Um novo capítulo no mundo das apostas promete movimentar o Brasil nos próximos meses. Se a questão das bets esportivas ainda gera discussões nas amplas frentes, que passam pela saúde mental, economia e até idoneidade das competições, o mercado de previsão de eventos tem avançado mundo afora e chega ao país. E aí o usuário pode palpitar em quase tudo, inclusive na vida humana: é possível precificar, por exemplo, mortes de autoridades durante a guerra do Irã, ou até mesmo comprar um contrato que prevê a volta de Jesus Cristo até 2027.
Há um potencial de movimentar de R$ 20 bilhões a R$ 40 bilhões por ano neste mercado no país, segundo estimativa de analistas do Itaú BBA. Mas, como tudo o que envolve apostas, a implicação ética salta aos olhos. Há, claro, a jogatina “de leve”, como em quem ganhará um reality show ou em se uma banda fará turnê ou não. Mas também tem questões sociais, econômicas e políticas que podem ser afetadas e até manipuladas a bel prazer dos envolvidos. E aí, como fica?
Por exemplo, um apostador ganhou meio milhão de dólares com aposta feita em uma possível captura de Nicolás Maduro. É possível também palpitar se alguma autoridade será morta até tal dia ou mesmo o comportamento do mercado financeiro, de commodities ou política. E aí tudo grita: pessoas com informações privilegiadas podem se beneficiar. O lucro milionário pode nortear, por exemplo, uma operação militar ou um decreto. Ninguém mais garante a lisura dos processos quando é possível ganhar tanto dinheiro diretamente com a manipulação.
Quando se fala em mercados tão pujantes como o das apostas, há o temor em intervir e em travar o fluxo do dinheiro, mas passou da hora de serem tomadas decisões realmente duras para restringir seu funcionamento, incluindo a publicidade feita sobre eles. Se o mercado de previsões começar a ganhar corpo também aqui, diante de sistemas sabidamente tão corruptos, poderemos estar a mercê dos mais variados absurdos e gerar efeitos que prejudicam incontáveis pessoas e a própria economia e democracia.
