“Um ano de muitas batalhas vencidas”

Abre aspas

“Um ano de muitas batalhas vencidas”

Juliana Medeiros, proprietária do Circulu’s Lanches

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Atualizado terça-feira,
10 de Março de 2026 às 16:50

“Um ano de muitas batalhas vencidas”
Filha dos fundadores João e Maria, Juliana Medeiros voltou para Pelotas há duas décadas para ajudar a conduzir o negócio da família (Foto: João Pedro Goulart)

Há 35 anos, um trailer de lanches ao lado da Universidade Católica de Pelotas deu origem a um dos estabelecimentos mais conhecidos da cidade. Filha dos fundadores João e Maria, Juliana Medeiros voltou para Pelotas há duas décadas para ajudar a conduzir o negócio da família, que hoje conta com cerca de 90 colaboradores, diferentes unidades e uma cozinha industrial.

O Circulu’s completou 35 anos. Como foi viver esse momento?
Estamos ainda em êxtase pelo dia de ontem [domingo]. Afinal de contas, 35 anos têm que ser comemorados. Foram anos de muitas batalhas vencidas, muitos obstáculos que tivemos que transpor. Hoje quase 90 pessoas trabalham diretamente nos Circulu’s, e a gente queria muito proporcionar esse momento especial para elas. Mostrar o quanto valorizamos quem está conosco e quem tem esse carinho especial pela marca.

Há colaboradores que estão com vocês desde o começo?
Temos, sim. A Laura, que começou no final do primeiro ano da empresa. Neste ano, ela também completa 35 anos com a empresa. Hoje ela é gerente da cozinha industrial. Além dela, temos outras pessoas com 20, 22, 23 anos de casa. São pessoas que começaram como auxiliares de cozinha ou atendentes e foram crescendo, mostrando talento, conhecendo os processos e hoje ocupam cargos de gerência. Também é importante destacar que mais de 90% da nossa equipe é formada por mulheres.

Como começou a história do Circulu’s?
O meu pai estudou até a terceira série. A minha mãe é semianalfabeta. Eles não tinham conhecimento de gestão, mas tinham o principal: coragem, persistência e muita vontade de trabalhar. Minha mãe veio da zona rural e trabalhava como doméstica no centro da cidade. Nessas casas, ela aprendeu muito sobre culinária. Ela fazia doces e salgados para vender. Meu pai, que era motorista de ônibus, levava esses produtos para vender. Até que surgiu a oportunidade de comprar um trailer de lanches que ficava ao lado da Católica. Meu padrinho iniciou o negócio, colocou meu pai como responsável e, três meses depois, ofereceu o trailer para os meus pais. Eles aceitaram, largaram os empregos e começaram.

Como era a rotina no início?
Era muito difícil. Nós morávamos no Areal Fundos e não tínhamos carro. Meu pai levava minha mãe no bagageiro da bicicleta até o trailer, todos os dias. Durante o dia, ela preparava os molhos, cortava a carne e organizava tudo. À noite, os dois trabalhavam no trailer. Depois de um tempo, eles conseguiram comprar o primeiro carro, uma Brasília amarela. A partir dali, dá para contar a história do Circulu’s pela evolução dos carros da família. A Brasília cabia nós quatro – eu, meus pais e minha irmã – mas não cabia mercadoria. Aí veio uma Pampa, que levava as mercadorias, mas não cabia todo mundo. Depois vieram Parati, Parati com reboque e, mais tarde, a Sprinter verde do meu pai, que muita gente conheceu.

Hoje, como está estruturada a empresa?
Hoje temos alguns pontos. Temos o food truck na Fernando Osório, a matriz na Três de Maio com a Santa Cruz, a unidade da Deodoro – que atende os pedidos de delivery e retirada – e uma unidade móvel, que chamamos de “felicidade móvel”, para eventos. Além disso, temos a nossa cozinha industrial, que é o nosso xodó. Ela funciona desde as seis da manhã produzindo todos os insumos que usamos, como a maionese e a mousse de chocolate. Depois, no início da tarde, esses produtos são distribuídos para as unidades.

Quais são os principais desafios de empreender hoje?
O nosso país é cruel com quem empreende. A carga tributária é altíssima e as exigências são cada vez maiores. Empreender com alimentação exige ainda mais cuidados, porque tudo é perecível. Muitas pessoas têm uma ilusão sobre o empresário. Acham que é alguém distante da operação, mas não é o nosso caso. Nós somos trabalhadores como qualquer outro. Não temos carteira assinada, mas estamos lá todos os dias.

O que essa trajetória representa para vocês?
Os meus pais fizeram um esforço enorme para que eu e minha irmã pudéssemos estudar. Eu me formei em psicologia e minha irmã é engenheira eletricista. Hoje ela trabalha na Apple, nos Estados Unidos, como cientista. E nós somos crias do Areal Fundos. A gente nunca pode esquecer de onde veio. Sempre que aparece um problema, a gente olha para trás e pensa: já passamos por tanta coisa, essa é mais uma que vamos superar.

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