O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) aprovou a execução do Projeto de Pesquisa Arqueológica no Passo dos Negros (PROPasso), estudo que irá investigar mais de dois mil anos de ocupação humana no território, às margens do Arroio Pelotas e canal São Gonçalo. Coordenado pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel), com apoio do Escritório Técnico da Fronteira Sul do Iphan-RS, a pesquisa integra arqueologia, antropologia, arquitetura, geografia, ecologia e saberes populares, e está prevista para durar 16 meses.
O Passo dos Negros reúne vestígios pré-coloniais, coloniais e industriais sobrepostas, caracterizando-se como sítio multicomponencial (locais ocupados por mais de uma vez, por grupos e em períodos diferentes). Pesquisas anteriores já identificaram fragmentos líticos de quartzo associados a grupos construtores de cerritos, com datações de cerca de mil anos atrás.
Com o novo projeto, a equipe vai atuar na área compreendida entre o Arroio Pelotas (ao leste do município), o Canal São Gonçalo (ao sul) e as zonas de ocupação urbana (ao oeste). O objetivo do estudo é identificar e cadastrar os sítios arqueológicos existentes no local, com expectativa de reconhecimento de vestígios associados a ocupações Guarani, à atividade charqueadora e à presença da comunidade negra, tanto no período de escravização quanto após a abolição.

Os moradores do Passo dos Negros terão papel ativo na pesquisa (Foto: Jô Folha)
Memória viva
O cadastro reforça a importância desses locais como espaços da memória viva do povo pelotense e os reconhece enquanto patrimônio arqueológico, de modo que os locais passam a ser fiscalizados e acompanhados pelo Iphan, em atenção à proteção conferida pela Constituição Federal Brasileira de 1988 e pela Lei nº. 3924/1961.
“Esse estudo é fundamental para revelar camadas da nossa história que muitas vezes não estão registradas nos documentos oficiais. O Passo dos Negros é um território profundamente vinculado à presença e à resistência da população negra na formação da cidade. A arqueologia nos permite acessar vestígios materiais dessa trajetória — modos de vida, trabalho e organização social —, contribuindo para o reconhecimento, a valorização e a preservação desse patrimônio. Mais do que olhar para o passado, é um instrumento de reparação histórica e de fortalecimento de identidade cultural local”, diz Gilmar Pinheiro, chefe do Escritório Técnico da Fronteira Sul.
O projeto de pesquisa e sua equipe
A pesquisa teve início oficial em 16 de março, com a etapa de campo. A equipe técnico-científica responsável é coordenada pelo arqueólogo Cláudio Baptista Carle, professor do Departamento de Arqueologia da UFPel, e conta com pesquisadores das áreas de arqueologia e antropologia, além de representantes da Organização Não-Governamental (ONG) Cuidando de Nós, ligada à própria comunidade do Passo dos Negros. Estudantes de graduação e pós-graduação da UFPel também integram o grupo.
Um dos aspectos centrais do projeto é a participação direta dos moradores. A população do Passo dos Negros atua como “comunidade pesquisadora”, envolvida nas atividades de campo e laboratório.
A pesquisa se soma ao trabalho já desenvolvido pelo Mapeamento Arqueológico e Cultural dos objetos, lugares, manifestações e pessoas de referência às sociedades tradicionais indígenas e afro-brasileiras na região Sul do Estado do Rio Grande do Sul (Macriasul), que estuda a região desde 2022. A investigação é voltada para a história da ocupação na fronteira entre o Brasil e o Uruguai, e gerou a base científica (textos, imagens e dados) que fundamenta as novas pesquisas.
