Pesquisa busca desenvolver cannabis adaptada e pode baratear medicamentos

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Pesquisa busca desenvolver cannabis adaptada e pode baratear medicamentos

Projeto é inédito e busca criar cadeia produtiva no Brasil

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Pesquisa busca desenvolver cannabis adaptada e pode baratear medicamentos
Iniciativa será conduzida pelos laboratórios de Pelotas (Foto: Divulgação)

A Embrapa avança na estruturação de um projeto inédito no país para o cultivo e estudo da cannabis, com foco no desenvolvimento de uma cadeia produtiva nacional. A iniciativa, que será conduzida pela unidade Clima Temperado, em Pelotas, aposta na ciência como base para reduzir a dependência externa e ampliar o acesso a produtos medicinais.

De acordo com a bióloga e pesquisadora da Embrapa, Beatriz Marti Emygdio, o projeto foi estruturado em quatro grandes eixos: melhoramento genético, práticas de manejo, pós-colheita e inteligência estratégica voltada a políticas públicas e socioeconomia.

No campo genético, a proposta é criar cultivares adaptadas às diferentes condições brasileiras. Hoje, todo o cultivo de cannabis no país depende de sementes e mudas importadas, o que limita a autonomia produtiva. “É fundamental desenvolver materiais genéticos adaptados às nossas condições edafoclimáticas para viabilizar uma cadeia produtiva nacional”, explica a pesquisadora.

Além do uso medicinal, os estudos também incluem aplicações industriais, como produção de fibras e sementes. A planta possui potencial para diversos setores, o que amplia o alcance econômico da pesquisa.

Outro eixo importante envolve o manejo agronômico e fitossanitário. A cannabis pode ser cultivada em diferentes sistemas, desde áreas abertas até ambientes totalmente controlados, e cada modelo exige estratégias específicas. A definição dessas práticas é considerada essencial para garantir produtividade e qualidade.

A etapa de pós-colheita também será estratégica. Os estudos vão abranger desde técnicas de colheita e secagem até processos de extração e transformação dos compostos da planta. Os produtos podem ser utilizados não apenas na área farmacêutica, mas também nas indústrias cosmética, alimentícia e de suplementos.

Aproveitamento integral da planta

Objetivo é fortalecer o uso medicinal (Foto: Divulgação)

Um diferencial do projeto é o aproveitamento integral da planta. Embora o uso medicinal se concentre nas flores, o restante da biomassa, as folhas, caules e raízes, pode ser utilizado como matéria-prima para diversos produtos. Entre as possibilidades estão fibras industriais, papel, materiais para construção civil e até bioinsumos agrícolas. “Existe um potencial muito grande de aproveitamento desses coprodutos, o que pode fortalecer uma bioeconomia integrada”, destaca.

O projeto também inclui um eixo voltado à análise econômica, políticas públicas e zoneamento edafoclimático. A ideia é mapear as regiões mais aptas ao cultivo no Brasil e gerar dados que auxiliem na formulação de políticas e no aprimoramento da regulamentação.

Flexibilização da produção nacional

Atualmente, o país vive um cenário de forte dependência externa. Apesar de o uso medicinal da cannabis ser regulamentado desde 2015, o cultivo ainda não era permitido em larga escala, o que obrigava pacientes a recorrer à importação ou a produtos feitos com insumos estrangeiros. Hoje, cerca de 900 mil brasileiros utilizam cannabis medicinal de forma regular.

Com as novas resoluções da Anvisa, publicadas no início de 2026, a produção nacional passa a ser possível, abrindo espaço para o desenvolvimento dessa cadeia produtiva no país. Por se tratar de uma cultura de controle especial, o cultivo exige monitoramento rigoroso, controle de acesso às áreas, rastreabilidade completa dos materiais e transporte autorizado. Essas exigências aumentam os custos e a complexidade das pesquisas.

Expectativa é de diminuição de custos

Outro ponto sensível é a regulamentação do teor de THC, substância com potencial psicoativo. Atualmente, o limite permitido no Brasil é de até 0,3%, abaixo do adotado por países vizinhos, que chegam a 1%. A geração de dados científicos pode contribuir para futuras revisões dessas regras.

Mesmo com os obstáculos, a expectativa é de impacto direto no acesso aos tratamentos. “O principal resultado esperado é a redução de custos dos produtos à base de cannabis”, afirma a pesquisadora.

O projeto foi aprovado pela Finep no fim de 2025 e teve contrato assinado em fevereiro deste ano. Neste momento, a equipe trabalha na estruturação dos laboratórios e áreas de cultivo, na definição dos materiais genéticos iniciais e na implementação dos sistemas de controle e rastreabilidade exigidos pelos órgãos reguladores. O início efetivo das pesquisas depende agora da liberação dos recursos.

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