades que gerou a crise. Foi a forma como essas escolhas foram feitas e, principalmente, como elas deixaram de ser comunicadas.
Os dados mostram que a prefeitura concentrou os maiores valores naquilo que, objetivamente, precisa ser prioridade em qualquer cidade: a Saúde. Hospitais e instituições da rede aparecem no topo da lista de emendas pagas e empenhadas. Ao mesmo tempo, quando se olha para as emendas que ficaram de fora e não serão executadas, surgem exemplos bem concretos do que perdeu espaço nesse cenário de restrição: reforma de churrasqueira, custeio de festa, eventos pontuais. Em um pacote encolhido por decisão judicial, essas indicações ficaram para trás.
O problema não está nessa hierarquização. O problema está no caminho até ela. As emendas foram indicadas em 2024 para execução em 2025. Isso significa que, ao longo do ano passado, muitas expectativas já estavam criadas, inclusive junto a entidades que dependem desse recurso para funcionar. Quando decisões judiciais na reta final do ano reduziram o teto das emendas e eliminaram as de bancada, o espaço real de execução encolheu quase pela metade. A Prefeitura precisou escolher. E escolheu rápido, sob pressão e com pouco tempo para conversar.
A planilha deixa claro que não houve filtro ideológico. Entre as emendas pagas e entre as que ficaram de fora há autores de diferentes partidos, vereadores da situação, da oposição e até ex-vereadores, já que muitos dos autores das indicações de 2024 não estavam mais no mandato em 2025 ou ocupavam outros cargos. Também não houve concentração absoluta em uma única secretaria. A Saúde domina os valores, mas outras áreas receberam recursos, como cultura, assistência social e meio ambiente.
Ainda assim, o processo foi conduzido de forma atabalhoada no momento mais sensível. Faltou diálogo com vereadores e, sobretudo, com as entidades que seriam diretamente afetadas pelo corte. Faltou avisar antes. Faltou dizer quem ficaria de fora, por quê e com base em qual critério. Esse vazio de informação abriu espaço para ruído, desconfiança e escalada política.
Esse cenário foi agravado pelo contexto político do fim do ano. A eleição da nova Mesa Diretora da Câmara de Vereadores, vencida pela oposição, criou um ambiente de tensão adicional. Enquanto a Prefeitura tentava fechar processos, lidar com decisões judiciais e ajustar o orçamento, precisou também operar nos bastidores para recompor diálogo com um Legislativo que saía da disputa interna mais fortalecido e mais disposto ao confronto. Tudo isso atravancou ainda mais a comunicação.
O resultado foi uma crise que cresceu mais pelo silêncio do que pelos números. Discursos sobre improbidade, ameaças de impeachment e pressão pública ganharam espaço porque não havia uma explicação organizada circulando. Quando a Câmara passou a pressionar com mais força, a prefeitura foi obrigada a reagir e tornar público aquilo que poderia ter sido apresentado de forma preventiva.
É verdade que as emendas representam hoje algo em torno de 1,5% do orçamento municipal. Dentro de uma estrutura orçamentária gigantesca, isso é pouco. Mas é justamente essa fatia que pertence diretamente aos 21 vereadores. É o espaço concreto de poder deles. Por isso a reação é mais ruidosa, mais emocional e mais política.
A tendência é que essa crise diminua quando a prefeitura responder formalmente ao Pedido de Informações apresentado pelo vereador Cesinha (PSB). Se vier uma lista clara do que foi pago, do que ficou empenhado para pagamento futuro e do que foi cortado, com critério explicado, o debate pode perder temperatura.
Blindagem
A Câmara de Vereadores de Pelotas volta a fazer sessão extraordinária em pleno recesso, na manhã desta terça-feira, para discutir o afastamento da vereadora Fernanda Miranda (PSOL). É mais uma reunião fora do calendário normal e, desta vez, por um motivo que, para muita gente, parecia ter fechado em 2025.
No dia 31 de dezembro, o plenário deliberou sobre o encaminhamento da Comissão de Ética e Decoro Parlamentar. Era o tipo de etapa que, vista de fora, soa como ponto final. Só que, dias depois, Fernanda ainda não está suspensa. O assunto voltou à pauta porque a Câmara decidiu refazer o caminho pelo formato mais seguro do ponto de vista formal.
Agora, o afastamento passa por Projeto de Resolução. Isso exige um rito mais completo. O plenário discute e encaminha. A matéria segue para a Comissão de Constituição e Justiça, que emite parecer. Se avançar, retorna ao plenário para votação. É um roteiro mais lento, mas mais difícil de ser derrubado por questionamento de procedimento.
Nos bastidores, vereadores admitem que a judicialização é provável, seja qual for o resultado final. A preocupação não é só com a disputa política. É com efeito institucional. Um processo mal amarrado pode virar liminar, pode anular a decisão e pode obrigar a Câmara a recomeçar do zero, deixando a Casa exposta.
Por isso, a sessão desta terça não é apenas sobre afastar ou não afastar. Ela é sobre como a Câmara quer sustentar sua decisão quando o caso for parar no Judiciário. Em episódios assim, o que separa uma punição que fica de pé de uma punição que cai quase nunca é o discurso. É o caminho que o plenário escolhe cumprir.