Quadros horripilantes: ninfomania e safismo  em obra publicada por um pelotense no ano de 1883?

Opinião

Luís Rubira

Luís Rubira

Professor de Filosofia

Quadros horripilantes: ninfomania e safismo em obra publicada por um pelotense no ano de 1883?

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No breve prefácio que escreve para sua obra Quadros Horripilantes, Francisco de Paula Pires observa que a “escola naturalista, como a compreendeu e a tem propagado Émile Zola – o grande mestre – é a fotografia da sociedade, espelho onde se imprime a vida e os fatos”. Em seguida, vale-se das palavras de um anônimo escritor para mostrar como procedem os romancistas que se filiam a esta escola: “O romancista naturalista (…) mergulha a pena no seio da miséria e da desgraça e arranca dali quadros esplêndidos”. Por fim, é bastante claro em relação às “narrativas” que escreveu e que submete à apreciação pública: “Seguindo a norma traçada pelo grande mestre, só tratei nesta obra de narrar fatos da vida real”.

Diretor da Bibliotheca Pública Pelotense desde junho de 1876, Francisco de Paula Pires conhecia as obras e ideias de Émile Zola, o qual em seu livro O Romance Experimental havia explicitado que o método utilizado na elaboração de seus escritos consistia no “estudo do homem natural, submetido às leis físico-químicas e determinado pelas influências do meio” (Paris, 1880, p. 22). Nas prateleiras da Bibliotheca Pública Pelotense ou em bibliotecas de seus amigos, é provável que ele tivesse consultado algum exemplar das centenas de estudos “científicos” sobre a ninfomania, classificada à época como “furor uterino” (tais estudos constam, por exemplo, no Index-Catalogue, volume 9, Medicina popular, Washington, 1888, p. 1051-1052).

Num texto italiano de 1882, intitulado O grande mal e o grande remédio. Tratado completo das doenças que afligem o gênero humano, podemos constatar, com grande desconforto, como a abordagem “científica” da época estava eivada de um moralismo machista: “Ninfomania – Quando as duas grandes neuroses que estudamos, histeria e epilepsia, culminam em demência e loucura em mulheres, muitas vezes dão origem a uma violenta e mórbida excitação do instinto carnal. No entanto, a ninfomania nem sempre é precedida por fenômenos histéricos, pois às vezes aparece primeiro em mulheres nervosas, ardentes e exaltadas, ou mesmo, o que é mais doloroso, em meninas inocentes. As ninfomaníacas (…) se entregam com um frenesi aterrador (…), mas geralmente, após alguns desses paroxismos horríveis, as forças prostradas não despertam mais, e suores frios, contrações e soluços convulsivos logo anunciam a morte iminente” (Rengade, Milano, p. 543-544).

Pois bem, em sua obra Quadros Horripilantes (Pelotas: Livraria Americana, 1883), Francisco de Paula Pires busca narrar as desventuras de “duas irmãs” (este é o título geral das narrativas, divididas em duas partes: 1ª Parte: Amélia; 2ª Parte: Adelina). Logo nas páginas iniciais da primeira parte, ele faz surgir Amélia e sua mãe, Felisarda. Nesta primeira parte ficamos sabendo que “Amélia não era filha única, sua família compunha-se de – pai, mãe, três irmãs e dois irmãos. Das irmãs duas eram moças: uma de 30 e outra de 15 anos”, e entre seus irmãos um vivia “com a messalina Violante e outro tocava clarineta em uma banda musical”. A mãe de Amélia, Felisarda, “sofria de ninfomania e não era difícil vê-la cair em lirismos impetuosos, quando conversava com os namorados das filhas. Sempre que o sol descambava para o ocaso, a Sra. Felisarda, abandonando o lar, ia visitar a sua comadre Rita”, lugar onde “dava arras ao seu instinto, e mitigava os ardores da sua enfermidade” (p. 23).

Seguindo os passos de seu mestre Émile Zola (que até 1882 havia publicado dez volumes da obra Os Rougon-Macquart. História natural e social de uma família sob o segundo império), Francisco de Paula Pires buscará mostrar que as desventuras sociais das duas irmãs estão imbricadas em sua constituição familiar. Com base naquele pressuposto (preconceituoso) de época acerca da ninfomania como “enfermidade”, ele registra que Felisberta, cuja filha mais velha já era casada e estava enferma (p. 13), concentrou-se em buscar casamentos para as duas filhas mais jovens, Amélia e Adelina. Nesta época a família gozava de uma estabilidade financeira, pois o esposo de Felisberta, Aleixo, era um “homem honrado, honesto e trabalhador que, devido às suas economias, acumulara regular fortuna” (p. 14). Amélia, dotada de “uma compleição ardente e voluptuosa” (p. 35), tinha diversos pretendentes. No desenrolar de vários acontecimentos, Felisberta arma uma situação para casar Amélia com um pintor de nome Donati. As cenas que levam ao casamento de Amélia, no entanto, abalaram Aleixo que, sofrendo já de reumatismo, “sentiu que se agravavam os seus padecimentos e nunca mais pôde deixar o leito” (p. 39). Tendo emprestado sua fortuna para um compadre, Aleixo depois vem a saber que o mesmo entrou em falência e, vendo que suas economias acumuladas ao longo dos anos jamais seriam restituídas, ele entra “num abatimento profundo”, que o levará à morte. Começava então o declínio financeiro da família.
(Continua em artigo do próximo final de semana, no qual abordarei também uma recente reedição da obra Quadros Horripilantes, organizada por Jandiro Koch).

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