O termo é relativamente novo, mas já preocupa autoridades de segurança pública. O chamado “sequestro de celular” tem aparecido com frequência em registros policiais em Pelotas. Somente no último feriadão de Páscoa, três ocorrências com características semelhantes foram registradas. O golpe consiste em assumir o controle do aparelho da vítima para realizar transferências e outras operações financeiras.
Entre os casos registrados, um homem relatou à polícia que contratou uma acompanhante na via pública. Durante o encontro, a mulher pediu o celular da vítima sob o pretexto de compartilhar internet para colocar música. Após a saída dela, o homem percebeu que havia sido realizada uma transferência via Pix de R$ 400,00 de sua conta para uma conta em nome de Douglas de Andrade Paz.
Em outra ocorrência, uma pessoa relatou ter caído em um golpe após se candidatar a uma vaga de motorista executivo anunciada pelo WhatsApp. Depois de participar de uma entrevista presencial com uma suposta recrutadora, recebeu um link para preenchimento de cadastro. Após acessar o conteúdo pelo celular e fornecer dados, foi identificada uma cobrança de R$ 1.070,00 em cartão online no Banco Santander, além de uma transferência via Pix de R$ 100,00, posteriormente estornada. A vítima suspeita que o link tenha permitido o acesso indevido ao aparelho e aos seus dados.
Já em um terceiro registro, uma vítima relatou ter recebido mensagem pelo WhatsApp informando sobre um suposto débito com uma provedora de internet. Ao procurar atendimento, entrou em contato com falsos atendentes, que solicitaram a instalação de um aplicativo e iniciaram uma chamada de vídeo. Após algum tempo, a vítima percebeu que havia perdido o controle do celular. Foi realizada uma transferência via Pix de R$ 3.533,68, além de outra tentativa de transação que acabou bloqueada pelo banco.
Para o titular da 1ª Delegacia de Polícia, delegado Félix Rafanhim, esse tipo de crime é mais sofisticado do que outros golpes digitais. “É mais elaborado. Usa muita engenharia social e quem aplica o golpe conhece bem os caminhos”, afirma. Também conhecido como golpe da “mão fantasma”, o esquema ocorre quando criminosos utilizam ferramentas de acesso remoto, muitas vezes legítimas, para assumir o controle do aparelho. Geralmente eles entram em contato se passando por funcionários de bancos ou de centrais de segurança para conquistar a confiança da vítima.
Fique atento
Segundo o professor de Cibersegurança do UniSenac, Wagner Loch, a maioria desses golpes depende da manipulação psicológica das vítimas. “Não existe um aplicativo no celular que permita que alguém acesse o aparelho remotamente sem que a pessoa faça alguma ação. O golpista sempre precisa induzir a vítima a instalar um aplicativo ou clicar em um link”, explica.
De acordo com ele, o contato pode ocorrer tanto por ligação telefônica quanto por aplicativos de mensagens. Em muitos casos, o criminoso pede o compartilhamento da tela do celular. “A partir daí ele consegue ver tudo o que aparece no aparelho da vítima e vai orientando passo a passo. No fim das contas, quem realiza a operação é a própria pessoa, seguindo as instruções do golpista”, diz.
Esse método faz parte do que especialistas chamam de engenharia social, técnica que explora a pressa e a confiança da vítima. “O criminoso sempre cria uma situação de urgência para que a pessoa não pare para pensar. Se ela desacelerar e analisar o que está sendo pedido, muitas vezes percebe que é golpe”, afirma Loch.
Tecnologia é segura
Loch também orienta que os usuários revisem periodicamente os aplicativos instalados no aparelho e verifiquem as permissões concedidas. “Se aparecer algum aplicativo que a pessoa não reconhece ou não utiliza mais, o ideal é remover”, aconselha. Para ele, além da tecnologia, a principal defesa contra golpes continua sendo a informação. “Eu sempre digo que a parte mais fraca da segurança digital não é a tecnologia, é o humano. Os sistemas são robustos, mas muitas vezes quem acaba liberando o acesso é a própria pessoa”, afirma.
Como se proteger do golpe do “sequestro de celular”
- Não clique em links desconhecidos enviados por WhatsApp, SMS ou e-mail, principalmente quando prometem prêmios ou pedem atualização de dados.
- Desconfie de contatos que criam urgência, dizendo que é preciso agir imediatamente para evitar bloqueio de conta ou prejuízo financeiro.
- Nunca instale aplicativos fora das lojas oficiais, como Google Play ou App Store.
- Não compartilhe códigos de verificação recebidos por SMS ou aplicativos. Eles são de uso exclusivo do usuário.
- Ative a autenticação em dois fatores em serviços como WhatsApp, redes sociais e aplicativos bancários.
- Use senhas diferentes para cada serviço, evitando repetir a mesma senha em banco, e-mail e redes sociais.
- Revise os aplicativos instalados no celular e remova aqueles que você não reconhece ou não utiliza mais.
- Sempre desconfie de contatos que pedem acesso ao seu celular ou compartilhamento de tela, mesmo que se apresentem como funcionários de banco ou empresa.
